terça-feira, 4 de outubro de 2011

POR QUE CRITICAMOS PEDRO ALEXANDRE SANCHES


PEDRO ALEXANDRE SANCHES critica Fernando Henrique Cardoso, mas na prática segue fiel às suas lições.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade de esquerda, por conta de relações com parte de intelectuais etnocêntricos, anda muito assustada com os textos deste blogue que contestam, com muita frequência, a visão do jornalista Pedro Alexandre Sanches sobre cultura. Acham que o presente blogue anda pegando pesado demais e que não pode sair condenando as abordagens de um prestigiado intelectual de esquerda (sic).

Vamos explicar melhor o porquê dessas críticas.

Em primeiro lugar, ando observando muito bem os textos que Sanches escreve para a imprensa esquerdista. Já acompanhava seus textos desde quando ele escrevia para a mídia direitista, "boboalegremente", como ele disse num texto recente. Como eu pesquiso sobre cultura e leio os suplementos culturais da imprensa em geral, cabe a mim ver vários tipos de textos e conhecer o que diversos jornalistas escrevem. Até porque também sou jornalista.

O que eu observo é que Pedro Alexandre Sanches, pelos seus textos e por sua visão de cultura, nem de longe se comporta como um legítimo intelectual de esquerda, muito pelo contrário, ele camufla muitas ideias de direita - identifiquei ecos de Francis Fukuyama e Fernando Henrique Cardoso em seus textos - com referenciais esquerdistas "plantados" aleatoriamente em seus textos.

Num país cujo hábito de leitura ainda é superficial e precário, mesmo o leitor comum de esquerda lê os periódicos às pressas, sem qualquer reflexão. Por isso, a ilusão de acreditar sempre no discurso das aparências faz com que abordagens confusas e discutíveis sejam vistas como verdades indiscutíveis.

Não é uma crítica pessoal a Pedro Sanches. Critica-se ele da mesma forma que critica-se Paulo César Araújo, como se critica José Serra, Merval Pereira, Ali Kamel e Diogo Mainardi. Critica-se os procedimentos cujos sentidos se tornam bastante duvidosos e prejudiciais de alguma forma à sociedade.

HERDEIRO IDEOLÓGICO DA FOLHA

O deslumbramento que a intelectualidade de esquerda tem por Pedro Alexandre Sanches se compara ao mesmo deslumbramento que ela dava à Folha de São Paulo há 20 anos atrás. A Folha de São Paulo sempre teve um perfil neoliberal que, de acordo com as perspectivas paternalistas da classe média alta brasileira, soa "esquerdista" apenas porque parece "positiva".

A classe média alta, salvo honrosas exceções, nunca se alinhou na praxe à esquerda. Vale lembrar que o esquerdismo não tem um manual pré-determinado, mas sempre consiste em uma base de valores e crenças que, mesmo sendo volúveis, sempre possuem uma orientação ideológica, um caminho que não é determinado por um partido político, mas por posições sociais e éticas que diferem das posições associadas ao direitismo.

O que se lê, prestando muita atenção, nos textos de Pedro Sanches é pura e simplesmente uma abordagem direitista da cultura popular. Ele defende tendências mercadológicas, que se define como brega-popularesco, que historicamente estão ligadas a contextos sociais, políticos e midiáticos da direita. Apenas camufla seus argumentos da maneira que lhe convier, como se ele quisesse agradar a mídia para a qual ele escreve seus textos.

Estilos como o "funk carioca" e o tecnobrega - este um derivado do forró-brega que, no Norte/Nordeste, é duramente contestado por uma intelectualidade de esquerda - são filhos da velha grande mídia, e nem de longe foram por esta renegados. Pelo contrário, a velha grande mídia sempre tratou estes e outros estilos do brega-popularesco com muito carinho, não por medo, mas porque esses estilos estão muito de acordo com os interesses dos barões da grande mídia.

Até a quase sempre mal-humorada Veja, que condena tudo que for movimentos sociais, foi muito gentil com o tecnobrega. Talvez não o seja com o "funk", mas este estilo é sempre tratado com insuspeito apoio pela Folha de São Paulo e pelos veículos das Organizações Globo.

DISCURSO CONTRADITÓRIO

A intelectualidade etnocêntrica, sabendo das críticas que aqui se faz e que já repercutem de forma crescente na Internet, prefere se resignar e se contentar em ser "contraditória". Perde a batalha pela busca da coerência, preferindo acreditar em absurdos que permitam que se aceite a domesticação sócio-cultural do povo pobre sem que viva alma conteste de forma firme e apurada.

