segunda-feira, 17 de outubro de 2011

"ESQUERDA" QUE ATACA AS ESQUERDAS?



Por Alexandre Figueiredo

A direita cultural fez soar o alarme. A intelectualidade esquerdista mais frágil, surda a avisos um tanto "desagradáveis", finge que não ouviu e, vendo que tais avisos não vem de alguém com forte visibilidade, ignoram completamente.

A centro-direita cultural, mesmo em seus disfarces "esquerdistas", prega suas armadilhas traiçoeiras. Mas se a intelectualidade insiste em elogiar a armadilha por causa da isca, então a coisa é mais séria.

Sabemos que Pedro Alexandre Sanches, um dos arautos da cultura de centro-direita, havia numa entrevista feito uma conversa estranha com Gustavo Alonso. Ambos, se autoproclamando "de esquerda", estavam não só depreciando Chico Buarque, mas elogiando Emílio Garrastazu Médici, cuja "popularidade" era animadamente comentada pelos dois.

Eles estavam criticando as esquerdas não pela crítica natural, mas pela vontade de depreciar mesmo. Alonso, no seu esforço de reabilitar Wilson Simonal, queria fazê-lo às custas da depreciação do "mito" de Chico Buarque, dizendo que seu esquerdismo era de fachada e inventado pela RCA Italiana. Como se Chico não fosse filho de Sérgio Buarque de Hollanda nem convivido com a geração de intelectuais sua e de seu pai, com sincera tradição de centro-esquerda.

Isso é o que mostra o quanto a centro-direita cultural pode manipular a bel prazer a opinião pública. Afinal, não basta criticar os algozes da moda se segue as suas lições totalmente.

É muito fácil atacar a Folha de São Paulo, mas se segue fielmente suas lições, ainda que de forma não assumida, é como se defendesse a FSP como se fosse um ente querido. O discípulo pode fazer mil xingações para seu mestre, se segue suas lições à risca, é como se fizesse dois mil elogios em vez de mil xingações.

É claro que, dentro da esquerda, existem divergências e críticas são possíveis. Mas quando uma "esquerda" critica para depreciar e ainda por cima elogia, de forma enrustida, valores e ícones da direita, é bom prestar mais atenção.

Só que, em vez disso, o que vemos é uma intelectualidade que prefere "ser contraditória" a abrir mão dessa "etnologia" de conto-de-fadas. Prefere construir sua "maçonaria" digitalizada dentro dos sonhos brega-popularescos de uma classe pobre idealizada, transformada num dócil estereótipo que garanta a paz forçada do mercado e do entretenimento acríticos.

É estranho também a visão equivocada de que ser "de esquerda" é não ter o senso crítico afiado, mas ter que baixar a cabeça para louvar e elogiar o "estabelecido" pela mídia "cultural" dominante, numa inversão ideológica clara de que o senso crítico é apenas um "desagradável" patrimônio da direita cultural.

Em outras palavras, desde quando se é "de esquerda" baixar a cabeça e achar que o mesmo brega-popularesco elogiado carinhosamente pela Folha e TV Globo é a "doce rebelião do mau gosto" que salvará o povo de nosso país? Seremos direitistas se fizermos qualquer questionamento a isso? Não, muito pelo contrário!

A intelectualidade realmente de esquerda já começa a admitir, em seus diversos matizes, que existe o respaldo de parte da direita, que quer manter a dependência do Estado ou manter o padrão de controle social das classes populares.

Claro, disfarça-se como pode. Se é do PMDB, não pode assumir a máscara esquerdista no seu todo. Torna-se apenas um "simpatizante". Fácil é um político como Marcos Medrado, na Bahia, sair confortavelmente de sua presidência do PP para entrar num PDT que no Estado não tem pé nem cabeça, parecendo mais um satélite perdido no lixo espacial deixado pelo carlismo.

Marcos Medrado tanto quis vender a imagem de "centro-esquerda", dentro do atual contexto de patrocínio do brega-popularesco local através de suas rádios em toda a Bahia, que ele foi identificado na lista de parlamentares ruralistas divulgada no ano passado.

