sexta-feira, 14 de outubro de 2011

"CANSEI" PARODIA "OCUPAR WALL STREET"



Por Alexandre Figueiredo

No último dia 12, ocorreu cidades como São Paulo e Brasília, a marcha contra a corrupção. À primeira vista, parece uma manifestação social de relevância comparável ao movimento Ocupar Wall Street, a mobilização que ocorre em grande escala no coração financeiro de Nova York, na mais poderosa nação capitalista do planeta.

No entanto, a manifestação contra a corrupção, embora levante bandeiras "independentes" e "humanistas", mais parece uma versão pós-moderna das "marchas da família" de 1964 do que uma manifestação como as que ocorrem na Europa, EUA, Oriente Médio e Chile.

Afinal, a manifestação, embora conte com o apoio de pessoas realmente independentes ideologicamente, no entanto conta com membros da oposição como organizadores. Eduardo Guimarães já havia publicado um texto em que constata através de entrevistas que vários dos integrantes da marcha contra a corrupção eram ligados à Juventude do PSDB e à Universidade Mackenzie.

A Mackenzie é uma universidade paulistana tradicionalmente conservadora. Foi de lá que veio o grupo do Comando de Caça aos Comunistas que entrou em confronto com os esquerdistas da USP, na Rua Maria Antônia, em 1968. Bóris Casoy estava ao lado dos colegas do CCC, mas aparentemente não se envolveu na briga, que gerou um estudante morto, o aluno da USP José Guimarães.

Portanto, num país que ainda precisa se conhecer como o Brasil - em que a intelectualidade "especializada" em cultura popular só conhece a periferia através de abordagens etnocêntricas e estereotipadas do rádio e TV - , as manifestações sociais ainda são, pasmem, fatos novos, embora eles não sejam recentes assim.

Isso se explica porque o significado das mesmas, tal como se vê nas recentes manifestações no exterior, ainda não são devidamente compreendidos. Aqui ainda existe a hegemonia de dois tipos de "manifestações": o mero entretenimento festivo e os "protestos" da direita.

Outros protestos existem, mas as manifestações de sindicatos e movimentos como os dos sem-terra e sem-teto são "massacrados" pela grande mídia. Por outro lado, meras "festinhas" como "bailes funk" de rua são superestimadas e tidas como "manifestações sociais". Neste último caso, o rótulo de "movimento social" é apenas pretexto para alimentar o já excessivo narcisismo de funqueiros, tecnobregas e similares.

É fato que as transformações sociais avançam no país, que não pode ficar indiferente a protestos cada vez mais próximos, como o Ocupar Wall Street e as manifestações do Chile contra o presidente Sebastian Piñera. Mas estamos nós, brasileiros, começando a entender a complexidade das questões sociais que não nos são novas, mas entram num contexto que poucos de nós compreendemos.

Existe corrupção no PT? Sim, ela existe. O governo Dilma Rousseff adota medidas típicas do neoliberalismo mais conservador? Não tenha a menor dúvida. As pressões dentro do Partido dos Trabalhadores - que havia se tornado uma "torre de Babel" que, por sua vez, virou uma "indústria de dissidentes" - e de partidos "aliados" como o PMDB fizeram com que o projeto "progressista" do partido se diluísse em uma lógica "pragmática" que permitisse a adoção de medidas anti-populares, incluindo o projeto da hidrelétrica de Belo Monte, que trará danos ambientais sérios e prejudicará a diversidade biológica e as comunidades indígenas na região do Alto Xingu.

Mas isso não quer dizer que se superestime a aparente revolta contra a corrupção dos protestos de rua em questão. Pelo contrário, a corrupção torna-se pretexto para que grupos conservadores voltem ao poder, ou que pelo menos se mostrem como um grupo de pressão.

E isso se dá numa época em que o PSDB e o DEM - e mais seu hoje partido-irmão PPS - se desgastam violentamente, depois da derrota eleitoral de 2010. A direita se rearticula, não só através desses três partidos, mas também no PMDB e seus partidos-satélites (PP, PR, PRB e similares) ou de pseudo-esquerdistas que, por ora, "apóiam" tudo que for associado às esquerdas, mas possuem QI digno de demotucanos enrustidos.

A impressão dessas passeatas contra a corrupção é que o "Cansei", ou pelo menos as pessoas que apoiaram esse "movimento", viu uma boa oportunidade de parodiar o Ocupar Wall Street numa "manifestação" para chamar a atenção da opinião pública.

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