sábado, 3 de setembro de 2011

PELEGUISMO PODE "QUEIMAR" BUSOLOGIA CARIOCA



Por Alexandre Figueiredo

A politicagem que avança dentro de um seleto grupo de busólogos - que no entanto se julga dono da verdade nos fóruns virtuais sobre ônibus na Internet - está causando problemas nos envolvidos. Nervosos, eles veem que suas opiniões não são a maioria, e querem impor "sua verdade" através de xingações e humilhações.

É clara a adesão desses busólogos - que não são maioria - ao grupo político de Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho. A julgar pela defesa apaixonada que esses gatos pingados fazem do projeto de transporte coletivo do prepotente Alexandre Sansão, e até pelo fato de um busólogo estar envolvido numa prefeitura do Grande Rio filiada ao PR, o mesmo partido da corrupção, em âmbito nacional, do Ministério dos Transportes, dá para ver o tom da chapa-branca desses apreciadores de ônibus.

Nem todos os busólogos influentes se envolveram na politicagem. Há uns que até fotografam, com regularidade, os chamados "ônibus padronizados" cariocas - aqueles que apresentam o visual de embalagem de remédio, a tal ponto que já começam a ser apelidados de "Buscopan" - , mesmo aqueles que são lançados nas garagens de empresas ou da fábrica Ciferal / Marcopolo, mas que demonstram independência em relação ao grupo político de Paes e Cabral Filho. E uns chegam a discordar completamente da padronização visual, mesmo fotografando tranquilamente os novos "Buscopan" vindos de fábrica ou passando pela Via Dutra.

Mas a minoria chapa-branca faz muito barulho e ainda chega ao cinismo de dizer que "defendem o interesse do usuário". Cegos, não sabem o que acontece nas ruas e que coloca o sistema de ônibus do Rio de Janeiro, antes uma referência para o país, em processo acelerado de decadência.

O número de acidentes com ônibus aumentou consideravelmente, e não somente envolvendo ônibus que ainda não receberam a pintura "Buscopan", mas também ônibus já com o "novo" visual. Os ônibus enguiçados também aumentaram consideravelmente, causando engarrafamentos nas avenidas e ruas cariocas. Isso sem falar na mudança de codigo de várias linhas, o que aumentou ainsa mais a confusão.

Tais transtornos não são invencionice de busólogo descontente, mas fatos constantemente noticiados pela imprensa, e mesmo pela Rede Globo, que parece ter aprendido a gostar dos ônibus visualmente padronizados.

A situação não pára por aí. Não bastasse a esperada confusão de passageiros na hora de pegar ônibus - na Avenida Presidente Vargas se vê a perplexidade dos passageiros de discernir qual o "Internorte" que vai para o Lins e qual o que vai para a Penha, por exemplo - , os ônibus também se deterioram.

O autor deste texto pôde conferir o estarrecedor caso da antes conceituada empresa Matias, da linha 232 Lins / Praça 15, quando, na ida e volta para o Lins, os ônibus da Marcopolo Torino 2007, com três anos de fabricação, já sacolejavam como carros bem velhos, com barulho comparável ao de um caminhão de entulhos.

Outros ônibus já circulam com bandeiras digitais parcialmente queimadas - o que faz com que um ônibus da Vila Real da linha 908 Bonsucesso / Guadalupe chegue a circular apenas com "UCESSO" no letreiro digital - e a pouca preocupação de mostrar o indicativo da linha na lateral e na traseira faz os passageiros enlouquecerem e acumularem seu já intenso estresse do dia a dia.

O desgaste do transporte carioca é motivado pelo próprio modelo adotado, que, inspirado em Curitiba, é por isso mesmo herança do regime militar. Como uma espécie de Roberto Campos da busologia, Jaime Lerner ainda é influente no mercado de transporte e urbanismo no país, mas seu padrão urbanístico já começa a ser reconhecido por especialistas mais recentes como um padrão conservador e anti-democrático.

