domingo, 25 de setembro de 2011

A VELHA GRANDE MÍDIA REPRESENTADA NA VELHA ABL



Por Alexandre Figueiredo

A velha grande imprensa brasileira é tão suja, tão suja, o seu lodo é tanto que vemos Pedro Alexandre Sanches trazer em suas botas a sujeira do jornalismo cultural de esgoto da Folha de São Paulo nas páginas de Caros Amigos e Fórum. Ah, sei, já estamos falando demais do cara. Tudo bem, mas quem mais fala da maneira crítica que falamos?

Pois a semana terminou com a posse do "imortal" (?!) Merval Pereira, na cadeira deixada pelo finado Moacir Scliar - escritor e médico que não conseguiu viver para descobrir a ainda não descoberta cura para o jornalixo brazuca - na Academia Brasileira de Letras.

A ABL já não era grande coisa faz tempo. A Academia fundada por nomes de admirável lembrança como Machado de Assis e Joaquim Nabuco havia sucumbido à defesa dos poderosos de plantão desde o regime militar, e também a cada ano se rendia à mediocridade intelectual por puro sensacionalismo modernoso.

Há até a famosa piada de que os acadêmicos da ABL só se reuniam para tomar chá. Pode parecer até exagero isso, mas mostra o quanto está a reputação dos intelectuais brasileiros que atuam na casa.

Exemplo da mediocridade é o calunista das Organizações Globo, Merval Pereira, que como Diogo Mainardi é amigo íntimo das autoridades estadunidenses. A escolha de Merval para substituir Moacir Scliar foi tratada pela ABL pelo pretexto de "expressar a riqueza da sociedade brasileira" e para "abrir o espaço para os jornalistas".

Tudo bem, abrir-se-á espaço para jornalistas na Academia. Mas tinha que ser uma figura como Merval? E que "riqueza social brasileira" ele representa? Nenhuma, evidentemente.

Merval nunca escreveu um livro de relevância, apenas lançou duas coletâneas de artigos, dotados do mais medíocre, pedante e reacionário jornalismo, que nem de longe justificariam tamanha responsabilidade de representar a ABL para os brasileiros.

Mas isso faz sentido num país em que se torna famoso por nada. Recentemente, um estudante virou "celebridade" só porque recebeu um beijinho no rosto da cantora estadunidense Katy Perry. Mas isso é pouco diante de tantas aberrações tidas como "geniais" e "revolucionárias".

Um país onde as inexpressivas ex-BBBs têm nome, sobrenome e vários sítios na Internet, uma atriz de comerciais que fez a "Rosa" do comercial da Ford e até hoje aparece em muitos comerciais, simplesmente não tem seu nome divulgado em lugar algum.

E faz sentido eleger Merval para a ABL se os ídolos bregas e neo-bregas, os mesmos que detém o poder em quase todo o mercado de cultura brasileira existente, por uma postura de falsos coitadinhos, garantem de bandeja o título de "cultura das periferias", "polimorfia cultural" ou, no caso da música, abocanham o status de MPB como quem obtinha, há dois séculos, um título de nobreza de uma monarquia.

Merval não escreveu livros e nem lançou obras de envergadura. Mas está na ABL. Mas é o Brasil em que "os maiores criadores da MPB" não são mais que os mesmos ídolos da axé-music, do "pagode romântico" e do "sertanejo" que, depois de uns pálidos sucessos radiofônicos, só ficam lançando CDs e DVDs ao vivo, a qualquer pretexto - desde uma apresentação "histórica" no Rio de Janeiro até uma simples efeméride de carreira - , com os mesmos sucessos e os mesmos covers de MPB escolhidos por puro oportunismo.

É o Brasil medíocre que elege o medíocre "funk carioca" como "movimento cultural", enquanto o ritmo ultimamente se limita a produzir meros clones de "Eguinha Pocotó", um deles simplesmente dizendo "ela quer pau", cujo nível de baixaria somos "aconselhados" a ignorar por uma intelectualidade que diz adorar o Emir Sader, mas, na hora do aperto, prefere mesmo o Ali Kamel.

A direita cultural é uma só. A que é abertamente reacionária e condena explicitamente os movimentos sociais, além de descumprir a ética jornalística, e a que aparentemente rompe com o status quo midiático, mas está carregado dos mesmos preconceitos e tabus, agora dissimulados por uma falsa generosidade com as classes populares.

Não faz diferença alguma a ABL eleger Merval Pereira como "imortal da Academia" e a intelectualidade etnocêntrica endeusar Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches por suas teses paternalistas sobre cultura brasileira que mais favorecem o mercado do que a cultura em si.

Aliás, até prejudicam, porque ao elegerem o "popular de mercado" do brega-popularesco como "de reconhecido valor artístico", esses intelectuais impedem, ou ao menos dificultam, o acesso do grande público às manifestações culturais de verdade.

Essa é a velha grande mídia. Um grande navio pirata que afunda, enquanto parte dos corsários migra para o navio inimigo próximo. Tudo isso para garantir a continuidade da mesmice sócio-cultural que, desprezando ou bajulando as periferias, não faz senão beneficiar e reafirmar o império dos barões da mídia e do entretenimento que travam o progresso de nosso país.

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