sábado, 24 de setembro de 2011

"POLIMORFIA CULTURAL" OU GOROROBA?


A INTELECTUALIDADE ETNOCÊNTRICA IMAGINA QUE O JOIO E O TRIGO SÃO IGUAIS E INSEPARÁVEIS.

Por Alexandre Figueiredo

Pela primeira vez da vida, Pedro Alexandre Sanches admitiu aos leitores de Caros Amigos, na edição do corrente mês, que trabalhou na Folha de São Paulo. De acordo com o que ele escreveu, ele "boboalegremente" trabalhava num jornal que depois se transformou numa "cracolândia".

No entanto, isso parece insuficiente para que um jornalista que mantém a mesma visão mercantilista sobre "cultura" da FSP esclarecer sua aparente guinada. Até porque Pedro Alexandre Sanches é tão "anti-Folha" quanto a Folha de São Paulo é "anti-Rede Globo", ou tão anti-FHC quando Gilberto Kassab.

Nos dois artigos que ele escreveu, um para Caros Amigos, outro para a edição comemorativa dos dez anos da revista Fórum, ele tenta reafirmar a defesa do brega-popularesco sob o pretexto da "polimorfia cultural".

Junta-se a "cultura de mercado" com a cultura de verdade, dentro de uma perspectiva que, sabemos, é herdada de uma fusão entre o deslumbramento da indústria cultural pós-Tropicalismo e uma concepção neoliberal da sociologia e da antropologia sócio-cultural da ala pré-tucana da USP.

E, sob o pretexto da suposta reafirmação da diversidade cultural, o que se defende não é, de fato, a riqueza polimórfica de nossa cultura, mas a inclusão de tendências de valor artístico-cultural bastante duvidosos no elenco das várias tendências da cultura popular de nossa história.

"SOMOS CONTRADITÓRIOS"

Vamos entender o que Pedro Sanches tentou dizer em seu artigo em Caros Amigos, "A Bahia plural é filha da axé-music", um artigo cheio de inverdades e equívocos.

Um desses equívocos se baseia na atual tendência da centro-direita cultural e os intelectuais de esquerda a ela cooptados, que é de superestimar a contradição humana. Que é de defender valores direitistas associados a uma concepção da "cultura popular" enquanto, na agenda política, se defende visões esquerdistas até quando o assunto é o Oriente Médio.

Partindo desse enfoque, Sanches definiu a "música popular" dos anos 90 como "mercadológica", tentando "admitir" que houve até "monoculturas" nesse tempo. Ele citou como exemplo a axé-music, "admitindo" também que ela teve uma fase "monocultural e autoritária" nos tempos de Antônio Carlos Magalhães e Fernando Henrique Cardoso (este um mestre renegado da visão intelectual de Sanches).

Ele lança a tese de que os anos 90 eram mercadológicos, mas criaram condições para o que ele entende como as "vanguardas culturais" dos dias de hoje. Mal comparando, é como se, na economia, creditássemos a democracia pluralista de hoje ao neoliberalismo que, no Brasil, tornou-se representado por Fernando Henrique Cardoso, que, repetimos, continua sendo o grão-mestre das pregações de Sanches.

Mas enquanto ele tenta lançar a tese de que os anos 90, "contraditoriamente mercadológicos", deram origem à "polimorfia cultural" dos dias atuais, ele tenta defender a axé-music creditando esse nome aos artistas baianos de qualidade que não encontram espaço no mercado.

Pela minha experiência vivendo em Salvador, essa ala da música baiana - Mariene de Castro, Rebecca da Matta, Lazzo, Bule-Bule, Edil Pacheco, Roque Ferreira, entre outros - espaço mesmo, no rádio, na Rádio Educadora FM, um oásis de cultura diante da indigência podre das FMs "carlistas" e "pós-carlistas" de barões midiáticos locais.

Equivocadamente, Pedro Alexandre Sanches define esse pessoal como "axé-music", quando desconhece que o termo foi designado pejorativamente pelo jornalista local Hagamenon Brito e, depois, foi apopriado mercadologicamente pelo pop-brega carnavalesco dos poderosíssimos, milionários e careiros blocos de trios.

Portanto, a axé-music se refere a nomes comerciais como Ivete Sangalo, Cláudia Leitte, Chiclete Com Banana, Asa de Águia ou até o Leva Nóiz - que leva às últimas consequências a natural tolice da axé-music, com aquela música sobre Super Homem e Mulher Maravilha - , podendo também ser assim chamada os derivados vindos do pagodão (É O Tchan, Harmonia do Samba, Terra Samba, Psirico e Parangolé) ou do arrocha (Nara Costa, Silvano Sales, Brazilian Boys).

Não pode ser chamada de axé-music uma parte da música baiana que, apesar de sua qualidade artística, não tem espaço na mídia. Até porque são artistas que não costumam compactuar com o comercialismo para turista ver dos megalomaníacos ídolos baianos, que até pouco tempo atrás se esqueceram que eram acima de tudo baianos e imaginavam ser donos do mundo e da MPB.

