sexta-feira, 2 de setembro de 2011

A "PRIMAVERA DE 2011": NO BRASIL, QUANDO CHEGARÁ?



Por Alexandre Figueiredo

Em todo o mundo, manifestações pedindo o fim da opressão político-econômica acontecem. La um veículo da grande mídia, como o britânico News Of The World, é duramente criticado, e tiranias árabes são desafiadas de forma persistente pela população.

Pode ser um início de um novo mundo? Sim, mas ele levará tempo para ser construído. O que importa não é que, de uma tirania derrubada, se venha imediatamente uma democracia de justiça e paz, ou que venha uma mídia justa e cidadã assim que se derrubarem os cidadãos kanes da temporada.

O que importa é a disposição das classes populares em reconstruir suas sociedades, sem acomodar-se em futilidades ou supérfluos, nem se iludir numa democracia que, por mais autêntica que seja, ainda trabalha com cenários sociais cheios de imperfeições e falhas.

O Brasil vive um período eminentemente democrático. Isso é fato. Mas corre o risco de cair no comodismo diante de uma "cultura de direita" que se complementa à obsessão mercadológica das medidas econômicas do Governo Federal.

De um lado, vemos medidas de restrição econômica feitas a pretexto de um superávit econômico que não encontra reflexo nas classes populares. De outro, vemos uma abordagem da "cultura popular" que, além de promover os grandes ídolos como "coitadinhos", supostamente "vítimas de preconceitos", ainda camufla a inferioridade social com circunlóquios teóricos e ideológicos.

Próximos a nós, as manifestações de protesto contra os desmandos neoliberais do presidente chileno Sebastián Piñera, cuja repressão causou a morte de um jovem estudante, mostram o quanto a população, quando quer melhorias, vai para as ruas sem que a dita imprensa "popular" e/ou os intelectuais etnocêntricos permitam ou solicitem.

Há manifestações no Oriente Médio, e nas capitais européias. Roma, Londres, Atenas, Madri. E no Brasil, nada da Primavera de 2011, tudo pelo Inverno de 2014 e 2016. E, de "mobilidade social", o que temos?

Quando muito, passeatas de burgueses pedindo justiça contra seus entes mortos, ou micaretas disfarçadas de causas sociais "contra o preconceito". Isso quando a "mobilização social" não tem seu sentido brutalmente distorcido no consumo submisso das classes populares aos valores morais, culturais e sociais ligados ao grotesco, ligados a um padrão de inferiorização social "carinhosamente" defendido por intelectuais "de nome".

Até existem passeatas, como os protestos feministas, a marcha dos sem-terra, mas a própria mídia "criminaliza" os movimentos sociais. Mas a mesma grande mídia leva a sério bobagens como o "funk carioca" e o tecnobrega, que se autopromovem com a imagem de "coitadinhos". E o que faz o mainstream intelectual dito de esquerda?

Nada, a não ser endossar e assinar embaixo o que a Folha de São Paulo e a Rede Globo falam da dita "cultura das periferias". E isso reagindo às lágrimas quando tais intelectuais que assumem essas posições são acusados de compactuar com a "cultura de direita". "É a contradição inerente à natureza humana", se limitam a dizer, aos prantos, contagiados pelo ideal do "coitadinho" que trabalham na defesa dos ídolos ditos "populares".

O povo aqui ainda é o gado da grande mídia. E mesmo a intelectualidade mais influente não está interessada em romper com essa triste condição. A violência do campo continua, as classes trabalhadoras vivem as mesmas limitações de ordem sócio-econômica, o machismo ainda impera e permanece na impunidade, enquanto forças conservadoras se aproveitam do apoio conveniente ao governo Dilma para fazê-lo adotar retrocessos políticos.

E a intelectualidade, tão "preocupada" com o social, se limita a definir como "feminismo popular" a atuação de musas calipígias que, em tese, "não têm marido" (embora várias delas, no fundo, até sejam comprometidas ou têm que ficar "solteiras" para não comprometer a carreira de objetos sexuais).

A coisa se deu a tal ponto que, antes de Bia Abramo - que traiu a memória do pai Perseu Abramo e do tio Cláudio Abramo com as lições aprendidas na mesma Folha que mimou e educou Pedro Alexandre Sanches - entrar em conflito com os movimentos feministas, teve que retirar do portal da Fundação Perseu Abramo seu texto sobre o "funk carioca" em que Bia preferiu defender as "mulheres-frutas" que se vestem de enfermeiras e ainda acusou de "moralistas" as profissionais que viam suas imagens gratuitamente ironizadas pelas dançarinas funqueiras.

Sob o pretexto de que a cultura é universal, esses intelectuais pregam na mídia esquerdista a ideologia direitista da "cultura popular" segundo os olhos da grande mídia. Seus ideólogos imediatamente ganham aplausos. A inteligência dá lugar ao sentimentalismo piegas que endeusa tanto "pensadores" como Paulo César Araújo quanto "artistas" como Michael Sullivan, Waldick Soriano e Tati Quebra-Barraco. Todos uns "coitadinhos".

Não bastasse isso, os intelectuais influentes no Brasil tentam glamourizar a miséria de todas as formas. As popozudas, com sua vulgaridade e até grosseria, são "a expressão livre e natural da mulher brasileira".

E mais. As favelas, residências improvisadas e que deveriam ser provisórias, são "promovidas" a "arquitetura pós-moderna". A prostituição, sub-emprego também provisório, passa a ser "carreira profissional". O alcoolismo é estimulado como o "saudável" entretenimento de coroas e idosos pobres, para o benefício financeiro das indústrias de cerveja de todo o país.

O povo fica refém de sua pobreza, sua inferioridade social acaba sendo trabalhada pela mídia como se fosse sua "identidade". A mídia induz as classes populares a ficarem felizes com sua miséria. E ainda vemos intelectuais de esquerda expressando cumplicidade com tais ideias.

O neoliberalismo agradece a Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e companhia por pouparem os esforços da repressão policial que as grandes corporações investiriam para reprimir as massas. Graças aos intelectuais etnocêntricos, as "massas" ficam quietinhas diante da TV aberta e do rádio FM, ou na "mobilidade" submissa aos eventos ao vivo de brega-popularesco.

Tudo pela tranquilidade do mercado.

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