quinta-feira, 8 de setembro de 2011

O QUE QUER A CULTURA DE DIREITA COM AS ESQUERDAS



Por Alexandre Figueiredo

O que quer a cultura de direita infiltrada na intelectualidade de esquerda? O sinal de alarme foi dado quando, numa entrevista de Pedro Alexandre Sanches com Gustavo Alonso, autor de um livro sobre Wilson Simonal, os dois disseram, sem qualquer questionamento, que o governo do general Médici foi "tão popular quanto o ex-presidente Lula".

Ignorando qualquer mecanismo midiático que havia condicionado a popularização do regime militar, a intelectualidade de centro-direita que tenta se infiltrar nas esquerdas e sair dessa erguido sobre um pedestal tenta diluir seus conceitos e preconceitos na mídia esquerdista de forma que a herança cultural da ditadura militar e do neoliberalismo tenha continuidade mesmo com o desgaste de suas formas políticas e jornalísticas.

Evidentemente, se Pedro Alexandre Sanches não vai com a cara da ministra Ana de Hollanda, muito menos deve ter com Emir Sader. Aparentemente, ele o tolera, e talvez ele até pesque algumas palavras-chave em seus tendenciosos artigos, tipo enfiar a palavra "regulação da mídia" dentro de mais uma reportagem sobre grupo de MPB performática que elogia a música brega-popularesca.

É assustador o quanto esse pensamento de centro-direita penetra na mídia esquerdista pelas portas dos fundos, mas de forma escancarada. Teorias claramente influenciadas pelo pensamento neoliberal, mas, como em tese é "solidária" com as classes pobres, é vendida como se fosse um "pensamento esquerdista pós-moderno".

Mas seus mecanismos, de uma forma ou de outra, mostram o quanto esse pensamento está ligado à ideologia direitista. Critica-se Chico Buarque não pelos erros que ele, como ser humano, poderia fazer, mas como um símbolo de toda uma trajetória cultural e intelectual na qual o cantor e compositor é sua síntese contemporânea.

Usando como pretexto os erros que, realmente, sua irmã Ana de Hollanda havia cometido, a intelectualidade etnocêntrica transforma Chico Buarque na própria Geni por este cantada, e com isso se extravasa uma raiva inconsciente dos tempos em que o Brasil era culturalmente forte, longe da "cultura de coitadinho" do hegemônico brega-popularesco.

Pois, atacando Chico, ataca-se uma geração de músicos da MPB que brilharam com sua criatividade, como bossa-novistas e cepecistas dos anos 60. Ataca-se a geração do pai de Chico, Sérgio Buarque de Hollanda, da qual Oscar Niemeyer é um dos últimos remanescentes.

Ataca-se um projeto progressista do Brasil da Semana de 1922, da geração literária de 1945, do paisagismo de Burle Marx, do verdadeiro feminismo, da pedagogia diferente mas igualmente progressista de Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire. Ataca-se um Brasil que olha para a frente, e não para baixo, que quer se melhorar por dentro e não permanecer inferiorizado e submisso ao capitalismo "pop".

Elogia-se o brega-popularesco com base em conceitos tropicalistas diluídos já na acomodação direitista de Caetano Veloso nos últimos tempos. Anuncia-se o "fim da MPB tal qual conhecemos" com a tranquilidade que Francis Fukuyama teve quando disse que a História acabou.

Camufla-se a inferioridade social das classes pobres com o mesmo preconceito otimista de Ali Kamel. E fala-se das "novas pequenas mídias das periferias" com o mesmo olhar tecnocrático que os teóricos direitistas da informática e da globalização falam sobre a "revolução midiática" e o "fim dos Estados-nação".

O que quer essa cultura direitista ao tentar se associar às esquerdas e desvirtuar o caminho de pedras da imprensa esquerdista - como Caros Amigos e Fórum, que até agora não apresentaram um projeto cultural de esquerda, mas tão somente uma continuidade da abordagem direitista da Ilustrada da Folha de São Paulo - é simplesmente proteger os interesses dos barões do entretenimento que estão por trás de "inocentes" funqueiros, sambregas, breganejos etc.

Os mesmos que, um dia, são vitoriosos totens das rádios FM e da TV aberta , fazendo seus arquivos confidenciais no Domingão do Faustão, e, no outro, pretensos coitadinhos mendigando um lugar na MPB sob o apoio tendencioso de Pedro Alexandre Sanches e Paulo César Araújo.

Se somos "contraditórios" na nossa natureza humana, isso não significa que tenhamos que herdar o mesmo projeto cultural de direita, só porque as classes pobres são consumidoras potenciais do entretenimento dessa mesma mídia conservadora que pratica mau jornalismo e deprecia os movimentos sociais.

A cultura de direita está aí para, camuflada na moita reservada pela mídia esquerdista, renascer para acertar os relógios da velha mídia e reciclar o seu poder de forma mais intensa que aquele poder que empenhamos em combater.

Porque o "deus mercado", abatido pelos analistas midiáticos, renasce em Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e companhia, arautos que estes são da velha mídia, comprometidos em jogar num time em que sempre fazem gol contra.

É através desses dois intelectuais que, de revisionismo em revisionismo, a velha grande mídia rearticula seu poder através de teses manipuladas sob o pretexto cínico da "ruptura de preconceitos". Anteontem foi Waldick Soriano o "coitadinho", ontem foi Tati Quebra-Barraco, hoje Leandro Lehart e, amanhã, pode ser a "musa do Cansei" Ivete Sangalo. Hoje Médici é "um líder popular", amanhã será Collor, depois de amanhã o José Serra.

Isso porque na verdade eles, tentando cooptar a mídia esquerdista, querem na verdade enfraquecê-la e manter todo o mercadão brega-popularesco que enriquece empresários do entretenimento e da mídia, políticos e latifundiários que historicamente investem na manipulação e no controle social sobre as classes populares.

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