segunda-feira, 31 de outubro de 2011

FESTA PARA EVITAR OUTRAS "OCUPAÇÕES"



Por Alexandre Figueiredo

Só mesmo o Brasil para modismos comerciais venderem a imagem de pretenso engajamento sócio-cultural. Só mesmo no Brasil ídolos do establishment do entretenimento, em vez de se orgulharem com o sucesso, ficam reclamando de "falta de espaço" na mídia. E, o que é mais absurdo, reclamam da falta de espaço da mesma mídia que lhes dá o maior espaço, e, não raro, reclamam da falta de espaço na mídia no mesmo espaço que a mídia dá para eles.

Ontem houve o "baile funk" do Largo da Carioca, intitulado Rio Parada Funk. Patrocinado por autoridades cariocas e pelos barões da grande mídia, o evento, que mais uma vez celebra o pretensiosismo "engajado" do "funk carioca", é uma forma de tapear as coisas, um "movimento social" que tenta desviar a atenção de outros movimentos sociais.

Pois é uma festa apenas, feita para evitar outras "ocupações". A tese de que o "funk carioca" é um "movimento social" se baseia no mito de que o Brasil é um "paraíso tropical", sem tensões sociais, o mesmo paraíso difundido por Ali Kamel, Luciano Huck, Fausto Silva e pelos jornalistas que, na Ilustrada, servem a propósitos culturais de Otávio Frias Filho.

O grande problema é que o pessoal que acredita nesses valores tenta mostrar o contrário, seguindo Emir Sader no Twitter e batendo palmas em tudo o que Venício A. de Lima, Fábio Konder Comparato e Laurindo Lalo Leal Filho falam sobre regulação da mídia. Sem ter ideia dos efeitos que a regulação da mídia trará.

Ninguém percebe que o "funk carioca" é composto por valores e expressões claramente herdados da velha grande mídia. O ritmo não é mais do que um pop dançante medíocre, que distorceu ao máximo do grotesco tendências interessantes do verdadeiro funk eletrônico difundidas nos anos 80, como o eletrofunk de Afrika Bambataa e o freestyle.

Mas o "funk carioca" tenta se impor como algo que não é, por conta de uma campanha ideológica engenhosa, dotada de argumentos confusos, desesperados, com falsos referenciais de comparação, uma retórica que não condiz com o ritmo a que defende no seu discurso. Porque é um discurso que morre quando se toca um CD de "funk".

Pois quando se vê textos sobre a música de Bob Dylan, por exemplo, e faz-se uma comparação tocando seus CDs, dá para perceber que as citações do movimento beat, da Contracultura dos anos 60 e do movimento folk estão realmente relacionados com a música do cantor. Se alguém tocar um CD de Bossa Nova, depois de ler um texto relacionando-a com a intelectualidade da geração pós-modernista (Vinícius de Moraes, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector), verá que a relação tem tudo a ver.

Mas se alguém tocar um CD de "funk carioca", não vai ver qualquer relação com as referências tendenciosamente "atribuídas" ao gênero, como a Semana de Arte Moderna, o Tropicalismo, a Revolta de Canudos, a pop art. Nem mesmo o punk rock, até porque o "funk carioca" sempre foi pró-sistema, por mais que diga o contrário.

O que se vê é um ritmo sem melodias, artisticamente repetitivo, ruim nas letras e pior nos valores sócio-culturais difundidos. Mesmo o "funk de raiz" parece tão cômico quanto quadros musicais de programas humorísticos. O "protesto" não existe. Por outro lado, os próprios funqueiros glamourizam a própria pobreza, transformando-a num espetáculo.

O maior problema é que a intelectualidade dominante no Brasil, com críticos musicais educados pela mesma velha mídia televisiva da qual dizem ter rompido (mas seguem suas ideias obedientemente) e cientistas sociais educados na burocratização educacional herdada dos anos de chumbo, não quer que se estabeleça o senso crítico no país.

Por isso, quer essa intelectualidade que encaremos o espetáculo da mass media sem os olhos críticos que marcaram pensadores como Pierre Bourdieu, Guy Debord e Jean Baudrillard, e que até hoje nomes conhecidos como Noam Chomsky e Umberto Eco fazem. Isso apesar dos esforços brasileiros de um Muniz Sodré e, até um passado recente, o geógrafo Milton Santos.

Quer a intelectualidade dominante de hoje - que não se acha dominante, pasmem - que encaremos a espetacularização da miséria pela grande mídia com a condescendência que os credita como "inocentes fenômenos pós-modernos".

Na carência de grandes movimentos sócio-culturais, tomamos o patético "funk carioca", uma das últimas e desesperadas heranças da mesma velha mídia de urubólogos e calunistas, como se fosse "o maior movimento sócio-cultural do país". Foi essa lorota que fez o forró-brega virar um império monocultural no Ceará, e que encheu os bolsos dos mega-empresários da axé-music, anos atrás.

Pois, ideologicamente, não existe a menor diferença entre Mr. Catra e William Waack, Valesca Popozuda e Eliane Cantanhede, MC Leonardo e Ali Kamel. O "funk carioca" sempre andou de mãos dadas com a velha mídia, desde os tempos em que era apenas um ritmo brega-popularesco local, apoiado há muito tempo e com entusiasmo pela rádio 98 FM (hoje Beat 98), um dos patrimônios da famiglia Marinho.

Agora, se o pessoal insiste em fazer confusão entre os "bailes funk" de rua com movimentos sérios como Ocupar Wall Street, é bom esse pessoal verificar se andou bebendo demais ou se andou vendo "coisas".

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