Pois Pedro Alexandre Sanches é um artífice desse discurso contraditório. Como qualquer outro ideólogo da direita cultural brasileira. O próprio Paulo César Araújo, contraditoriamente, disse que os ídolos cafonas eram despolitizados, mas passou o livro inteiro para tentar argumentar o contrário.

Sanches costuma encher seus textos com o máximo de referências para confundir os leitores. O que diabos está fazendo Patty Smith num texto que cita funqueiras? O que diacho está fazendo Che Guevara numa entrevista com grupos de MPB performática que choramingam a "injustiça" (?!) vivida por ídolos bregas e neo-bregas?

JOGO DISCURSIVO PERIGOSO

Os textos de Pedro Alexandre Sanches mais parecem um jogo de raciocínio. "Procure uma ideia neoliberal que escrevi, e que está escondida no meu texto", é o que ele, no fundo, quer dizer.

Só que esse jogo discursivo é muito perigoso. Desmentindo ideias neoliberais no enunciado, Sanches as reafirma no conteúdo de seu texto. Isso faz com que valores neoliberais associados ao tema cultura sejam diluídos pela esquerda como se fossem "ideais socialistas", apenas tomando como partida uma atitude paternalista e supostamente generosa com as classes populares.

Pedro Alexandre Sanches condena os movimentos sociais na medida em que atribui, como "movimentos sociais", o mero processo de consumo dos estilos brega-popularescos. Como legítimo "filhote da Folha", Pedro Sanches, ao anunciar a morte do "deus mercado", na verdade argumenta pela sua ressurreição.

É preciso um livro inteiro para analisar as contradições e equívocos do colonista-paçoca. Mas quem tem o básico do senso crítico pode comparar suas argumentações sobre "funk carioca" e tecnobrega e aquelas veiculadas na Folha de São Paulo e em O Globo. Verá, sem problemas, que são exatamente a mesma coisa.

Afinal, é mera coincidência que o que Pedro Alexandre Sanches escreve sobre brega-popularesco é rigorosamente a mesma coisa que, por exemplo, Nelson Motta, cronista do Jornal da Globo e membro-diretor do Instituto Millenium, escreve sobre o mesmo assunto?

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO TAMBÉM FEZ O MESMO DISCURSO

No artigo "A Bahia plural é filha da axé-music", Pedro já começa com uma argumentação tipicamente neoliberal, definindo a cultura como "(trans)brasileira", numa clara e indiscutível alusão ao termo "transnacional" que os ideólogos direitistas da globalização definem das multinacionais.

A abordagem "transbrasileira" de Pedro Alexandre Sanches é, da forma mais explícita possível, herdeira de conceitos de economia mundializada que o próprio Fernando Henrique Cardoso - que Sanches acanhadamente "condena" em seu texto, apenas pela sigla FHC - escreveu em sua Teoria da Dependência. Então, para que criticar o mestre se segue fielmente suas mais caras lições?

Vejam as "pérolas" que o Pedro Alexandre Sanches escreveu nos parágrafos a seguir. Ele tenta nos convencer que os mercadológicos e monoculturais anos 90 ofereceram as condições para o que ele diz ser a "polimorfia cultural", que não é mais uma gororoba que mistura alhos com bugalhos, trigo e joio, em que alhos e trigo justificam os bugalhos e o joio que dominam o establishment do entretenimento brasileiro.

Segue então os delirantes parágrafos escritos pelo sempre discípulo de Otávio Frias Filho:

Em meados dos anos 1990, a indústria musical (trans)brasileira havia inventado sua mais formidável contradição e ganhava montanhas de dinheiro com ela. Nascida na Bahia e brasileiríssima apesar do apelido híbrido, a axé music movimentava milhões contados em moeda novinha em folha (o real) e comovia multidões apaixonadas Brasil afora. Ao mesmo tempo, suscitava horror higienista - racista - por parte da mídia que se supunha mais pensante, inteligente e/ou dona da razão.

A Folha de S.Paulo chegou a cravar a música axé como trilha sonora dos anos FHC, com a intenção evidente, mas não mais que meramente cosmética, de depreciar o então presidente da república. Nessa época, eu trabalhava como operário palavroso da Folha, e compartilhava bobo-alegremente do higienismo que reinava no prédio dos Campos Elísios, atualmente transformados numa trágica cracolândia.


