quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A ESPETACULARIZAÇÃO "CULTURAL" DA MISÉRIA



Por Alexandre Figueiredo

Olhe bem para essa foto. Há um homem miserável, na rua, no meio fio sob risco de ser atropelado por um carro em corrida. Ele dorme, estava embriagado, e provavelmente segue com seu drama de abandono, miséria e sofrimento.

Para o intelectual etnocêntrico, aquele mesmo que é endeusado por nove entre dez blogueiros "bacaninhas" que vendem um mundo de cor e fantasia, a cena porém tem um significado completamente diferente. Seria mais ou menos assim:

"A admirável cena mostra o quanto a gente pobre tem um belo exemplo de sabedoria pop contemporânea. Nas passarelas modernas da cidade transglobalizada, da urbe transbrasileira de nosso sagrado-profano dia-a-dia, até mesmo os mendigos captam todo esse caleidoscópio pop existente, na passarela ao ar livre das grandes cidades. E seu espaço físico, eu diria transespaço, mostra que para a gente pobre, não há diferenças, tudo é uma coisa só, as ruas onde passam carros e as calçadas de pedestres.

Tudo é pop, tudo é moderno, tudo é transbrasileiro, modernamente articulado, diria multiintegrado. Podemos garantir com segurança que tudo é tudo e a gente pobre reina feliz na cultura improvisada da pobreza que se autorresolve e se automobiliza brilhantemente".


Bingo. Qualquer crítico musical ou cientista social que escrever essa "pérola", pasmem, virará "unanimidade" dentro de uma esfera de sonho, cor e fantasia. Virará um semi-deus da intelectualidade, de tal forma que seus adeptos ficarão assustados quando seu "guru" levado a um pedestal é duramente criticado por um único blogueiro.

Sim, isso é verdade. A simples narrativa de um drama pessoal de uma pessoa pobre é desagradável. Não dá Ibope. A espetacularização da miséria, sim, faz todo mundo ficar feliz e se sentir bem.

Na ideologia da intelectualidade influente, não existe deslizamento de terra nas favelas. As favelas são uma suposta arquitetura "pós-moderna" onde funciona uma espécie de Disneylândia da periferia, um Epcot Center do pitoresco. Tudo é cor, tudo é fantasia, é "lugar de gente feliz".

Para essa intelectualidade, não podemos analisar estéticas, nem sequer problema algum. Dentistas para os pobres, nem pensar, diante do sorriso "lindo" dos inocentes desdentados. Deixemos o "mau gosto" florescer até que ele entre nas salas de estar e permaneça lá. Qualquer crítica feita é acusada de "moralismo doentio e higienista".

Como é que esse discurso de cor e fantasia pode prevalecer na mídia, adentrando nas páginas esquerdistas de Fórum e Caros Amigos e claramente em contradição às manifestações sociais do exterior, que agora chegam aos EUA e estão muito longe de representar uma "rebelião" em homenagem a Lady Gaga, Justin Bieber e similares?

Chega a ser deprimente que Caros Amigos, numa manifestação do Chile, tenha enfatizado imitações de Michael Jackson e Lady Gaga por parte de alguns manifestantes. Como se os dois ídolos pop tivessem algo de "revolucionários", o que não é verdade. A performance, na realidade, foi apenas um natural acréscimo humorístico dos manifestantes, nada de transformar o falecido "rei do pop" num novo Che Guevara nem a jovem cantora numa nova Rosa Luxemburgo.

Os parágrafos em itálico, acima, mostram o quanto é capaz uma intelectualidade que é apreciada de forma acrítica pela opinião pública. Cria-se a glamourização da pobreza e transforma dramas tristes em "espetáculos lindos", em textos que o leitor médio, mesmo da imprensa esquerdista, lê como quem toma uma água com açúcar bem geladinha.

ROTA DE COLISÃO

A opinião docemente transmitida de ideólogos do brega-popularesco ameaça entrar em choque com vários críticos do entretenimento "popular" vinculado à velha grande mídia. Tentativas de desvincular brega-popularesco e grande mídia existem, e persistem, mas seu sentido se perde na medida em que os discursos transmitidos por seus ideólogos em Caros Amigos e Fórum é corroborado, literalmente falando, pela "cracolândia" da Folha de São Paulo.

Ou seja, é um discurso que agrada até Otávio Frias Filho e Ali Kamel e que, por isso, não pode ser considerado como anti-mídia. E que, por outro lado, pode entrar em choque violento com muitas visões transmitidas por gente como Emir Sader, Venício de Lima, Altamiro Borges e Raphael Tsavkko Garcia.

Raciocínio de quem quer criar briga entre colonistas-paçocas, historiadores-bregas e similares? Nem de longe. O que fará a intelectualidade etnocêntrica brigar com os intelectuais realmente esquerdistas são as ideias que os primeiros expressam, que nem em sonhos encontra afinidade e nem mesmo uma "inocente, pequena e saudável" divergência com a lógica esquerdista.

Está mais do que provado que o tecnobrega e o "funk carioca" - só para citar os ritmos da Música de Cabresto Brasileira mais paparicados pela intelectualidade - possuem boas relações com a velha grande mídia. E, mais provado ainda, que os dois estilos apostam na glamourização da miséria que a intelectualidade absorve sob o verniz de "realidade social das periferias".

A espetacularização "cultural" da miséria é, portanto, um processo perverso de manutenção do controle social sobre as populações pobres. De uma elite sorridente que, pela sua obsessão pelo sonho e pela fantasia, arrebanha adeptos por todo o país, até mesmo nas cátedras universitárias e nas redações esquerdistas.

Isso porque Guy Debord não foi brasileiro. Se fosse e estivesse vivo hoje em dia...

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