quinta-feira, 6 de outubro de 2011

A DIREITA CULTURAL NOS ENGANA SOBRE "MOVIMENTOS SOCIAIS"


PROTESTOS POPULARES ACONTECEM ATÉ EM NOVA YORK. FOTO DA AGÊNCIA DEUTSCHE WELLE.

Por Alexandre Figueiredo

Estamos sendo enganados e muita gente não percebe.

A direita cultural, não aquela facção moralista da Veja e similares, mas certos, mas a facção "dissidente" que seduz a intelectualidade de esquerda com suas pregações "em prol das periferias", anda difundindo uma ideia errada, erradíssima, sobre os "movimentos sociais".

Tudo isso para manter o mercado de entretenimento que enriquece de donos de boates até latifundiários que promovem rodeios.

Aqui "movimentos sociais", oficialmente, são tão somente o circuito de consumo do entretenimento "popular" por uma população sorridente e obediente à mídia. É só ir para o galpão megashow da sua cidade, ver aquele ídolo tocado nas Nativa FM e Band FM da vida e, pronto, está fazendo "ativismo social".

Que o povo tenha direito a ser feliz e ter o seu lazer, é óbvio. Mas dentro de um entretenimento de valor duvidoso, transmitido por uma mídia oligárquica - não devemos ignorar que os "maravilhosos" ritmos do brega-popularesco são fruto do esquemão oligárquico na grande mídia - , a gente até tem dúvidas de que "felicidade" é esta que a mídia tanto promove nas periferias.

Às vezes dá vontade de perguntar se "periferia" não seria uma forma politicamente correta das elites paternalistas chamarem o que estas entendem como "ralé".

Avançam os movimentos sociais e os intelectuais da direita cultural, cujo tráfico de influência envolve até as revistas Caros Amigos e Fórum, querem enganar a opinião pública defendendo uma "classe pobre" de contos de fadas.

Vemos cada movimento social sério acontecendo na Europa, no Oriente Médio e na América, no Chile e, agora, nos EUA. Em que pese a distância geográfica extrema, os EUA são "mais próximos" de nós em termos midiáticos, graças ao poderio dos meios de comunicação, associados aos valores do Tio Sam.

E, a cada movimento social que acontece, os intelectuais brasileiros correm para procurar um novo "coitadinho cultural", aqueles mesmos ídolos de proveta que venderam milhões de discos e lotaram plateias num passado recente, mas hoje reclamam que são "discriminados" e "injustiçados" pela crítica, quando a crítica especializada acaricia até demais esses "artistas".

São esses mesmos ídolos que desprezaram a MPB quando eles faziam o maior sucesso, pouco importando se manifestações culturais mais autênticas tinham ou não espaço na mídia. Mas, quando veio a Internet e a juventude descobriu a MPB oculta pelas rádios popularescas, os mesmos ídolos passaram a vampirizar o repertório da MPB e, na última hora, passaram a falar até de Wilson Simonal, Banda Black Rio, Jackson do Pandeiro, Pena Branca & Xavantinho, os mesmos que eram vitimados pelo seu antes convicto desdém.

E, convertidos agora em "coitadinhos do momento", os ídolos musicais popularescos, junto a jornalistas policialescos broncos e musas grotescamente calipígias, nas mãos da delirante intelectualidade etnocêntrica que, "sem querer querendo", serve aos interesses da ditadura midiática, tornam-se porta-vozes da "ditabranda" do mau gosto, essa ideologia docilmente difundida às lágrimas de crocodilo de cientistas sociais e críticos musicais influentes para iludir a moçada.

Tudo para desviar as atenções do povo aos movimentos sociais que, de fato, acontecem. Tudo para fazer com que o povo continue submisso ao mercadão do entretenimento da velha grande mídia.

Basta apenas que seus ideólogos digam que o povo, submisso, "não está submisso" e que seu entretenimento brega e neo-brega, fruto da velha grande mídia, "nunca foi fruto da velha grande mídia".

Agora, nos EUA, meca da "cultura pop", ocorrem manifestações contra o capitalismo, como nos últimos dias. Não são mais as episódicas manifestações de protesto anualmente ocorridas no Fórum Econômico Mundial, em Davos, na Suíça, mas grandes protestos como raramente se via depois da Contracultura e mesmo nos sit-ins da juventude militante estadunidense dos idos de 1960-1961, alguns feitos ao som de blues ou da mais pura folk music.

São protestos que, evidentemente, envolvem senso de humor, sim. Ninguém quer que os protestos fiquem no mau humor ou no surrado refrão do "O povo unido jamais será vencido", é preciso criar com a linguagem. Até porque o bom humor, como protesto, muitas vezes é mais contundente do que a cara feia. Mas uma coisa são protestos relevantes feitos com muito humor, outra coisa são micaretas mal-disfarçadas de protestos.

Apavorada, a elite intelectual dominante - entre esquerdistas ingênuos e pseudo-esquerdistas com muito bom papo - solta o alarme a cada nova passeata no exterior. Revoltas no Oriente Médio? Vamos choramingar o não-reconhecimento artístico do Calcinha Preta. Revoltas na Europa? Vamos atribuir o fenômeno da Banda Calypso como "ativismo social". Revoltas no Chile? Vamos creditar o "funk carioca" a uma nova "Primavera de Praga".

Depois essa intelectualidade sai chorando pelos cantos quando alguém lhe diz que ela compactua ou mesmo está integrada à direita midiática e política. Correm aos prantos para dizer que "nunca gostaram" de Fernando Henrique Cardoso, quando, há 15 anos atrás, eram as mesmas pessoas que estavam muito felizes com o sociólogo tucano, que explicitamente lhes deu as bases teóricas e metodológicas na sua análise paternalista sobre cultura popular.

Querem tapar o sol com a peneira e dizer que as luzes artificiais das "aparelhagens" tecnobregas e dos "bailes funk" são "o verdadeiro sol". Creditam como "movimentos sociais" o mero consumismo brega-popularesco, para evitar que movimentos sociais que acontecem lá fora tenham seus equivalentes no Brasil.

Criam todo um dramalhão retórico para dizer que o brega-popularesco brasileiro é feito de "pobres sofredores", sempre ocultando que muita gente se enriquece às custas disso. Só um ídolo funqueiro iniciante, por exemplo, ganha dez vezes mais que um servidor público. Um DJ funqueiro, então, chega a ser quase tão rico quanto um filho de um poderoso latifundiário.

Tudo para ocultar as verdadeiras questões sociais. Que hoje não são "casos de polícia", mas "fruto de gente preconceituosa, moralista, elitista, racista etc". Não podemos ter senso crítico, temos que louvar o "estabelecido".

Mas um dia o povo pobre vai deixar de ser visto como bobo-da-corte da intelectualidade influente e irá protestar. Aí, é bom a intelectualidade etnocêntrica assistir calada às mudanças sociais que docilmente tentaram evitar.

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