LIÇÕES DIVERSAS

Desde a infância, muitos de nós ouvimos a história da Chapeuzinho Vermelho com o Lobo Mau disfarçado da avó da protagonista. Parece tolo citar isso, mas mostra o quanto as histórias infantis advertem quanto às manobras da esperteza humana.

Mas há também o famoso caso do Cabo Anselmo, que no seu tempo era visto como um "esquerdista apaixonado", que "falava mal" do imperialismo norte-americano, que mais tarde revelou-se seu patrocinador mais empenhado.

Hoje, por conta de tantos "simpatizantes" e "adesistas", o projeto esquerdista se perde em projetos privatistas, obras faraônicas (seja as obras urbanas para o turismo da Copa de 2014, seja a hidrelétrica de Belo Monte) e, no âmbito do entretenimento, uma visão de "cultura popular" que mais parece de tecnoburocratas e latifundiários.

Não é de estranhar que a visão que Pedro Alexandre Sanches serve na imprensa esquerdista é literalmente a mesma que vemos nas primeiras páginas da Ilustrada da Folha de São Paulo e do Segundo Caderno de O Globo. Ou que a "diva" Gaby Amarantos é acariciada até por uma revista Veja que, se pudesse, falaria mal até de Deus.

Não tem invasão, nem rebelião, nem contradição. A cultura é um reflexo do cotidiano social em que vivemos. E isso inclui política, economia etc. E reflexo não se entende como um oposto, mas como algo em função dele.

Como é que rádios e TVs que respaldam o coronelismo político e eletrônico, quando tocam seus sucessos da "cultura popular" de mercado, seriam consideradas como o oposto ideológico do próprio processo midiático?

Como é que comentaristas políticos e programadores musicais, igualmente envolvidos no mesmo contexto midiático, iriam "brigar" entre si por fazerem a mesma coisa?

Não há a menor rebelião nas tendências "populares" que só "desafiam" pelo pitoresco? São modismos musicais ou comportamentais meramente sensacionalistas, pretensiosos, que até depreciam as próprias classes pobres pela exploração estereotipada de sua imagem, reduzida a um perfil infantilizado, resignado e mediocrizado.

Está na cara que isso não é revolucionário nem desafiador. Superestima-se a "rejeição" que os ídolos dessa "cultura popular" recebem, convertidos em falsos heróis culturais por nada. Apenas são rejeitados pela clara mediocridade que representam. Nada de moralismos, preconceitos ou higienismos.

Até porque a cultura das classes pobres, no passado, era bem superior, assustava não pela "rejeição" que recebia da alta sociedade, mas pela expressividade que tocava nas feridas das elites. E os grandes artistas populares, podendo citar, por exemplo, nomes como João do Vale, Zé Kéti, Cartola e Jackson do Pandeiro, nenhum deles era um reles coitadinho querendo entrar no primeiro time da MPB. Eles entraram na galeria da MPB pela força natural de sua arte, de sua cultura.

Pedro Alexandre Sanches pensa como Ali Kamel, Francis Fukuyama e Otávio Frias Filho. Poderá ser o Arnaldo Jabor de amanhã, talvez um pouco mais brega. Ele consentiu que um entrevistado elogiasse Emílio Médici, cujo governo acobertou um esquema de torturas e mortes violentas de manifestantes e políticos humanistas. O pai de Marcelo Rubens Paiva, que, este sim, rompeu com a Folha, estava entre eles.

Isso é que era higienismo social. O expurgo de "esquerdistas incômodos", sob o governo do "adorável" general Emílio Médici, que implantou o AI-5 para fazer uma "limpeza" ideológica para se livrar dos que não acreditam no "Brasil Grande".

E o próprio Sanches, porta-voz de um Brasil "esquerdista" com QI neoliberal, foi criado dentro do higienismo ideológico da Folha de São Paulo, acreditando nos seus mesmos valores por mais que tente dizer o contrário.

Vemos urubus comendo paçoca na praia.

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