quarta-feira, 12 de outubro de 2011

A "FAXINA" IDEOLÓGICA DA CRÍTICA MUSICAL


CAPA DA BIZZ DE NOVEMBRO DE 1991: MARCO DA DECADÊNCIA OFICIAL DA CRÍTICA MUSICAL NO PAÍS.

Por Alexandre Figueiredo

Para entendermos a gravidade do avanço da direita cultural em nosso país, praticamente tomando as esquerdas como reféns, vamos entender o processo de decadência da crítica musical de nosso país, resultante de uma "limpeza" ideológica movida por disputas pessoais.

Nos anos 70 e 80 tivemos uma crítica musical dotada de muita sabedoria e inteligência, de gente que não apenas entrevistava o who is who da cultura brasileira, mas escrevia artigos difundindo e defendendo uma cultura de qualidade, pelo critério de avaliação dos talentos.

Eram pessoas que sabiam transmitir a história cultural brasileira, independente do nível ideológico, mas com a missão honesta de informar e mostrar verdadeiros valores não só de nossa cultura, como os valores de culturas estrangeiras.

Tivemos várias revistas dedicadas à música, e a mais famosa foi a Bizz. Evidentemente, a revista era uma publicação da Editora Abril, que já mostrava uma Veja sensacionalista e ultraconservadora naqueles idos de 1985. Mas a Bizz foi uma síntese da MTV norte-americana dos bons momentos e da New Musical Express e Melody Maker em seus momentos mais acessíveis, pela gama de informações que oferecia para seus leitores.

No entanto, havia uma fogueira das vaidades em seus bastidores e uma elite de críticos menos talentosos passou a espalhar que havia uma "elite" de músicos-jornalistas que só interessavam em transmitir seu "gosto pessoal" para as páginas da Bizz. Isso causou uma "torre de Babel" que fez ascender o "despotismo esclarecido" de André Forastieri, o homem que "derrubou" a Bizz.

O niilismo de André Forastieri - a seu tempo, uma espécie de pré-Diogo Mainardi da crítica musical - de confundir os leitores depreciando e ofendendo a música de qualidade, definindo vários clássicos da história da música como "os piores discos de todos os tempos" e preferindo fazer resenhas bobas sobre a mancha das pernas de Angélica (a hoje sra. Luciano Huck), fez uma boa revista como Bizz queimar tanto sua imagem que seu breve retorno entre 2004 e 2006 foi aquém das expectativas e hoje a revista vive uma "sindrome da revista Manchete", que só volta para "edições especiais".

Forastieri fez um verdadeiro bullying impresso de tal forma que ele tentou dar uma de "arrependido". Saiu da Bizz e criou um pseudo-fanzine chamado General. Não deu certo. Tentou uma vaga na Caros Amigos para mostrar uma visão "mais madura". Não deu certo. Com isso, ele preferiu ser empresário de editora de quadrinhos e investir num blogue escondido do R7.

Mas André Forastieri não é Marco Antônio Araújo (O Provocador), seu colega do "laboratório" blogueiro do R7, e muito menos Pepe Escobar. Este foi uma espécie de versão pop do David Nasser, pelas "entrevistas inventadas" que fez com sua brilhante escrita. Criou problemas e sumiu. Hoje Pepe, realmente arrependido, faz reportagens sérias e relevantes sobre fatos políticos no exterior.

Na era da crítica musical pós-Forastieri, criaram-se condições para o florescimento de uma geração que não desempenhasse o senso crítico, mas apenas louvasse o estabelecido pelo mercado. Pouco importa se são medalhões inabaláveis da música de qualidade, ou "armações" criadas pela indústria do entretenimento, o crítico musical terá que baixar a cabeça e fazer meros pre-releases de suas atividades.

Mas ainda havia a última trincheira nos jornais, de inteligência e reflexão. Pessoas que mostravam que havia uma música de qualidade em detrimento de outra de gosto muito duvidoso. Dessa maneira, a "faxina" feita em primeira etapa pela Bizz faria sua nova etapa nos jornalões, num processo que, no âmbito geral, Otávio Frias Filho havia feito quando instituiu o "Projeto Folha".

A ascensão da direita cultural que só louva o "deus mercado" então eliminou as últimas resistências quando cooptou para si uma intelectualidade que já não mais reprovava a "cultura de massa" do brega-popularesco, mas a exaltava como uma "cultura de coitadinhos" que deveria ser "respeitada" (isto é, aceita sem críticas).

Mas essa direita cultural cria um discurso tão sofisticado que sua visão chega a criar uma impressão oposta à que realmente é. Por exemplo, tentam creditar sua visão mercadológica de "cultura popular" como se fosse uma pregação marxista, mas nela estão camuflados conceitos tipicamente neoliberais, selvagemente capitalistas.

A direita cultural, consagrada na sua "santíssima trindade" de Paulo César Araújo, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches, procura assim dizer um enunciado que se opõe completamente ao seu conteúdo. Dizem que farão a "revolução socialista" ao exaltarem as mesmas tendências musicais mercadológicas que vemos na Nativa FM, Band FM, Beat 98 e similares.

Eles acham que promovem a reflexão. Mas seus textos confusos, dotados de uma gororoba de referências, não são mais do que press-releases retoricamente sofisticados, propagandas de brega-popularesco travestidas de etnografias, historiografias e ativismos sociais.

Mas eles, intelectuais endeusados pela classe média alta "sem preconceitos" mas muito preconceituosa, dotada de visões paternalistas em relação às classes populares, tiveram sua ascensão condicionada pelo verdadeiro "higienismo" da imprensa musical, que fez extinguir qualquer expressão de senso crítico no ramo.

Esses intelectuais até tentam inverter o discurso, dizendo que "promovem a reflexão crítica", tentam vender sua crítica cultural até na mídia esquerdista, mesmo com um forte ranço demotucano nos seus argumentos e nos "personagens" exaltados.

Mas cedo ou tarde suas contradições vão entrar em choque com a realidade que eles tentam esconder com seus discursos bem articulados e "boboalegremente contraditórios".

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