terça-feira, 4 de outubro de 2011

O APOIO AO FÚTIL, AO ABJETO E AO INÚTIL



Por Alexandre Figueiredo

Definitivamente, o Febeapá sobreviveu à morte de seu criador, Sérgio Porto. Mas nós podemos sentir falta de Sérgio e seu Stanislaw Ponte Preta, mas ninguém pode sentir falta de Rafinha Bastos.

É assustadora a obsessão das pessoas hoje pelo fútil, pelo inútil, pelo abjeto. Isso garante a sobrevida do decadente Big Brother Brasil, cuja queda de audiência não é suficiente ainda para a atração ser bruscamente cancelada.

Mas a patota que, em parte, sente orgulho por odiar ler livros, é capaz de desejar o Nobel da Paz ao craque Neymar apenas pelo fato dele ser goleador, e que acha uma bobagem farofeira de Guns N'Roses "genial", além de acreditar que o "funk carioca" é "verdadeira cultura popular", foi capaz, desde a noite de ontem, para militar pela volta de Rafinha Bastos para o programa CQC.

Sim, isso mesmo, uma campanha pela volta de um grosseiro machista, de semblante antipático, pseudo-nerd e reaça de carteirinha. Um "comediante" que, ideologicamente, soa um cruzamento de Jair Bolsonaro com o Pânico na TV.

Manifestações reacionárias, ou tolas, ou fúteis, existem aos montes no mundo. Tem louco para tudo, diz o ditado popular. Até o psicopata Charles Manson foi tratado como se fosse um inocente ator de filmes-B durante o modismo grunge de 1990-1994.

Mas no Brasil esses "fundamentalismos" chegam ao ponto do ridículo. A mediocridade e a futilidade atraem maior fanatismo, porque seus fenômenos são reconhecidamente ruins ou nefastos, e seus seguidores, uma minoria pseudo-influente, geralemente dotada de muita arrogância e agressividade, fazem de mil artifícios na Internet para fazer prevalecer suas vontades.

Se até a FM carioca pseudo-roqueira Rádio Cidade, quando em 1998 voltou ao pop de onde nunca deveria ter saído (era sua vocação natural), voltou ao rock por conta de uma campanha "viral" de sua "panelinha" de roqueirinhos de butique de extrema-direita, com e-mails falsos e outras manobras, dá para perceber o quanto o "indispensável" Rafinha Bastos pode ser beneficiado por essa patota reaça.

A natureza não dá saltos e essa geração ainda era criança quando as práticas de bullying não passavam de uma "brincadeira sadia" de uns colegas "irreverentes" contra outros mais tímidos. Afinal, essa turma se educou nos anos 80 e 90 em que os valores sociais e as referências culturais entraram numa profunda crise, causando o colapso que se reflete até hoje.

E isso não vai só no âmbito da trolagem. Mesmo as pessoas "mais sérias e corretas" caem nessa armadilha. Põe, por exemplo, dois homens, um que cometeu um crudelíssimo crime passional contra uma ex-noiva e está em liberdade condicional pelas brechas da lei, e outro que é até feio e solitário, mas é carinhoso, fiel, batalhador e ainda faz belos poemas.

Coloque qualquer um deles para tentar conquistar mulheres numa boate. Infelizmente, o criminoso passional, que pode ser um mau namorado, péssimo marido e um mau caráter em geral, mas é exímio conquistador, tende a levar mais vantagem.

E isso é uma triste verdade, num país em que o machismo já está agonizante, mas ainda dá seus derradeiros urros como um leão ferido. Houve um crime passional cometido por um já ex-professor universitário em Brasília, que agora faz todo seu teatro de coitadinho para ver se ganha uma "condicional".

Por outro lado, a outra face do machismo tenta nos convencer de que as decadentes paniquetes e mulheres-frutas "estão em alta". Se o Léo Santana do Parangolé não tem a menor paciência com Nicole Bahls, é sinal de que tal ideia não faz sentido. Mas ela prevalece. É o Febeapá.

Num país onde o impune Guilherme de Pádua, assassino de Daniella Perez, se acha no direito de, se possível, processar a mãe dela, a escritora de novelas Glória Perez, por cada crítica que esta fizer contra ele, faz sentido que um machista grosseiro mascarado de "humorista" faça sucesso com suas baixarias.

E agora, Rafinha Bastos poderá ter a chance que Jânio Quadros - que, dizem alguns engraçadinhos, é o "pai do Twitter", por causa dos seus bilhetinhos que ele escrevia, como presidente da República, há 50 anos - sonhou e não teve, que é de voltar "carregado pelo povo" para reassumir o comando com poderes discricionários.

Dessa forma, reconduzido ao poder, Rafinha Bastos fará mais piadas grosseiras. Qual será a próxima? Dizer que Pimenta Neves, já no final de sua vida, merece ser enterrado com as honras de um chefe de Estado? Ou fazer mais comentários ofensivos contra as minorias dignas e já carentes de respeito necessário como cidadãos?

Antes Rafinha elogiou estupradores. Depois disse que "comeria" uma gestante famosa e seu bebê. Qual será a próxima piada, depois que Rafinha voltar para o CQC carregado pelo seu "povinho"? Coisas piores podem vir, de alguém que não conhece limites.

Mas o Brasil tornou-se o paraíso astral da "cultura trash", do politicamente incorreto que não é mais do que a face "rebelde" do politicamente correto. Ambos, politicamente correto e politicamente incorreto, não conhecem limites. O politicamente incorreto expõe abusos, neuroses e preconceitos, o politicamente correto os mascara.

Dessa maneira, Rafinha Bastos, José Luiz Datena, Merval Pereira, Eugênio Arantes Raggi, Pedro Alexandre Sanches, Ali Kamel, como Jair Bolsonaro, Kátia Abreu, Fernando Collor, Jaqueline Roriz, Gilberto Kassab, José Serra, todos são filhos de um Brasil fisiológico, do "jeitinho brasileiro" reciclado mas dissimulado.

É um país dotado de uma parte reacionária mas envergonhada de nosso país, que é "politicamente incorreta" na hora de extravasar seus instintos e neuras, mas é "politicamente correto" para escondê-los à sombra de qualquer encrenca.

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