quarta-feira, 5 de outubro de 2011

DIFERENTES ESQUERDAS E PSEUDO-ESQUERDA



Por Alexandre Figueiredo

Recentemente, Raphael Tsavkko Garcia e Emir Sader escreveram textos diferentes e sob diferentes enfoques, sobre o clima de desentendimento entre vários setores das esquerdas no Brasil.

Tsavkko cita o atrelamento do PT ao fisiologismo político representado pelo PMDB e por figuras diversas como Sarney e Collor, além de criticar a adesão das esquerdas a projetos e ideias que antes combatia, como a hidrelétrica de Belo Monte que, sabemos, foi um projeto do regime militar em 1974.

Sader, por sua vez, cita o comportamento estranho de supostos esquerdistas que só aparecem para criticar a esquerda, enquanto não se expressam firmemente pelo combate ao direitismo político e ideológico.

Juntando essas abordagens àquelas que Mingau de Aço escreve, vemos que não existe uma só esquerda, mas várias. Isso em si é até saudável, porque mostra diferentes propostas, diferentes visões que, dentro de um debate democrático e equilibrado, pode enriquecer a busca de soluções para muitos problemas.

Mas o perigo está quando pessoas que se dizem "de esquerda" inserem, de forma enrustida, valores direitistas que historicamente vão contra qualquer agenda, moderada ou radical, associada à esquerda.

A pseudo-esquerda, silenciosamente vinda dos porões da direita, chega mesmo a seduzir parte da esquerda mais frágil e aparentemente flexível, até mesmo em conversas de botequim, quando reaças conquistam progressistas no papo, às custas de um chopinho generoso.

Mas são vários métodos, vários contextos, uns menos convincentes, como o "novo" PSD de Gilberto Kassab ou dos corruptos-históricos Sarney e Collor, outros bem sutis como a direita cultural que busca convencer, de todas as formas, a esquerda a adotar a mesma visão mercantil-midiática da "cultura popular" que a direita, mas de forma bastante enrustida para não assustar a rapaziada.

A direita cultural tenta diferir seu discurso da direitona propriamente dita. Evita a retórica negativista, prefere combater os movimentos sociais creditando como "movimentos sociais" o mero consumo passivo e subordinado do entretenimento midiático dominante e supostamente "popular".

A domesticação sócio-cultural das classes pobres, portanto, é assim trabalhada para que, ao mesmo tempo que não possa ser reconhecida como "domesticação", e sim como "pura felicidade do nosso povo", estabelece o mais rígido processo de domesticação social, literalmente transformando as classes pobres numa caricatura de si mesma.

É claro que, para o êxito de tais manobras, desmente-se seu processo, suas intenções. A retórica apela para todo tipo de camuflagem, todo tipo de desvio discursivo, para que a direita cultural desminta todo o direitismo que, na verdade, possui.

A direita cultural é a pior direita porque cumpre o que a direita política dificilmente consegue fazer. E trabalha um discurso "positivo", na sua demagogia dócil, sedutora, que, para uma intelectualidade feliz em ser "contraditória", conquista não pela veracidade de seus argumentos, mas justamente por uma argumentação confusa que, no entanto, toca fundo na emoção e no paternalismo de intelectuais de classe média alta para com as classes pobres.

Com essa manobra, a direita cultural até se fantasia de "esquerda", faz chilique quando é acusada de direitista, diz que outrora acreditava, feito bobo alegre, na Globo, na Folha, em Collor, em FHC. A direita cultural diz que "se arrependeu", que "reconhece" os malogros do Plano Real e a podridão da velha grande mídia.

Esse dramalhão todo da direita cultural se expressa sobretudo quando ela, paranoicamente, credita como "higienização", "preconceito", "elitismo" e até "racismo" todo e qualquer questionamento contra a domesticação social das classes pobres, que o direitista cultural jura que "não é domesticação alguma".

Ficam justificando seus propósitos com falsos argumentos, meias verdades ou mesmo mentiras, desinformações etc. Mas num caminho ou em outro, caem em contradição, mas preferem se omitir ou confundir mais ainda no seu discurso, para desnortear o raciocínio dos contestadores.

Isso sem falar que o direitista cultural, tendenciosamente, passa a "fazer críticas" contra seus mestres da direita, enquanto "fala bem" de esquerdistas cuja visão, no fundo, causa profundo nojo nos direitistas culturais.

Por isso, a direita cultural é o canto da sereia que pode desnortear as esquerdas no Brasil. Existem pseudo-esquerdistas tanto no PT quanto no PSOL, como também na intelectualidade cultural. Gente que, sabemos, escreve até na imprensa de esquerda, servindo teses dignas de Francis Fukuyama, Ali Kamel e Fernando Henrique Cardoso em embalagens de "paçoca".

Isso tem por objetivo isolar o debate político das esquerdas e impedir o povo de tomar parte desse debate. O povo que fique consumindo a "sua" cultura, "dada de presente" pela grande mídia, mas que a direita cultural tenta se desvincular a ela. Isso porque, para a direita cultural, os movimentos sociais de fato só aconteçam no exterior e que, de preferência, não tenham qualquer reflexo em nosso país.

E deixemos que a intelectualidade de esquerda, boboalegremente, acredite que os "movimentos sociais" no Brasil se limitem ao consumo passivo de "bailes funk", vaquejadas, micaretas, "aparelhagens", rodeios e feiras de agronegócio. O povo fica "mais feliz", enquanto os barões do entretenimento que patrocinam a direita cultural mais enrustida enriquecem horrores.

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