quinta-feira, 6 de outubro de 2011

JOSÉ LUIZ DATENA, GISELE BÜNDCHEN E A BAIXARIA 'LIGHT'



Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade de classe média alta parece que só começou a ver as baixarias da mídia através de suas manifestações light, dentro de um contexto claramente conservador e negativista, quando, por outro lado, permite que outras baixarias, até piores e mais grotescas, aconteçam porque elas são feitas de forma "positiva" e "mais divertida".

Recentemente tivemos o caso de José Luiz Datena, apresentador de programas "mundo cão" ou de "jornalismo brucutu", e Gisele Bündchen, pelo uso de sua imagem em comerciais que tratam a mulher feito um objeto.

José Luiz Datena é contestado dentro de um contexto de surto reacionário do Grupo Bandeirantes de Comunicação. Que, nos últimos três anos, havia feito ataques diversos ao MST, contratou Bóris Casoy que, tempos depois, atacou os garis, e tem como atração humorística o programa CQC ("custe o que custar"), comandado pelo Marcelo Tas associado ao Instituto Millenium (como seu xará casseta) e destacado pelo machismo de Rafinha Bastos.

Datena - que seus detratores apelidam de "José Luiz Dá Pena" - havia se tornado símbolo do "jornalismo mundo cão" desde os anos 90, juntamente com Carlos Massa, o "Ratinho". Datena tornou-se conhecido pelo programa Cidade Alerta, que marcou o setor "mundo cão" depois de O Povo na TV, nos anos 80, e Aqui Agora, nos anos 90, estes dois no SBT.

Talvez o mau humor de Datena - que não mostra "desfile" de popozudas nem "concurso" de funqueiros - o torne mais facilmente criticável, e seu moralismo o faça, aos olhos da intelectualidade etnocêntrica, uma figura menos "divertida" que os outros congêneres, que chegam a ser considerados "admiráveis" por "adaptar o jornalismo ao gosto do povo" (sic).

Quanto à modelo Gisele Bündchen, ela havia causado problema em três ocasiões. Uma é quando fez várias declarações polêmicas numa entrevista, relacionadas a filtros solares e à amamentação. As outras duas já se referem a comerciais em que ela explora a imagem machista da mulher, seja como empregada doméstica, no comercial da operadora de TV SKY (filial brasileira da operadora do magnata Rupert Murdoch), e como mulher objeto no comercial de roupas íntimas Hope.

Gisele, mulher emancipada e independente, que não depende do marido, o astro do futebol americano Tom Brady, para faturar e se projetar na mídia - aliás, é Tom que, fora dos EUA, se alimenta da fama dela - , contradiz sua função quando faz papéis de "submissa" no comercial da Sky e de "mulher objeto" no comercial da Hope. Não bastasse o trocadilho que seu sobrenome de origem germânica pode causar em piadas maliciosas.

O que têm em comum José Luiz Datena e Gisele Bündchen é que eles estão dentro de um contexto sócio-econômico e midiático que já é hostilizado pelo mainstream da intelectualidade. Por isso tornam-se facilmente criticados, em detrimento de seus similares que, mesmo podendo fazer baixarias piores, são até aplaudidos porque estão num contexto "mais popular".

Mas o que dizer de um Wagner Montes com o mesmo background de Roberto Jefferson, ambos originários de O Povo na TV, beneficiado pela militância funqueira (vista pela pequeno-burguesia "de esquerda" como "causa nobre") e pela exibição de popozudas para "adoçar" seu showrnalismo tão truculento quanto o de Datena?

Ou o que dizer das baixarias de jornais como Meia Hora e Supernotícias (este com o visual estético de um encarte de supermercados), que chegam a "estuprar" as regras gramaticais na medida em que denominam qualquer mulher truculenta ou assassina de "monstra"?

Musas popozudas cometem muito mais gafes que Gisele Bündchen, mas como elas fazem a "alegria de pobre" que faz a paternalista classe média alta dormir tranquila, elas são poupadas de qualquer crítica. Podendo até mesmo parodiarem "sensualmente" freiras e enfermeiras ou posarem amarradas em árvores.

Afinal, as popozudas não moram nos EUA, não são casadas com astros de basquete - elas, em sua decadência, já começam a levar fora até de jogadores de futebol de segunda divisão - , e várias delas são também funqueiras ("causa nobre", diz a intelectualidade etnocêntrica). A intelectualidade paternalista não mexe com elas, e, pior, ainda desqualifica de "moralista" quem usar uma única vírgula contra elas.

Chega a ser contraditório que as baixarias light sejam vistas como o grotesco do grotesco, enquanto baixarias piores são vistas como algo positivo, quando seus "analistas" até se assustam quando uma mulher-fruta da vida é duramente criticada.

Mas parte da intelectualidade é feliz mesmo em ser "contraditória" e quer restringir o senso crítico apenas à agenda política ou ao âmbito "elitista" da velha grande mídia. Acham que, se o pobre se sentir alegre com alguma baixaria, é que ela é necessariamente "saudável".

Vamos criticar Datena e Gisele, sim, porque onde houver algum erro, ele deve ser criticável. Mas não deixemos de lado as baixarias que, como cantos de sereia, seduzem a população pobre, desprovida de escolaridade e sofrendo a crise de valores éticos que já corrompe nosso país.

Ó intelectualidade alegremente contraditória, que aplaude a Ley de Medios desde que ela não mexa com as baixarias das popozudas. Quando essa intelectualidade sairá do seu pedestal?

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