domingo, 9 de outubro de 2011

A PSICOLOGIA DO TERROR DA DIREITA CULTURAL



Por Alexandre Figueiredo

Tudo pela domesticação social do povo pobre. É por isso que a direita cultural, camuflada nas suas moitas "pró-periferia" e já infiltradas na trincheira rival da mídia esquerdista, se fazendo de "aliada" dela, tenta um discurso "positivo" que difere daquele que a mídia direitista propriamente dita tanto se expressa.

É um discurso que prefere evitar argumentos derrotistas, demonstrações de mau humor, previsões pessimistas, esses artifícios discursivos que faz com que os porta-vozes oficiais da mídia direitista sejam reconhecidos como "calunistas" e "urubólogos".

A direita cultural enrustida adota um discurso de sonho, cor e fantasia. Carrega no otimismo no máximo, cria um melodrama que faz com que os hoje ricaços ídolos do entretenimento popularesco, que já integram o establishment do mercado de bens culturais no país, sejam vistos como "coitadinhos" e "sem espaço" na mesma grande mídia na qual frequentam com maior assiduidade possível.

Mistura-se inverdades, contradições, desinformações, mitos. Dessa forma, o cientista social ou o crítico musical que exaltarem o brega-popularesco tornam-se verdadeiros "pescadores" da opinião pública, com seus textos confusos, mas razoavelmente bem construídos, que fazem esses ideólogos se tornarem unanimidade, festejados e santificados até mesmo pelos esquerdistas médios.

Mas, por trás desse discurso "otimista" que faz a "santíssima trindade" da direita cultural - Paulo César Araújo, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches - se cercar de discípulos e seguidores, há também o lado "urubólogo" de seus discursos, uma psicologia do terror que mal consegue se ocultar nos seus discursos desesperados.

"PRECONCEITO"

A expressão "preconceito" é o símbolo dessa psicologia do terror, lançado tão logo o então presidente norte-americano George W. Bush iniciou suas pregações pelo "combate ao terrorismo".

Depois de uma onda de críticas e de expressão natural do senso crítico de jornalistas de diversos níveis ideológicos - tanto o Arnaldo Jabor convertido para a direita midiática quanto o Dioclécio Luz integrado às esquerdas, passando por outros nomes como Ruy Castro e Jotabê Medeiros - , que faziam duras críticas aos fenômenos "populares" da música brasileira, hegemônicos na mídia nos anos 90, uma outra campanha veio a seguir para salvar os mesmos fenômenos.

De repente, da noite para o dia, depois que Paulo César Araújo lançou sua "água com açúcar" que é o livro Eu Não Sou Cachorro, Não, veio toda uma corrente intelectual tentando dizer que a pseudo-cultura "popular" era o "novo folclore brasileiro", em argumentações tão diversificadas e sofisticadas quanto confusas e persuasivas.

Está certo que, antes disso, o sociólogo baiano Milton Moura fez um texto porralouca defendendo o "pagodão" pornográfico pós-Tchan, no seu texto "Esses pagodes pertinentes", tão conhecido no meio acadêmico e publicado em 1996. Mas a intelectualidade etnocêntrica só atingiu seu apogeu nos últimos anos, quando o neoliberal Pedro Alexandre Sanches foi adaptar teses de Francis Fukuyama, Ali Kamel e Fernando Henrique Cardoso dissolvidos numa pretensa crítica cultural "de esquerda".

Aí vieram acusações de "preconceito" para quem reprovar qualquer estilo popularesco, seja o "funk carioca", seja o breganejo. Coitados de temporada surgiram: Waldick Soriano, Tati Quebra-Barraco, Zezé di Camargo & Luciano, Banda Calypso, Leandro Lehart.

A expressão "preconceito" foi tão usada que até mesmo veio à tona a famosa desconfiança do humorista Millôr Fernandes quanto à pretensão de "ruptura do preconceito", que seus leitores então perceberam como uma frescura politicamente correta.

Até porque que "preconceito" se atribui à rejeição analisada e ponderada da mediocridade cultural, enquanto que existe muito mais preconceito entre a gente que defende o "funk carioca" do que entre aqueles que o reprovam. Os dicionários definem "preconceito" como a concepção de uma coisa sem qualquer tipo de reflexão, o que significa definir sem conhecer.

Muitos dos detratores do "funk carioca" ou de qualquer outra tendência brega ou neo-brega conhecem aquilo que reprovam, não podem ser acusados de "preconceito". "Romper o preconceito" é que ganhou um sentido preconceituoso, na medida em que virou o sinônimo de aceitar qualquer coisa sem analisar.

O "TERROR" PSICOLÓGICO

Não bastando as acusações de "preconceito", que se banalizaram e fizeram a palavra ser muito surrada no seu uso, utilizada até mesmo no bullying digital da trolagem, a psicologia do terror dos defensores da "cultura popular" da velha mídia segue firme, por trás do discurso aparentemente dócil e sonhador.

