sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A "CRACOLÂNDIA" DA FOLHA DE SÃO PAULO ACONTECEU MAIS CEDO


CERTOS PONTOS DE VISTA "CONVERGENTES" SE CHOCAM MAIS DO QUE MUITOS DIVERGENTES. É O QUE SE VÊ NAS VISÕES DE PEDRO ALEXANDRE SANCHES E JOSÉ ARBEX JR. SOBRE A FOLHA DE SÃO PAULO.

Por Alexandre Figueiredo

Lendo o texto "A Bahia plural é filha da axé-music", de Pedro Alexandre Sanches, o autor cai em várias contradições. Chama a música baiana mais alternativa de axé-music, quando o termo se refere aos medalhões do monocultural e imperialista circuito dos grandes blocos. Diz que a axé-music "combateu" FHC, quando ela acariciava o "príncipe" através dos conchavos do "painho" ACM, cuja "cabeça branca" apadrinhou a axé-music como sua filha adotiva.

Mas outra contradição que nos chama atenção é quando Pedro Alexandre Sanches não consegue explicar se sua experiência na Folha de São Paulo foi uma trincheira contra a direita político-cultural ou se foi a serviço dela. Diz que serviu ao "higienismo cultural" como um boboalegre, mas afirma que usou a "monocultural" axé-music de Ivete, Chicletão, Tchan e companhia para combater o governo de Fernando Henrique Cardoso, tão querido pelos Frias.

Contradição atrás de contradição - Sanches sempre deixa transparecer sua ligação com a Teoria da Dependência de seu "algoz" FH, vide a expressão neoliberal "cultura transbrasileira" (que lembra a Transamazônica do "milagre brasileiro" na sua forma e pretensão, mas em significado remete à expressão "transnacional" do neoliberalismo à brasileira) - , a intelectualidade não pode se contentar em ser contraditória. Isso significa ter duas caras, pega muito mal.

Vamos confrontar então o que Pedro Sanches disse e o que seu aparente "caro colega", José Arbex Jr., escreveu no livro Showrnalismo: A mídia como espetáculo, que a própria editora de Caros Amigos, Casa Amarela, publicou anos atrás.

Se tomarmos a tese de Pedro Alexandre Sanches, a Folha de São Paulo só virou "cracolândia" depois que ele saiu, lá por volta de 2007-2008. Nos anos 90, conforme a sua tese, a Folha era "contraditoriamente" um paraíso de idealismo cultural e um inferno de intransigência higienista. Parece confuso, e é, porque Pedro Sanches está para isso mesmo, como arauto da direita cultural que se fantasia de esquerdista.

Mas se tomarmos a tese de José Arbex Jr. - que já fez duras críticas ao "funk carioca" que é muito paparicado pela ala moça de Caros Amigos, sob influência do "parceiro do RJ" (e da famiglia Marinho) MC Leonardo - , a Folha de São Paulo não só era "cracolândia" depois da saída de Sanches como o era há muito, muito tempo.

Sanches não participou da debandada da Folha cuja "higienização" expurgou, além de Arbex Jr., Marilene Felinto, Juremir Machado da Silva e outros. Pelo contrário, Sanches se educou dentro do Projeto Folha tão criticado por Arbex Jr..

A Folha de São Paulo só episodicamente teve profissionais esquerdistas trabalhando livremente no seu jornal. No conjunto da obra, sempre foi um periódico de direita, mas contratava gente de esquerda porque não tínhamos essa polarização ideológica evidente, antes. Houve também a breve experiência esquerdista da Folha da Tarde descrita por Beatriz Kushnir no livro Cães de Guarda (Editora Boitempo).

A revista Realidade - de onde vieram muitos dos fundadores de Caros Amigos, além de José Hamilton Ribeiro que entende de música caipira e Paulo Henrique Amorim do blogue Conversa Afiada - era da Editora Abril. Mas eram outros tempos.

Mas, com o AI-5, a velha grande imprensa se voltou mais à direita. Nem precisamos detalhar o apoio da Folha de São Paulo aos grupos de tortura dos anos de chumbo. Mas, com a abertura política da ditadura, contratou novamente gente de esquerda, mais pelo prestígio que esta representava do que por qualquer generosidade de cunho ideológico.

Com a redemocratização, veio o Projeto Folha que, como escreve claramente José Arbex Jr., expurgou todos que se alinhavam à esquerda no jornal. E criou um padrão mercadológico de jornalismo, adaptando-se ao ideário neoliberal que estava em moda naqueles idos de 80-90.

É esse jornalismo que fez a formação ideológica de Pedro Sanches, que veio de uma geração intelectual que se formou ainda pelos paradigmas intelectuais dominantes, quando a elite de maior prestígio da USP estava ligada à Teoria da Dependência na corrente difundida por um dos professores da casa, Fernando Henrique Cardoso, o mesmo que virou o FHC da crônica política.

Os valores neoliberais dessa Teoria, que queriam combater as perspectivas nacionais e populares do antigo ISEB, tinham que se expandir para o âmbito cultural, da mesma forma que os ideais do ISEB, há 50 anos atrás, se expandiram para as experiências dos Centros Populares de Cultura da UNE, através da figura de Carlos Estevam Martins, tanto isebiano quanto cepecista.

Dessa maneira, à economia do "livre mercado" da Teoria da Dependência, se criaram teorias para o conservador brega-popularesco que crescia sob o apoio das rádios oligárquicas durante o regime militar. Tínhamos o neoliberalismo econômico de Collor e, depois, de FHC. Tínhamos o neoliberalismo musical de Chitãozinho & Xororó, Zezé di Camargo & Luciano, Leandro & Leonardo, Só Pra Contrariar, Raça Negra, Art Popular, Kaoma, MC Cidinho & MC Doca, MC Júnior & MC Leonardo, É O Tchan, Mastruz Com Leite e Chiclete Com Banana.

Mas, assim como Fernando Henrique Cardoso tentava desmentir seu neoliberalismo nos discursos que fazia e continua fazendo na Europa - é incrível, mas ele se vende como "esquerdista" para aquelas plateias - seu discípulo, por intermédio de Otávio Frias Filho, o crítico Pedro Alexandre Sanches, faz exatamente o mesmo em seus artigos na Fórum e na Caros Amigos.

Aparentemente, Sanches deixou Carta Capital quando viu que seus leitores são muito mais criteriosos. Mas suas contradições só fazem provar que ele continua sendo um representante da direita cultural fantasiado de intelectual de esquerda. E mostra tantas contradições que não dá para escrevê-las todas em um único texto.

Cabe analisar essas contradições, antes que as revistas Fórum e Caros Amigos virem as "cracolândias" da mídia esquerdista.

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