Não, Pedro. A axé-music não veio para depreciar FHC. Era sua aplicação local das lições da Teoria da Dependência, do neoliberalismo "baiano" que até o antropólogo Roberto Albergaria já falou. Mas Pedro, querendo se jogar na plateia, define como "axé-music" não os medalhões como Ivete Sangalo e Chiclete Com Banana, mas nomes como Mariene de Castro e Rebeca da Matta.

É tratar o leitor como se fosse um otário. Primeiro, porque o termo axé-music, sabemos, surgiu da denominação pejorativa de Hagamenon Brito e, depois, encampada pelos poderosos barões dos blocos carnavalescos que, "tão pobrezinhos", cobram uma fortuna para abadás e becas dos foliões. Segundo, porque a axé-music não iria combater FHC se era claramente patrocinada pelo seu parceiro Antônio Carlos Magalhães (que Sanches cita pela sigla ACM).

A razão para isso é muito simples. As rádios que promoveram o sucesso da axé-music são exatamente as mesmas que foram apadrinhadas pelas concessões de ACM e José Sarney nos anos 80. Vejam os donos das rádios Itapoan, Itaparica, Salvador, ou mesmo a própria Bahia FM (que só surgiu há pouco tempo, mas é do grupo dos herdeiros do "cabeça branca") e verão que a axé-music era aliada de ACM e FHC, não sua algoz.

Além do mais, Pedro Alexandre Sanches tenta confundir citando "higienismo" e outros termos pretensiosos. Até porque a "cultura popular" que ele defende, como funqueiros, tecnobregas, sambregas, breganejos etc, essa sim é que é higienista "para baixo".

Isso porque o higienismo está em isolar os valores culturais de verdade na apreciação privada da classe média abastada da qual Pedro Alexandre Sanches faz parte. O povo que curta sua "intuitiva cultura popular", eufemismo dado para a pseudo-cultura "popular" da grande mídia. Pedro Sanches é, literalmente, o moleiro do conto do "amigo dedicado" de Oscar Wilde.

É lamentável, ainda, que Pedro Alexandre Sanches, fazendo a "psicologia do terror", tenta creditar como "racistas" ou "discriminação contra os pobres" qualquer análise crítica contra a mediocrização cultural. Não podemos ter senso crítico, sob pena de sermos acusados de "donos da razão". Talvez para Sanches a razão tenha que ser um patrimônio exclusivo dele e de seus pares.

A Folha de São Paulo, nos anos 90, já estava na sua fase neoliberal. Não era uma trincheira de rebeldes. O próprio José Arbex Jr. - que Pedro Sanches deve conhecer como um dos editores de Caros Amigos - já desmascarou duramente essa fase, a mesma que Pedro "boboalegremente" trabalhou e da qual seus adeptos "boboalegremente" acreditam de que ele se arrependeu.

Fernando Henrique Cardoso também fez muito desse discurso. Se os "inimigos" de Pedro Sanches estão ligados à "Era FHC" e aos "militontos" da mídia de hoje, o "inimigo" de FHC era a "ditadura militar" e seus asseclas diretos. Ele estabeleceu seu neoliberalismo com um discurso muito semelhante ao que Sanches escreve hoje - e que não difere de outro fã de FH, o Caetano Veloso de hoje - e cheio de rodeios e pretensas desmentiras.

Quem conhece os discursos de Fernando Henrique Cardoso sabe que ele tentava desmentir o neoliberalismo, o projeto social excludente do capitalismo, a adesão ao imperialismo etc. E, com sua erudição, mesclava ideias direitistas com citações de Max Weber, Karl Marx, Emmanuel Kant, Georg Hegel e tudo o mais.

FHC se dizia também esquerdista, como continua se dizendo. Acha suas acusações de neoliberal "um exagero". Tenta se comparar a Juscelino Kubitschek e apenas diz que "limpou as impurezas" do Estado Novo varguista.

E hoje Pedro Alexandre Sanches faz o mesmo que seu "renegado" mestre. Com a sua erudição neoliberal enrustida. E a intelectualidade de esquerda, boboalegremente, acredita nas pregações do colonista-paçoca, a reafirmar o velho brega-popularesco sob o verniz do falso novo.

Quando é que a intelectualidade esquerdista irá despertar?

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