sábado, 1 de outubro de 2011

JORNALIXO E A ARROGÂNCIA DA AXÉ-MUSIC



Por Alexandre Figueiredo

O péssimo jornalismo da velha grande imprensa - que contrata novos profissionais nem sempre pelo talento, mas pelo compadrio, daí a obsessão dos barões da grande mídia pelo fim do diploma de Jornalismo - mostra que, além de cometer equívocos, exageros e gafes, agrava para a prevalência de certos valores retrógrados ou certos procedimentos errôneos na medida que os apoia ou consente.

Pois o jornal O Dia - ícone da chamada "imprensa boazinha" que já mostrou a que veio através da Isto É que "extinguiu" o MST e da TV Bandeirantes que depreciou os garis e também "combate" os sem-terra - veio com uma "pérola" do jornalixo logo na capa da edição de 01 de outubro, sobre a apresentação de Ivete Sangalo no Rock In Rio 2011.

Pois a manchete da apresentação anunciava "Ivete incendeia a Cidade do Rock". Se fosse pelo sentido da informação jornalística, isso sugeriria uma catástrofe em que uma cantora piromaníaca causava um incêndio no palco que teria causado várias vítimas e um clima de pânico na plateia. Mas a manchete anunciou apenas o sucesso de uma apresentação ao vivo.

É uma manchete típica do péssimo jornalismo, confundindo metáforas com informação, mesclando jornalismo e marketing. Ainda que fosse isso, vá lá, era condenável, criticável, mas seria tão somente um mau jornalismo. Mas pior é que a manchete mostra muito mais do que um mero equívoco de linguagem ou um simples deslize profissional.

Ela faz reforçar o mito arrogante dos ídolos da axé-music, que sempre costumam usar metáforas catastróficas em sua publicidade, como se eles, não bastasse serem os senhores do tempo e do espaço, bancarem os senhores da meteorologia. Certamente, nenhum ídolo da axé-music estava no Japão no dia em que um tufão passou pelo país há alguns dias.

Os axézeiros se acham os donos do tempo, achando-se eternos, mesmo muito datados - uma música nova do Asa de Águia, por exemplo, soa muito mais mofada do que a canção mais antiga de Sidney Miller, que faleceu há 31 anos - e bastante medíocres e repetitivos.

Se acham os donos do espaço, e contraditoriamente sufocam outras manifestações culturais na Bahia enquanto invadem espaços alheios sem pedir licença. Não deixam as demais manifestações musicais terem espaço em Salvador, mas em compensação se acham no direito de fazer micareta até em Florianópolis e Belo Horizonte. Se deixarmos, a axé-music baiana domina todo o carnaval pernambucano e expulsa todos os artistas locais do circuito.

E é hipocrisia um Pedro Alexandre Sanches querer passar a mão na cabeça dos artistas baianos marginalizados pela monocultura carnavalesca, dizendo que "tudo é axé-music". Porque nomes como Mariene de Castro, Jussara Silveira, Rebecca da Matta, Carlinhos Cor das Águas, Lazzo, só têm espaço quando cooptados pelo esquemão dos "grupos de trios" do Carnaval, quando se contentam em ser meros coadjuvantes, quase figurantes, do estrelismo dos medalhões do "axé".

E, não fosse somente essa arrogância toda, a axé-music usa metáforas catastróficas, como se seus ídolos não fossem apenas ídolos, mas "semi-deuses", narcisos de Júpiter. Suas apresentações são "incêndios", seus ídolos são "furacões", suas performances são "terremotos". É brincar com a Natureza e tratar o público feito trouxa.

Deve-se pelo menos ter algum respeito com as intempéries, com o sofrimento de quem enfrenta furacões, terremotos, incêndios. Fará 50 anos o trágico incidente do incêndio do Gran Circo Americano, em Niterói, que ceifou vidas de muitas crianças.

E nenhum ser humano conseguiu convencer que está acima das intempéries naturais. Quanto mais os ídolos da axé-music. E quanto mais a "musa do Cansei" Ivete Sangalo, arrogante e obsessa pela superexposição e pela fama.

O jornal O Dia cometeu um desserviço aos seus leitores. Mas, acima de tudo, contribuiu para o estrelismo arrogante e megalomaníaco dos medalhões da axé-music.

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