terça-feira, 20 de setembro de 2011

A MÍDIA DE ESQUERDA COMO REFÉM DO "FUNK CARIOCA"



Por Alexandre Figueiredo

Mais uma vez, a mídia de esquerda se rende à direita cultural. Até quando? Não bastasse a presença do pupilo de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches, a influência do dirigente funqueiro MC Leonardo também (des)norteia a pauta cultural da mídia esquerdista, que acaba pensando exatamente a mesma coisa que os editores de cultura da Folha de São Paulo e da Rede Globo/O Globo.

Isso é evidente. Salta nos olhos. O grande erro da mídia esquerdista em dar continuidade à mesma visão de "cultura popular" da mídia golpista acaba enfraquecendo os próprios esquerdistas, que praticamente entregam suas cabeças para o bullying midiático do Instituto Millenium.

Os direitistas acabam gracejando dos esquerdistas. "Viu? Eles (os intelectuais esquerdistas mais frágeis) pensam como nós! Querem ver o povo domesticado pelo consumismo e pela mediocrização cultural midiática!", é a voz oculta da direita. O próprio Reinaldo Azevedo, de Veja, esnobou dos esquerdistas que apoiam o "funk carioca", um dos maiores embustes midiáticos da história do país.

Pois o "funk carioca" é a trilha sonora da velha grande mídia por excelência. Espécie de tradução maior dos preconceitos e do paternalismo social simbolizado por pessoas como Ali Kamel, Otávio Frias Filho e a "galera" de Caras / Contigo / Tititi (as três revistas de celebridades do Grupo Abril), o "funk carioca" nem era para ser levado a sério, como um ritmo meramente dançante e sem qualquer valor realmente artístico ou cultural.

Mas, infelizmente, é levado a sério. Até demais. E seu discurso desesperado, paranóico torna-se repetitivo e cansativo, na medida em que o uso de pretextos como "vítimas de preconceito" e "expressão das periferias" se torna tão excessivo que começa a chatear.

Nota-se, até mesmo, que o discurso dos defensores do "funk carioca", longe de representar qualquer sentimento de humildade, torna-se, muito pelo contrário, expressão da mais pura arrogância, irritabilidade e pânico.

Qualquer crítica feita contra o "funk carioca" é automaticamente debatida por defensores irritados e paranóicos, que sempre usam as mesmas desculpas: "Cê tá de preconceito!". Logo o "funk", que, na verdade, trabalha os próprios preconceitos etnocêntricos da classe média alta sobre o povo pobre, que constituem numa visão glamourizada e paternalista da pobreza.

O próprio nervosismo dos defensores do "funk" mostra o medo de que todo seu discurso demagógico fosse desmascarado.

Um dos mais poderosos impérios mercadológicos do brega-popularesco, o "funk carioca" é dominado por empresários-DJs cuja fortuna não pára de crescer. Controlando, muitas vezes com mãos de ferro, uma verdadeira indústria de MC's e mulheres-frutas, os chefões do "pancadão" armaram esse discurso "sociológico", praticamente comprando a intelectualidade e a crítica, e fazendo a mídia esquerdista como refém de seus interesses.

O império funqueiro chega mesmo a fazer o jogo duplo de divulgar seus ídolos na mídia de direita e na mídia de esquerda, sob diferentes retóricas. Na mídia de direita, o "funk carioca" trabalha a imagem de vitorioso, triunfante e corajoso. Na mídia de esquerda, é o "coitadinho" a procura de um espaço. Mas sabe-se que o jogo duplo está com os dias contados, na medida em que se nota uma preferência implícita do mercado funqueiro com o lado das famiglias Marinho, Frias e Civita.

Por enquanto, o jogo duplo segue sua campanha, antes que tacapes e paçocas entrem em confronto e os dirigentes funqueiros descubram que a campanha da regulação da mídia contraria os interesses do "funk carioca", marcado pelas baixarias e pela arrogância de seus ídolos.

Na edição de Caros Amigos deste mês, a capa chama a atenção da mais recente conquista do império mercadológico do "funk": a criação de um programa do gênero na Rádio Nacional, emissora AM histórica que há alguns anos atrás tentou atualizar seus tempos áureos, mas agora parece se render ao jabaculê, num cenário radiofônico em que FMs fazem concorrência desleal e predatória com as AMs, vide a iniciativa infeliz e corrupta da dupla transmissão AM/FM que superfatura as finanças das emissoras envolvidas.

E isso com um espaço do "funk carioca" que, ao menos no rádio do Rio de Janeiro, já possui espaço na Beat 98 (das Organizações Globo), na 107,1 FM (comandada pela Furacão 2000), e alguns sucessos tocados na Nativa FM e na O Dia FM. Isso quando Preta Gil não despeja alguns de seus sucessos no seu Noite Preta da MPB FM, a coqueluche da intelectualidade etnocêntrica.

A mídia esquerdista deixa de ter um pulso firme na medida em que compactua com a domesticação sócio-cultural das classes pobres, às custas de modismos midiáticos que, para se manter "durável", vende a falsa imagem de "cultura das periferias". E isso se dá com todas as tendências do brega-popularesco, não só o "funk".

A mídia esquerdista perde uma boa oportunidade de pensar e repensar a cultura popular fora do eixo midiático, preferindo se render a discursos demagógicos de gente como Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e outros, que na verdade defendem os mesmos interesses das famiglias Marinho, Frias e Civita e seus aliados diretos e indiretos.

A própria Caros Amigos torna-se, por isso, refém das pressões da DINAP, distribuidora de revistas e jornais ligada ao Grupo Abril. Isso é muito grave, porque a mídia independente acaba se corrompendo com uma parcela de dependência, e logo a cultura, um tema muito caro em nossa sociedade, é encarada sob a mesmíssima abordagem que vemos na mídia golpista.

A própria direita cultural infiltrada nas esquerdas não desmente seu direitismo. Nunca. Prefere ficar quieta e acreditar que os questionamentos contra suas manobras sejam vencidos pelo cansaço. Mas não vão. Na Internet, a repercussão dos questionamentos é cada vez mais crescente, e nos bastidores a direita cultural fantasiada de "esquerdista" começa a ficar assustada.

Não por acaso, a edição de Caros Amigos tem como capa uma passeata do povo chileno contra o arbítrio do presidente neoliberal Sebastian Piñera. Uma manifestação popular fora do controle midiático, bem na América do Sul.

O maior medo da intelectualidade etnocêntrica é que o povo pobre deixe de fazer o papel de bobo-da-corte da burguesia e deixe de ser controlado pelo monitor dos barões da mídia e do entretenimento. Por isso a insistência com o brega-popularesco chega a ser doentia. Sobretudo com o nefasto "funk carioca", que transforma as populações das favelas em prisioneiras de um mercadão que enriquece cada vez mais os donos de equipes de som e deixam tranquilos os barões da grande mídia.

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