A subordinação das empresas de ônibus a uma paraestatal - é isso que a padronização visual, na prática, sugere - , como se fosse um esquema misto que junta o pior das antigas estatais (como nas fases decadentes da carioca CTC e da paulista CMTC) com o pior das empresas privadas, demonstrou que não consegue resolver os problemas do transporte coletivo. Antes os faz agravar.

Mas o próprio caráter mítico da padronização visual que "amarra" as empresas de ônibus às secretarias de transporte municipais ou metropolitanas parece empolgar ainda os tecnocratas e autoridades em geral, iludindo a opinião pública. Só que esse modelo de transporte coletivo é uma tradução busóloga do antigo regime militar, que também investiu na "padronização de mentes" para evitar o "bolchevismo" no país. Jaime Lerner é filhote da ditadura.

O caráter mítico se dá de tal forma que, uma vez anunciado o colapso do sistema de ônibus de Curitiba, as autoridades trataram de comprar mais de 550 ônibus imediatamente, incluindo biarticulados e motor sueco. Todavia, isso se compara a um velho moribundo que, quando avisado pelo médico de que pode morrer a qualquer momento, resolve fazer uma plástica.

MAU MOMENTO PARA ADESÃO

O nervosismo e a arrogância de alguns busólogos influentes faz sentido. Ataques, desaforos, ofensas, ironias, pseudônimos como "Clô do Pânico", declarações tipo "sinto nojo do que você escreve", mostram o quanto estão aflitos os busólogos que aderiram abertamente ao projeto arbitrário do secretário Sansão.

Sabem eles que, apesar da aparente unanimidade nos fóruns sobre ônibus cariocas em que participam, seus pontos de vista não conseguem obter qualquer apoio da sociedade. E, o que é pior, passaram a defender o grupo de Paes e Cabral Filho no pior momento para tal atitude.

Afinal, o grupo político acumula gafes e desastres em seus governos como prefeito carioca e governador fluminense. Dos bueiros estourando em Copacabana ao acidente trágico que expôs a aliança de Cabral Filho com empreiteiros, da repressão ao comércio ambulante e da prisão dos bombeiros grevistas, além da ameaça de demolição do Estádio Caio Martins, tradicional e histórico centro esportivo de Niterói e referência maior para o antigo Estado do Rio de Janeiro, mostram o quanto o "festejado" grupo político não passa de uma elite infeliz de politiqueiros obsessos com o turismo.

Recentemente, então, a situação se agravou até no ramo do transporte. Um secretário da campanha Lei Seca, Alexandre Felipe, se embriagou e, com um carro em disparada, atropelou quatro pessoas em Niterói, matando uma delas, um trabalhador de 52 anos. E, em seguida, um acidente com bonde sem manutenção e sem freio causa a morte de cinco pessoas, entre elas o próprio condutor. Um outro acidente de bonde já havia matado um turista francês.

Embora seja paranoico culpar a "padronização visual" por tudo isso, e embora aparentemente o "poderoso" Sansão saia incólume desses desastres todos, ao costurar dados e fatos se dá a conclusão de que esse modelo arbitrário de transporte coletivo dificilmente durará os vinte anos esperados. E ninguém garante que ele sobreviverá mesmo até 2014.

O peleguismo busólogo já começa a preocupar busólogos mais veteranos e mesmo busólogos de outras localidades já começam a se decepcionar com o clima de desentendimento que envolve a busologia carioca e o estrelismo arrogante e depreciador que envolve os poucos busólogos a aderirem a Eduardo Paes e Alexandre Sansão.

Para sentir o drama, o "busólogo do PR" é conhecido por sua arrogância e por fazer trolagem (espécie de bullying digital) na Internet e por ter feito xingações racistas a outro busólogo, no incidente que teve como pivô um especial busólogo na TV paga. Há um outro busólogo, mais jovem, que também se envolve com trolagem.

Os busólogos-pelegos terão que repensar suas posições. Terão que escolher entre os interesses dos políticos e tecnocratas e os interesses do povo. Não podem servir a duas forças contraditórias ao mesmo tempo. E melhor que repensem, antes que se "queimem" quando desgastar a politicagem de Eduardo Paes e Sérgio Cabral Filho.

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