segunda-feira, 10 de outubro de 2011

PARA A CLASSE MÉDIA ALTA, TUDO!! PARA A PERIFERIA, NADA



Por Alexandre Figueiredo

Se a intelectualidade etnocêntrica fosse um pouco mais sincera, mostraria que, apesar de sua postura "sem preconceitos", demonstra ter sérios preconceitos de classe, piores do que aqueles que criticam o processo de domesticação sócio-cultural que a mídia impõe às classes pobres ou mesmo à classe média baixa.

Até porque essa intelectualidade apavorada não quer que o senso crítico estrague o mercadão do entretenimento brega-popularesco nem mostre verdades que a intelectualidade festiva gostaria de ver sempre ocultas.

Pois vemos o pessoal louvando as manifestações sociais quando elas ocorrem lá fora. Passeatas no Egito, na Líbia, na Síria, grandes protestos em Roma, Paris e Madri, gigantescas manifestações em Santiago e Buenos Aires, mega protestos em Nova York.

Mas aqui, o povo só pode consumir o "funk", o tecnobrega, o forró-brega e os "também injustiçados" breganejo, sambrega e axé-music, carinhosamente chamados de "sertanejo", "pagode romântico" e "música afro-baiana". Protestar fica chato, atrapalha o trânsito, incomoda o sossego da classe média alta e intelectualmente influente. Estraga com a festa dela, tão boazinha, coitada, num país tão paradisíaco que não cabe ter protestos de qualquer ordem.

É claro, uma intelectualidade "de esquerda" amamentada pelo "milagre brasileiro" e educada na puberdade pela ideologia de mercado proto-tucana da USP, terá sempre uma visão paternalista e idealizada das classes populares, ainda que se esforce em dissimular esse paternalismo em argumentações sutis que procurem desmentir o óbvio.

Para a classe média alta, dotada de intelectuais envaidecidos com sua gama de conhecimentos acumulados, e que detém para si os segredos das antigas manifestações folclóricas populares - quando o povo fazia cultura de qualidade sem virar massa de manobra da grande mídia - , só interessa a ela a posse do que há de mais rico e valioso do nosso patrimônio cultural.

Às classes pobres, a classe média alta reserva tão somente a pseudo-cultura "popular" trabalhada pela velha grande mídia. A classe média alta fica com o melhor, fica com a cultura de qualidade, com o saber histórico, com a análise política, e mesmo com a reputação superior de semi-deuses das ciências sociais ou da crítica musical.

Tentam desconversar, dizendo que essa "cultura popular" que está aí na velha mídia é "expressão genuína das periferias", como uma forma politicamente correta de dizer "a ralé só sabe fazer essa porcaria". Falando diferente, tentam traduzir essa frase que está nas suas entranhas por outra mais dócil: "são as periferias que sabem fazer arte intuitivamente". Leia-se "intuitivamente" como uma forma politicamente correta de dizer "burrice".

O povo pobre, segundo essa intelectualidade tão "sagrada", tem que ficar fora do debate público das esquerdas. É para isso que a direita cultural está infiltrada nas esquerdas, "arrependida" de seu passado "boboalegre". Para ela, é preciso que o povo continue submisso à grande mídia e ao entretenimento popularesco. Mas, para seu interesse prevalecer, tentam negar o óbvio, tentam desmentir o evidente, tentam renegar o mais explícito no seu direitismo paternalista.

Essa intelectualidade festiva tenta até dizer que "não existe" manipulação da grande mídia, e chega mesmo a cometer inverdades e até estar desinformada das coisas. Enquanto dizem que o "funk carioca" está fora da grande mídia, o mesmo ritmo já havia entrado nas Organizações Globo pelos portões da frente. Enquanto dizem que o tecnobrega foi boicotado pela mídia do Pará, desde o começo o ritmo foi abraçado pela poderosa famiglia Mayorana, do grupo Liberal.

Agora essa intelectualidade chora quando é contestada. Vê sua chance de eternizar sua superioridade de mentirinha se evaporar. Vê sua doce demagogia ser desmascarada e, aí, os caçadores de ídolos coitadinhos viram eles seus próprios coitadinhos. Todo mundo fazendo dramalhão só porque é contestado por suas visões equivocadas e contraditórias.

Tudo porque essa intelectualidade quer ter sua exclusividade nos conhecimentos culturais, e até mesmo a falsa "superioridade" que ela atribui ao brega-popularesco e seus "coitados" (de Waldick Soriano a Leandro Lehart, passando por Tati Quebra-Barraco e Zezé di Camargo & Luciano) é apenas uma forma deles usarem seu paternalismo para com ídolos supostamente associados às classes populares, mas a serviço de uma pseudo-cultura da velha grande mídia.

São intelectuais que condenam o senso crítico, embora digam que "escrevem para estimular a reflexão pública". Balelas. Eles apenas reafirmam o establishment do entretenimento midiático. Fazem um discurso positivista que, só à primeira vista, difere do rancor ranzinza dos "calunistas" da grande imprensa.

Mas é só o senso crítico avançar para a intelectualidade etnocêntrica mostrar que também faz urubologia, acusando os contestadores de "moralistas horrorizados". Urubus, corvos e tucanos também gostam de certas paçocas.

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