sábado, 15 de outubro de 2011

POR QUE NOSSA INTELECTUALIDADE CULTURAL É TÃO ETNOCÊNTRICA?


PARA A INTELECTUALIDADE FESTIVA, ISSO É UMA ARQUITETURA PÓS-MODERNA.

Por Alexandre Figueiredo

Por que nossa intelectualidade cultural é tão etnocêntrica? Por que ela, em vez de estimular o senso crítico, desestimula-o completamente, até com certa paranóia. Nos pedem para que esqueçamos questões estéticas, sociológicas, antropológicas, e passemos a acreditar que a população pobre de nosso país é uma gente feliz que vive num paraíso do "mau gosto" cuja "luminosidade" somos incapazes de reconhecer.

Evidentemente, uma intelectualidade etnocêntrica, na falta de um contestador que rivalize, em visibilidade e projeção, a totens como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches - elevados a "são paulo" e "são pedro" da delirante intelligentzia nacional - , possui a hegemonia, quase monopolística, de seus discutíveis pontos de vista.

Mas esses pontos de vista, sendo discutíveis, não podem ser discutidos.

Este blogue teria, pelo menos, que ter uma visibilidade pelo menos seis vezes maior para que suas análises sobre brega-popularesco sejam reconhecidas pela opinião pública. Nosso esforço, modéstia à parte, em questionar as contradições da pseudo-cultura "popular" da velha mídia, é superior ao de muita monografia bem construída que só reafirma o estabelecido, desperdiçando seu potencial reflexivo e racional numa verborragia "científica" que apenas imita, na forma, o discurso científico dos grandes intelectuais.

Só que o Mingau de Aço assusta muita gente, porque quebra aquele clima de sonho e fantasia que parte da intelectualidade vive através dos textos de Pedro Sanches. Afinal, lida-se com uma "criançada" que, quando muito, viveu sua infância feliz nos tempos do AI-5, mas que, no grosso, formou seus referenciais através da televisão e do rádio FM, sendo "educados" por Xuxa Meneghel, pela falsa dicotomia pop/rock da Jovem Pan 2/89 FM e, agora, por Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches.

Não é um pessoal que leu textos de mestres como Nelson Werneck Sodré, Carlos Estevam Martins, Darcy Ribeiro, Paulo Freire, nem sequer o "polêmico" José Ramos Tinhorão. Na melhor das hipóteses, idolatram vagamente Oscar Niemeyer, tão vagamente que ele é tão "admirado", pela mesma idolatria acrítica e superficial, quanto Hebe Camargo e Roberto Carlos.

Talvez o que faz com que o pessoal exalte o brega-popularesco - que sua visão de classe média alta e confortavelmente estabelecida entende como a "verdadeira (sic) cultura das periferias" - é essa formação elitista, uma formação ao mesmo tempo confortável mas que dá a esse pessoal um peso grande na consciência.

Daí a exaltação paternalista dessa "simpática" elite ao povo da periferia, através do que eles veem como "popular" na TV aberta e nas emissoras de rádio AM e FM. Uma visão que não pode ser reconhecida como paternalista, porque essa intelectualidade e seus adeptos não podem expor seus traumas, sua vergonha de ser pequeno-burguesa.

Por isso, ela cria um discurso dócil e demagógico. Glamouriza a pobreza de todas as formas. Exalta o entretenimento mercadológico, mas tenta dizer que o "mercado" não existe, que o grande mercado midiático "morreu", e que as periferias fazem um "outro" mercado, supostamente novo.

Como quem procura cabelo em ovo, tentam desmentir a visão paternalista na medida do possível e dissimular qualquer postura conservadora implícita em sua retórica.

POR QUE DEFENDER O BREGA-POPULARESCO E NÃO AS MELHORIAS SOCIAIS?

Da mesma forma que, no século XIX, era complicado defender ideais iluministas fora dos limites permitidos pelo hegemônico regime escravo, hoje parece complicado defender as transformações sociais que ocorrem no mundo inteiro fora dos limites da "felicidade cultural" do "mau gosto" hegemônico na velha grande mídia.

Fica complicado porque não interessa à intelectualidade dominante - mas que não podemos defini-la como "dominante", só porque Paulo César Araújo "não recebeu um tostão" pela tese que originou seu famigerado livro sobre a música brega - que se evidenciem os problemas sociais das classes pobres, antes estes sejam resolvidos tão somente com paliativos de ordem econômica e uma mera inclusão ao consumismo.

O mesmo medo da intelectualidade do Segundo Império, de que a abolição da escravidão colocaria o Brasil em clima de guerra civil, paira na nossa "generosa" intelectualidade, acha que abolir a escravidão do brega-popularesco irá trazer a desordem popular nas ruas brasileiras, transformando o país num novo Iraque.

Alguns, paranoicamente, acham que um novo Jackson do Pandeiro na música brasileira irá fazer com que os pobres passem a saquear supermercados. Quando as favelas lançam um novo grande sambista, de grande impacto na nossa arte, a classe média alta o "isola" nos bailes da burguesia, nos salões da aristocracia, evitando qualquer contato com o povo pobre de sua origem.

Quando muito, a intelectualidade etnocêntrica prefere adestrar um Anderson do Molejo, um Márcio Victor do Psirico, ou um Xanddy ou Leandro Lehart para que eles "soem parecidos" com Jackson do Pandeiro, num artifício que evidentemente não os faz virarem grandes criadores musicais, mas simula uma música "mais lapidada", com covers de MPB e uma roupagem de luxo e de pompa.

Ou seja, em um e outro caso, a burguesia sempre manobra a cultura brasileira. O dueto de Seu Jorge - o tal artista popular "isolado" de seu povo - e Alexandre Pires - o ídolo neo-brega de aparato "mais lapidado" - é ilustrativo do que a intelectualidade quer.

E aí ela defende esse processo para ocultar as tensões sociais. Sua perspectiva de desenvolvimento do Brasil é a mesma do "milagre brasileiro": quanto mais silêncio, "melhor". Prefere-se dar continuidade ao processo do entretenimento midiático dominante e acreditar que isso é a "rebelião das periferias", num faz-de-conta ideológico que tenta ver "ousadia" em comodismo.

E aí tem outros motivos que animam a elite etnocêntrica enrustida. A chance de cientistas sociais receberem bolsas não do Estado, mas dos empresários do entretenimento. "Aí faz uma monografia da Banda Calypso, mistura conceitos pós-modernos em cima, que eu te custeio a pesquisa".

Além disso, a chance de críticos musicais viajarem pelo país de graça por defenderem o brega-popularesco, fazer palestras pagas por "investidores" que variam das universidades às redes de TV, faz a intelectualidade mergulhar fundo na defesa "apaixonada" do brega-popularesco.

Mas é uma intelectualidade complexada pela sua posição elitista. Não a chame pessoalmente de etnocêntrica, elitista ou a defina como direita cultural. Ela ficará assustada e correrá pelos cantos, choramingando e dizendo que ela "é apenas contraditória".

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