quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O CRESCIMENTO SUSPEITO DA "IMPRENSA POPULAR"


JORNAL MASSA, DE SALVADOR - EXEMPLO DO CRESCIMENTO DA IMPRENSA JAGUNÇA NO PAÍS.

Por Alexandre Figueiredo

É fato demais para ser mera coincidência. No momento em que a velha grande mídia anda sendo cada vez mais contestada, no Brasil, e enquanto crescem as mobilizações populares pelo mundo afora, o aparente crescimento da dita "imprensa popular", longe de representar sequer uma visão caolha da "ley de medios" (se levarmos em conta o que a intelectualidade etnocêntrica entende por "verdadeira cultura popular"), pode parecer mais uma tradução do velho ditado "se a esmola é demais, o santo desconfia".

A cada dia "crescem" e se "fortalecem" os jornais tido como "populares", alguns gratuitos, mas a maioria barata. E o envolvimento da velha grande imprensa em parte desses jornais mostra o quanto essa imprensa está, na realidade, indiferente a qualquer projeto de regulação e democratização da grande mídia.

Isso porque o conteúdo desses jornais trabalha uma visão muito caricata, estereotipada e grotesca das classes populares. O povo pobre, para essa mídia, é algo como "bons selvagens", que é justamente o que a intelectualidade etnocêntrica, "boazinha", "generosa" e, pasmem, autoproclamada "de esquerda", vê do chamado "povão".

Mas se até essa intelectualidade não consegue sentir o gosto venenoso da Folha de São Paulo no antigo Notícias Populares e que o jornal Expresso vive também sob a sombra da famiglia Marinho, a coisa então deve estar ainda mais estranha.

Por isso desvendamos e analisamos a situação e vemos o quanto a direita cultural se infiltrou nas esquerdas para impor seu ponto de vista. Temos uma imprensa de esquerda, como Fórum e Caros Amigos, mas que possui uma editoria de cultura atrelada à centro-direita cultural através do pupilo de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches.

Por isso o povo pobre é visto como "bons selvagens" pela intelectualidade oficial. E que, por influência da direita cultural - o fruto não cai longe da árvore - , sobretudo pelo "país da fantasia" de Ali Kamel, "não existe vulgaridade", "não existe grotesco", "o povo não é domesticado nem infantilizado", apenas se trata de uma "cultura" que "não conseguimos entender". Ali Kamel come muito certo tipo de paçoca.

A "imprensa popular" nem de longe simboliza o novo país da regulação da mídia. O povo pobre é tratado como se fossem aqueles homens das cavernas transformados em garotões sarados em comédias norte-americanas.

Isso é claro, através dos assuntos "mais importantes" que jornais como Meia Hora, Expresso, Supernotícia, Massa (Salvador) e outros divulgam em suas páginas: Big Brother Brasil, futebol brasileiro, musas "popozudas", ídolos brega-popularescos.

Alguns deles até com o visual de cores aberrantes que se assemelha mais a meros encartes de supermercados. O que dá o tom do trato da informação "popular" como mera mercadoria, e sobretudo uma mercadoria de "segunda classe", só tida como "de alta reputação" para uma intelectualidade que mistura os valores trash com o politicamente correto, promovendo o mau gosto sob o verniz da "melhor (sic) compreensão sócio-cultural do outro".

Nessa imprensa que só é "libertária" na visão etnocêntrica de cientistas sociais e críticos musicais paternalistas, não existe qualquer coisa que veja o povo numa visão digna e edificante. Não há algo que some qualidade de vida às classes populares.

Por outro lado, é essa imprensa que carrega muito no showrnalismo tão criticado pelos mais respeitados analistas da mídia. Essa "imprensa popular", explicitamente, não passaria da avaliação de gente como Venício A. de Lima sobre o que seria uma mídia democrática. Até porque a mídia conservadora mergulha de cabeça nessa imprensa popularesca, que eu chamo sem hesitar de "imprensa jagunça". Ela se comporta como jagunça do baronato da grande mídia.

CONTROLE SOCIAL - Essa imprensa se dedica ao controle social que os barões midiáticos fazem das classes populares. Desvia-se a atenção do povo para assuntos frívolos como violência, sexo vulgar, futebol e até mesmo aberrações.

Cria-se um espetáculo do pitoresco, do vulgar, do frívolo, do cafona, criando um modelo ideológico de "cultura popular" que só a intelectualidade etnocêntrica, "sem preconceitos" mas muitíssimo preconceituosa, vê como "cultura das periferias".

Isso faz com que o povo se distraia resignado com sua miséria. A pobreza, um problema social gravíssimo, se transforma num espetáculo pitoresco, sensacionalista, que diverte cientistas sociais e críticos musicais tidos como "deuses" da cultura popular, mas dotados de uma visão paternalista que, por enquanto, tentam dissimular.

Mas dá para perceber que alguma coisa está errada. Os barões da mídia são os que mais investem nesse tipo de imprensa. Como também investiriam em programas policialescos de TV.

Não há diferença fundamental entre José Luiz Datena e Wagner Montes, e, em Salvador, até Mário Kertész (um sub-Bóris Casoy que pensa ser Mino Carta e, de "intelectual", só tem a leve semelhança facial com o beatnik Allen Ginsberg na velhice, mas sem a inteligência-sensatez deste) investe em sensacionalismo barato.

Se a Globo não investe nesse filão policialesco na sua principal emissora de TV, é apenas pelo seu estilo mercadológico. Mas os Marinho investem direto no jornal carioca Expresso, a verdadeira versão brasileira do News Of The World britânico.

Com a diferença que, por estratégia, o Expresso não xinga os manifestantes sem-terra, não ataca políticos de esquerda nem crucifica ativistas sociais, se ocupando com "coisas mais importantes" como "popozudas", ídolos do futebol, ex-BBBs e aberrações pitorescas (tipo "mocréia que tem um bilau do tamanho da Via Dutra").

E, ainda por cima, o jornal Expresso ainda investe na "causa nobre" do "funk carioca", o que permite o silêncio da intelectualidade desse jornal que, no entanto, não convence pessoas lúcidas como Emir Sader, Venício A. de Lima, Altamiro Borges e Laurindo Lalo Leal Filho, intelectuais de verdade que não caem nas armadilhas "culturais" da velha grande mídia.

Para piorar, o Expresso conta com uma coluna do dirigente funqueiro MC Leonardo, cuja "classe" está pouco preocupada com "ley de medios" ou coisa parecida, só quer é ter visibilidade e lucro, nem que seja só para viver das "gorjetas" das famiglias midiáticas dominantes.

Afinal, a velha grande mídia não manipula corações e mentes só no noticiário político. Ela manipula através da sua visão de "cultura popular", porque o grosso da manipulação da opinião pública não pode se reduzir nas pregações mal-humoradas de urubólogos e calunistas para uma classe média alta nas suas refeições diárias.

O "povão" tinha que ser manipulado, segundo a velha mídia. E é muito mais do que se imagina. O que a intelectualidade etnocêntrica entende como "cultura das periferias" é apenas um eufemismo falsamente bondoso da ideia de que "a ralé é isso mesmo, o povo nunca fará algo melhor que essa bosta".

E ninguém mais habilidoso como Ali Kamel para servir à mesma intelectualidade comandada por Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches uma forma de ocultar os problemas sociais a partir da glamourização da miséria e da espetacularização da pobreza.

Isso deixa as classes populares distraídas, com o cardápio popularesco servido sob encomenda dos barões da grande mídia. Para evitar o reflexo das transformações sociais que acontecem em todo o mundo, do Oriente Médio aos EUA.

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