Chamar, por exemplo, Jussara Silveira, Lazzo e Mariene de Castro de "axé-music" seria o mesmo que dar o mesmo peso do jornalismo autêntico ao jornalixo de Veja e quejandos. Nada a ver uma coisa com outra.

"PRIMAVERA DE PRAGA"? AONDE?

Em certas passagens do texto, Pedro Sanches ainda trata como "injustiçados" não só a axé-music quanto o "pagode romântico" (que ele chama apenas de "pagode") e o "sertanejo". E também faz sua defesa ao "funk carioca", estilo que andou carregando na sua campanha tendenciosa e demagógica na mídia de esquerda, que os funqueiros, no fundo, a usam como mero trampolim para a grande mídia.

Aliás, essa é também a tônica do texto que Pedro Alex Sanches escreveu em Fórum. Ele credita o brega-popularesco - dentro de uma "polimorfia" (ou gororoba?) que mistura alhos com bugalhos, joio com trigo e música de valor duvidoso com música de qualidade - a uma suposta "Primavera de Praga" da cultura brasileira, talvez até para forçar a barra do pseudo-esquerdismo do colunista.

Usa-se a cultura de qualidade como escudo para a pseudo-cultura trabalhada pela velha mídia. Diante da competitividade existente no comercialismo do brega-popularesco, quando um modismo não consegue sustentar por muito tempo todos os ídolos que aparecem no rádio, aqueles que saíram do mainstream viram os "coitadinhos" da vez e a intelectualidade tão orgulhosamente "contraditória", com toda a sua relação de amor (prática) e ódio (teoria) com o neoliberalismo cultural, adora promover essa gente supostamente discriminada.

Mas é o mesmo pessoal que só depois de tantos anos de carreira se convence que fazer MPB teria sido bem melhor do que aqueles neo-bregas risíveis que fizeram antes. Ídolos do "pagode romântico", do "sertanejo" e da axé-music, que tanto expulsaram a MPB das rádios populares, que tanto ignoraram se artistas brasileiros de valor tinham ou não algum espaço na mídia, hoje recorrem a eles para não sucumbirem ao natural desgaste.

A "polimorfia" acaba sendo uma desculpa para usar nomes que variam do falecido Itamar Assumpção a nomes como Mariene de Castro e Zezé Motta para manter o mesmo cardápio indigesto das Nativa FM, Band FM, Transcontinental FM, Bahia FM, Beat 98 e a paraense Liberal FM, que movimentam o mercadão que enriquece os barões da mídia ou do entretenimento.

Que "Primavera de Praga" é essa comandada pelas rádios FM e pela TV aberta, só porque seus "valores" são consumidos pacífica e passivamente - e, sobretudo, boboalegremente - pelas classes pobres? Que "rebelião popular" é essa comandada por executivos de TV e rádio, por mega-chefões do mercado e do entretenimento, com o patrocínio claro de multinacionais, de mega-redes de atacado e varejo e até mesmo do latifúndio?

SEM EFEITO

Defender a música brasileira de qualidade para justificar a "outra música brasileira" que, a olhos vistos e ouvidos apurados, possui valor artístico-cultural bastante duvidoso e é marcado pelo tendenciosismo, não surte efeito naqueles que seriam seus maiores interessados, as classes populares ou mesmo a classe média baixa.

Seus indivíduos estão alheios a esse debate cultural e só tem aquelas rádios "populares" e a TV aberta, além das revistas fofoqueiras e da imprensa policialesca para definir a agenda setting de suas vidas. E pouco importa se, além dos bregas e neo-bregas que ouvem no rádio e veem na TV aberta, existem artistas populares mais consistentes, que não medem a evolução artística às pressões da crítica e do mercado.

Para a intelectualidade, é muito fácil juntar bregas e neo-bregas à MPB de qualidade. Os críticos musicais pesquisam discos e conhecem até títulos raros de artistas obscuros. Os sociólogos e antropólogos estudam o passado, conhecem até as expressões folclóricas hoje quase desaparecidas. Os historiadores garimpam até o passado oculto do nosso povo. Aí fica fácil juntar Waldick Soriano e Wilson Simonal, Psirico e Jackson do Pandeiro, Banda Calypso e Mutantes. "Gororobizar" é a regra, sob o pretexto da "polimorfia".

Mas o povo pobre continuará na sua indigência, no consumo do mesmo "lixo cultural" que apenas ganhou o verniz de luxo do apoio da intelectualidade influente. Será até pior, porque o povo pobre será desestimulado a apreciar a cultura de qualidade, confinada nos porões sacerdotais da intelectualidade etnocêntrica.

Afinal, para que conhecer a cultura de qualidade, se aquele crítico ou cientista social falaram maravilhas dos sucessinhos popularescos do rádio FM? Se o lixo cultural é visto pela intelectualidade influente como se fosse "luxo", o povo pobre não será estimulado a conhecer coisas melhores.

Pelo contrário, o povo pobre permanecerá, passivo e conformado, com a eterna mesmice dos repertórios radiofônicos da mídia "popular" que é tanto "mídia velha" quanto a "cracolândia" midiática da Folha de São Paulo e Veja.

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