quinta-feira, 1 de setembro de 2011

O SENTIDO ANTI-POPULAR DA MÍDIA JAGUNÇA



Por Alexandre Figueiredo

A boa-fé de certos críticos da grande mídia faz com que se deixe passar veículos tendenciosos que, só por não mostrar "urubólogos" nem "calunistas", são inocentados do viés crítico e analítico.

É o caso da chamada imprensa "popular", tão traiçoeira que muda de máscara conforme o contexto. Dependendo da situação, ela é vista de forma "séria", como sinônimo de "jornalismo-verdade", ou então de forma "divertida", como se fosse "imprensa de humor". E tão cinicamente se autopromove às custas do Pasquim, como se o Pasquim tivesse sido somente imprensa humorística. E sabemos que não foi.

A imprensa "popular", no entanto, desempenha um papel complementar para a imprensa conservadora. Não que o jornalismo humorístico fosse inviável, mas a questão nem é essa. O problema é que a imprensa "popular" desvia a agenda popular de assuntos importantes para seu cotidiano para frivolidades e baixarias, daí a imagem sensacionalista inerente a esse tipo de imprensa.

Afinal, há, infelizmente, o esforço de certas elites, na chamada "cultura de direita", de evitar que as classes populares sejam dotadas de referências sociais relacionadas ao progresso e a emancipação sociais. Daí a "cultura" do grotesco, do vulgar, do piegas, do ridículo.

E as elites, mesmo as "de esquerda", tomadas do mais puro preconceito tipo Ali Kamel: "não somos machistas", "não somos vulgares", "não somos medíocres". Cria-se o problema e omite-se por debaixo do tapete.

Por sorte, os jornalistas da imprensa "popular" são capazes de tomar chope com os blogueiros progressistas. Sem falar da própria visão equivocada da classe média, que domina o tom do debate, de que tudo que aparentemente parecer "a favor do povo pobre" é sempre positivo. Muitos se iludem com o enunciado bondoso que pode esconder certas maldades.

Para as elites, já basta o ex-presidente Lula ter feito algumas reformas sociais que seus avós temiam serem realizadas por João Goulart. Se economicamente o Brasil quase consolidou o projeto de Jango, resta às elites que, culturalmente, pelo menos, o país dê continuidade ao cenário "cultural" da era Geisel, com o "povão" entregue ao consumo da vulgaridade, do grotesco e do piegas, que nada contribuem para sua evolução como gente e como cidadã.

As elites "de esquerda", como uma mistura de pelegos com pseudo-esquerdistas, os primeiros se "endireitando" por dentro, os outros se "esquerdizando" de fora, só querem que o debate público seja o mais elitista possível.

Discute-se a reforma agrária, o aumento salarial e a redução das jornadas de trabalho, entre outras reivindicações, apenas dentro dos sindicatos, dos parlamentos, dos seminários, num debate restrito ao mínimo da classe média organizada.

"O povo pobre, tão bonzinho, tão simpático, ainda não sabe debater", pensa a elite "de esquerda", tão preocupada em manter os valores brega-popularescos do "povo-coitado". Sim, a mesma elite de antropólogos, sociólogos, historiadores e críticos musicais tendenciosos que seduzem a intelectualidade esquerdista mais frágil com seu discurso confuso veiculado em monografias, documentários, reportagens, artigos etc.

Para tal elite, o povo deve permanecer de braços cruzados, feito criancinhas obedientes, assistindo à TV aberta, ouvindo rádio FM e, sobretudo, lendo a imprensa "popular", ou, quando muito, se "mobilize" para os galpões de mega-espetáculos para consumir os sucessos funqueiros, breganejos, forrozeiros-bregas, sambregas etc.

Como no âmbito brega-popularesco, não há bruxas malvadas com a cara de Miriam Leitão, nem tiranos sanguinários com a cara de Diogo Mainardi, tudo é positivo, mesmo que o povo pobre seja tratado de forma claramente paternalista, condenado a uma inferioridade social que a visão elitista dá um jeito de ser positivamente vista com a visão eufemística da "superioridade que nós não entendemos".