Pesquisei vários textos desse porte, tanto da "santíssima trindade" supracitada quanto de outros autores e até reportagens diversas. De Bia Abramo a MC Leonardo, de Milton Moura e Roberto Albergaria até depoimentos de Patrícia Pillar. Todo mundo de um modo ou de outro fazendo psicologia do terror, para defender o brega-popularesco que enriquece latifundiários, barões da grande mídia e chefões do mercado do entretenimento nacional e regional.

Esnobam as acusações de alienação do brega-popularesco, que sempre trabalha elementos estrangeiros não como forma de enriquecer as culturas locais, mas de enfraquecê-las por subordinação. Argumentam que o grande público "não está aí" para tais questões. E tornou-se conhecida a manobra de Pedro Alexandre Sanches que, alikamelianamente, disse que os fenômenos brega-popularescos "são mais do que mera tradução da cultura estadunidense".

Mas a intelectualidade etnocêntrica quer mais e prega o fim de qualquer esforço de discussão estética. Sim, isso mesmo, uma intelectualidade "progressista" que, em vez de estimular a discussão, a condena, sobretudo fazendo-nos descartar um tipo de debate que existia desde os tempos da Antiguidade Clássica, que é a discussão de valores estéticos.

Para piorar, Pedro Alexandre Sanches, georgebushianamente, creditou as discussões estéticas à suposta ideia de "discriminação social". Milton Moura já definiu isso como "elitismo", e ele mesmo trabalha o sentido de sofisticação cultural - associada à MPB autêntica - de forma pejorativa. Mas isso cria uma perspectiva esquizofrênica na análise da cultura popular.

Primeiro, porque associaria pessoas de origem pobre, como Cartola e Pixinguinha, que faziam música de excelentíssima qualidade, como "burgueses". E associaria gente de classe média, como muitas das loiras que passaram pelo quadro dançarino do É O Tchan, como se fosse "gente da periferia". E é isso que faz com que os milionários empresários-DJs de "funk carioca" ainda sejam vistos como "gente pobre".

A psicologia do terror envolveu até troleiros, que, não suportando as críticas feitas ao brega-popularesco, falam em "nojinho do povo pobre". Mas o próprio Pedro Alexandre Sanches já apela para acusações de racismo quando alguém tenta criticar grupos como Psirico, Pagodart e Parangolé.

Como se os analistas da música brasileira de qualidade não apreciassem artistas negros. Como se esses verdadeiros analistas, marginalizados pelo carnaval ideológico da intelectualidade etnocêntrica, não reconhecessem o legado dos negros da nossa música. Mas reconhecem, e muito.

Exemplos como Jackson do Pandeiro, Johnny Alf, Donga, Cartola, Wilson Simonal, Jovelina Pérola Negra, Itamar Assumpção, Agostinho dos Santos, e, hoje em dia, Milton Nascimento, Djavan, Elza Soares, Dona Ivone Lara, Alaíde Costa, Seu Jorge, Martinho da Vila, Paulinho da Viola, Zezé Motta, entre outros, estão aí para provar isso.

Eles mostram que criticar Psirico, Alexandre Pires, Rosiane Pinheiro e Mr. Catra nada têm de racismo. Ou então, se for por esse raciocínio teríamos que pedir um Nobel da Paz póstumo para o ex-prefeito paulista Celso Pitta.

Há também outras acusações. Quem critica o brega-popularesco é acusado raivosamente de "elitista", "saudosista", "higienista" (ou "eugenista"), entre outros adjetivos infelizes. E se o alvo são as mulheres-frutas, acusa-se os críticos de "moralistas" e "puritanos", quando não se inverte o machismo naturalmente associado a essas "musas" acusando quem fala mal delas de "machistas".

Aliás, a inversão discursiva da direita cultural - infliltrada em parte da intelectualidade de esquerda - faz com que qualquer manifestação do senso crítico seja vista como "caça às bruxas", "higienismo cultural", "exclusão social", "preconceito" e até mesmo acusações pretensas e exageradas de "neo-macartismo", "racismo" e outras paranóias.

Tudo porque, para essa intelectualidade, temos que aceitar o processo de domesticação sócio-cultural que a velha grande mídia impõe às classes populares e, tomando por base o Ali Kamel que existe dentro desses intelectuais "de esquerda", fingirmos que a grande mídia está morrendo e que a domesticação sócio-cultural é "a doce, bela e polimórfica rebelião das periferias".

A psicologia do terror tenta desfazer o senso crítico que avança seriamente na sociedade brasileira. Com a direita cultural entrincheirada tanto na Folha de São Paulo quanto, mais enrustida, em Caros Amigos e na revista Fórum, além de espaços diversos que vão do Fantástico da Rede Globo aos colegiados das universidades.

E toda essa campanha é para manter a domesticação sócio-cultural do povo pobre, que nada tem de folclórica nem muito menos de "expressão espontânea das periferias".

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