quinta-feira, 8 de setembro de 2011

OS "PROTESTOS DE RUA" NO BRASIL



Por Alexandre Figueiredo


Não se sabe se é risível ou triste, mas quase sempre as manifestações sociais, como as passeatas, no Brasil se submetem a um sentido estritamente de "cultura de massa", quase sempre esvaziando o sentido social e humanista ou até desvirtuando para um moralismo implícito e potencialmente golpista.

No momento em que a chamada "cultura de massa" está no ponto máximo de sua hegemonia, por conta de uma velha mídia que não manipula só no âmbito jornalístico, mas também no entretenimento, e quando as classes populares são tratadas até mesmo pela "generosa" intelectualidade etnocêntrica como reles bonequinhos de pilha que falam, o Brasil se encontra ainda à margem da primavera sócio-política que acontece na Europa, no Oriente Médio ou mesmo no Chile e na Argentina.

Ontem teve a "marcha contra a corrupção". Polêmicas à parte, o movimento, aparentemente sem vínculos ideológicos, no entanto parece muito com aquelas manifestações que se tornam embrião de "iniciativas" como o "Cansei".

É verdade que a corrupção política está intensa no Brasil e não deixa de envolver partidos aliados, aquela velha centro-direita que há dez anos atrás era amiga do PSDB e quase satélite do PFL (atual DEM), embora envolva, e muito, a direitona que tanto posa de moralista.

Mas será que uma manifestação dessas, da forma como foram feitas as marchas de ontem, será eficaz para pedirmos o fim da corrupção, quando por trás delas existem "militantes" e "oradores" tão corruptos quanto aqueles aos quais supostamente se protesta?

Jaqueline Roriz e a revista Veja - que corrompe seu já esquizofrênico jornalismo - são dois lados de uma mesma realidade. E há também pseudo-esquerdistas de toda ordem, pseudo-castristas, pseudo-guevarianos, pseudo-trotskistas, que vão para o Twitter falar mal da Folha de São Paulo e Veja, mas leem os livros de Gilberto Dimenstein e Diogo Mainardi escondidos sob capas falsas de publicações de esquerda.

Fazer passeatas é algo necessário, sim, mas será preciso o gancho de um modismo? Será que temos que transformar as passeatas brasileiras em micaretas não-assumidas para elas serem "digestíveis" e ter visibilidade? Ou será que precisamos aprender a fazer protestos de rua com uma direita moralista, conservadora, tão lacrimosamente reacionária?

O que é a espontaneidade hoje em dia no Brasil? Desde o fim do regime militar, com a nobre exceção de entidades sindicais e outras organizações realmente comprometidas com a cidadania, o que se viu foram protestos de fachada, marchas que podem até não serem necessariamente direitistas, mas soam por vezes burocráticas e politiqueiras, por outras soam mais como uma festa ao ar livre.

Não que fazer protesto com festa seja inválido. Até o aspecto festeiro poderia ser trabalhado para um protesto mais relevante. Na Contracultura dos anos 60, fazia-se protesto no maior clima festivo, e até mesmo a Nova Esquerda dos EUA surgiu sob o signo da algazarra, do bom humor, sobretudo a partir da pessoa de Abbie Hoffmann.

Mas quando se fala em "festa" - ou então, seu infeliz codinome midiático de "balada" - o que se vê é apenas um pretexto para jovens matarem aula ou a gente aderir ao entretenimento vazio, ébrio, narcótico, sem causa, sem pé e nem cabeça.

Aí cria-se um maniqueísmo no mainstream brasileiro dos protestos de rua, que é por um lado a festa sem causa que, por ser libertina, não é necessariamente libertária, e, por outro, por um clamor moralista ranzinza. No primeiro caso, vê-se uma grande alegria sem motivo. No segundo, um mau humor com motivação demais.

Diante desse maniqueísmo, tudo fica na mesma. E quando ocorrem realmente protestos relevantes de rua, eles são vistos com desdém pela mídia ou com falsa solidariedade pela pseudo-esquerda que finge apoiar os movimentos sociais, mas só quer vê-los longe, de preferência somente nos países árabes.

Afinal, a intelectualidade etnocêntrica quer viajar para a Europa, depois de cumprir seu trabalho de tapear as classes populares apoiando a pseudo-cultura que estas consomem passivamente, mas da qual levam a "boa culpa" de sua existência.

Bajulando o que rola no radinho e na televisãozinha, a intelectualidade festiva se dispensa de dar um aumento para empregados domésticos, recebe o jabaculê da velha mídia que a intelligentzia finge atacar, é endeusada pela mídia esquerdista e já tem um dinheirinho de sobra para viajar para a Europa.

Mas, com os protestos que ocorrem por lá, o jeito é a intelectualidade "influente" viajar para a Disneylândia, usar os chapéus do Mickey e tratar o povo brasileiro como um bando de patetas consumindo o brega-popularesco da velha grande mídia.

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