Note a agenda "progressista" da "divertida" imprensa "popular": popozudas, Big Brother Brasil, futebol, aberrações de toda ordem. O povo pobre está "feliz", a classe média "esclarecida" aplaude essa mídia, porque não há bruxas malvadas "urubólogas" nem tiranos "calunistas" expelindo seu mau humor nas páginas impressas ou digitais.

Mas não é pela inexistência de "urubólogas" ou "calunistas" que faz a imprensa "popular" ser inocente. Os analistas da mídia estão à frente de mais uma armadilha como aquela dos tempos em que havia a "mídia boazinha".

Nessa época, acreditava-se que os concorrentes diretos de uma mídia mais reacionária - como a TV Bandeirantes em contraposição à Globo, a Isto É em contraposição à Veja, ou mesmo, na Bahia, a Rádio Metrópole em contraposição à TV Bahia - , por não estarem no topo do poder midiático, estavam necessariamente solidários às causas progressistas. Para os incautos, a "midia boazinha" era nossa "mídia de esquerda", pelo menos não fazia reportagens sobre Che Guevara depreciando gratuitamente o notável militante latino-americano.

Isso até que a Isto É teve um surto demotucano entre 2007 e 2009, a Rádio Metrópole "fritou" esquerdistas baianos em toda a rede estadual e o pior ataque aos garis, que imaginávamos vir das páginas de Veja, veio de uma Bandeirantes que publicava anúncios de sua rádio Band News nas páginas de Caros Amigos e Carta Capital.

A própria Folha de São Paulo gozava-se de uma imagem pseudo-esquerdista, contrapondo-se, a nível estadual, a O Estado de São Paulo, e, a nível nacional, a O Globo. Até que, nos últimos dez anos, mostrou seu reacionarismo cada vez mais recente e ainda a memória curta de muitos foi surpreendida pela "desagradável" notícia de que a FSP assistiu os grupos de tortura do regime militar.

Hoje a imprensa "popular" se beneficia por suas máscaras. Quando falamos em tendenciosismo na imprensa, uns logo creditam a imprensa "popular" como "jornalismo verdade", "sério", "investigativo". Mas se essa imprensa mostra logo seus defeitos, muda-se o tom do discurso, dizendo que ela "não é para ser levada a sério", é uma "imprensa de humor".

Desconhece-se que essa imprensa "maravilhosamente popular" difunde valores machistas, transforma o povo pobre numa multidão de idiotas, investe num tendenciosismo tão abjeto quanto o de Veja, e a história desse tipo de jornalismo já mostra que também tivemos nossos Rupert Murdoch.

O que dizer do Noticias Populares, tão "ovacionado" por parte da intelectualidade "de esquerda"? Seu dono era, explicitamente, Otávio Frias de Oliveira, que ainda estava vivo e ativo, enquanto seu filho Tavinho Frias já o ajudava no comando do Grupo Folha. Um de seus sócios também tinha raízes direitistas, o mesmo Herbert Levy que integrou a UDN e que era um poderoso empresário e banqueiro, notável reacionário brasileiro.

Mas nem isso para assustar a criançada "esquerdista", que quer porque quer aplaudir o estilo "arrojado" (?) do NP, trabalhando sua imagem pretensamente "cult". Mas Waldick Soriano foi claramente direitista, e seus defensores ficam assustados com qualquer constatação nesse sentido. Devem achar também "injusto" comparar o antigo NP ao News Of The World inglês, apesar de serem a mesma coisa, em contextos nacionais diferentes.

E ficam louvando a imprensa "popular", sem se dar conta que elas também são feitas pelas elites, são controladas por empresários poderosos, cujas famílias são historicamente associadas ao golpismo civil-militar.

E tudo isso até que apareça, nas páginas "populares", um "Bóris Casoy" fazendo comentários machistas ou dizendo que o povo não quer qualidade de vida, e sim a vitória do seu time de futebol. Aí restará à intelectualidade deslumbrada chorar.

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