quarta-feira, 7 de setembro de 2011

O QUE SERÁ A CULTURA POPULAR APÓS REGULAÇÃO DA MÍDIA?



Por Alexandre Figueiredo

São cada vez mais intensas as campanhas pela regulação dos meios de comunicação no país. Com a decadência cada vez maior da velha grande mídia, cujos veículos de imprensa como Veja e Época, para não dizer a Folha de São Paulo e a Rede Globo, fazem demonstrações gritantes de mau jornalismo, discute-se mecanismos para frear os abusos cometidos por essa mídia.

Com certeza, esses mecanismos nem de longe podem ser vistos como autoritários, apesar das acusações da própria grande mídia e seus porta-vozes de tentarem afirmar o contrário. Pois a regulação dos meios de comunicação será feita pela sociedade, pelos vários segmentos sociais, inclusive representantes das classes populares.

É verdade que é preciso sabermos que práticas seriam feitas nesse sentido, mas já se sabe que, sem a participação popular, a regulação da mídia será desprovida de sentido e eficácia.

No entanto, a maior interrogação será por conta do que será a cultura popular quando as marcas do poder midiático se apagarem e quando o poder midiático, se não desaparecer, será minimizado pela pressão popular.

Até agora, o que se viu foi uma corrente da intelectualidade brasileira que acredita que, com a regulação da mídia, teremos a continuidade da mesma abordagem da "cultura popular" que a velha grande mídia promoveu, desde 1964.

Tudo por conta de uma pregação ideológica engenhosa, que incluiu até uma roupagem "científica" de reportagens, documentários e teses acadêmicas, que tão erroneamente creditou os ditos "sucessos do povão" das rádios e da TV aberta como se fosse uma "rebelião cultural da periferia".

Ou seja, há gente que acredita que, com a regulação da mídia, será possível ainda dormirmos tranquilos e acordarmos, em pleno café da manhã, com os glúteos das mulheres-frutas se exibindo na cara de nossas crianças na televisão.

Não, nada disso. Como também não dá para sermos "caetucânicos" e, "tropicarlisticamente" (num "tropicarlismo" que mistura Caetano dos maus momentos com o de ACM dos piores), acharmos que o brega-popularesco é a nova "Semana de 22", mais preocupada está nossa intelectualidade com as vaias que soam à distância dos aplausos dos ídolos bregas e neo-bregas.

Até porque muitos dos valores brega-popularescos são comprovadamente resultantes da própria manipulação que os barões da grande mídia desejaram fazer sobre as classes pobres, ou mesmo sobre a classe média baixa.

Daí que não dá para ver da mesma forma a cultura desenvolvida comunitariamente por artesãos e artistas com o que programadores de rádios e TV veiculam. Estes últimos, aliás agem explicitamente por ordem de gerentes artísticos que, por sua vez, obedecem a decisões empresariais, muitas vezes associadas a cenários políticos conservadores.

O que se vê, na realidade, nessa "cultura popular" defendida neuroticamente pela intelectualidade etnocêntrica, é uma visão deturpada das classes populares, entregues a uma estereotipação que transforma as classes pobres numa caricatura pior do que aquela que se via nas chanchadas ou nos humorísticos da televisão dos anos 60. Até porque, pelo menos, tais produções estavam mais comprometidas com a ficção, mas os estereótipos atuais fazem a realidade submeter-se à ficção.

E a cada dia se desmascara essa intelectualidade, supostamente alinhada à esquerda, mas defensora de valores culturais de direita. Tendo nomes como Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches como seus pensadores maiores, essa intelectualidade - no fundo, gente de classe média dotada de seus próprios preconceitos contra a classe pobre que, envergonhada, queria passar a impressão contrária - é cheia de conceitos neoliberais associados ao tema cultura.

Mesmo a noção de inferioridade social, que carateriza a situação problemática de pobreza, miséria, analfabetismo ou mesmo alienação que atinge as classes pobres, é mascarada por um eufemismo "sem preconceitos", que glamouriza a pobreza numa cosmética teórica e metodológica que tenta promover essa "inferioridade social" como uma "superioridade que não entendemos".

E essa intelectualidade, cinicamente, vai seguindo o Twitter de nomes como Emir Sader sem saber metade do pensamento deste sociólogo que, na medida em que critica o "deus mercado", ele justamente está combatendo as crenças de uma intelectualidade que aplaude cegamente tudo o que Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo dizem ou que conta como um de seus pares um reacionário da pior espécie tipo o mineiro Eugênio Arantes Raggi.

Mas se, em tese, essa turma toda segue Emir Sader, na prática ela prefere mesmo o paraíso de mentirinha do "senhor das trevas" Ali Kamel. Escondem seus preconceitos de classe através de uma visão paradisíaca que, em vez de resolver os problemas sociais, os esconde, isso quando não os classifica cinicamente como uma "solução" ou uma "diferença social que nós não conseguimos entender".

Será que a regulação da mídia nos trará um novo país se a abordagem cultural estiver nas mãos dessa intelectualidade "sem preconceitos", mas muito, muito preconceituosa? Um Eugênio Raggi não tem preconceitos muito diferentes dos de um Diogo Mainardi. Um Pedro Alexandre Sanches não tem preconceitos muito diferentes dos de um José Serra. Não adianta negar na teoria o que se vê, de forma escancarada, explícita, na prática.

O próprio povo pobre desconfia dessa intelectualidade que a classe média influente endeusa em quase todos os blogues pesquisados na busca do Google. Vê tais intelectuais como puxa-sacos do povo pobre, retóricos de bosta que elogiam os sucessos do rádio e da TV para não darem aumentos salariais para empregados domésticos.

Portanto, a nova cultura popular nem de longe significa dar continuidade à cafonice dominante, nem "com categoria". De nada adiantaria grupos performáticos de MPB cortejarem o brega-popularesco, cobrindo de flores e perfume todo o esgoto "cultural" investido há quatro décadas pela velha grande mídia.

Da mesma forma, foi inútil até agora reafirmar "cientificamente" toda essa pseudo-cultura midiática. Os aplausos assobiados da classe média eufórica tornaram-se sem efeito quanto à melhoria social do povo pobre.

A regulação da mídia só será completa se rompermos com essa verdadeira herança do regime militar, que é essa falsa cultura, que de "popular" só tem o nome, sendo muito mais um engodo midiático apenas popularizado, mas que atende aos interesses dominantes do mesmo mercado e do mesmo poder político e econômico que, no fundo, nunca desejaria que a "Ley de Medios" à brasileira fosse aplicada a sério e pra valer.

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