quinta-feira, 22 de setembro de 2011

FUTEBOL, O SUPRA-SUMO DO 'SHOWRNALISMO'


O ATOR CARMO DALLA VECCHIA - Um dos poucos que assumem que não gostam de futebol.

Por Alexandre Figueiredo

O futebol brasileiro há muito não está nos tempos áureos. Há pelo menos 20 anos, a Seleção Brasileira de Futebol nem de longe pode ser considerada confiável e sua trajetória é marcada pelas jogadas inseguras e por jogadores que estão mais para celebridades esbanjando luxo do que esportistas de dotes atléticos admiráveis.

Mas o "Brasil" ganhou duas copas do mundo, nesse ínterim todo. E "possui" vários "craques" que se destacaram na mídia, dirão várias pessoas. E daí?

As duas copas do mundo foram medíocres, como também vários concursos de miss marcados pelo visual das candidatas alterado pelas plásticas. Como a música brasileira dita "popular", aquela que rola nas rádios "populares" da vida, também é medíocre.

Só a Copa da Coréia do Sul e Japão, realizada em 2002, foi tão postiça e fajuta que, se é para se comparar campeonatos de futebol com batalhas, nada como comparar com a Guerra do Golfo de 1991. Se esta não passou de um videojogo político de George Bush, o pai, o campeonato de 2002 não foi mais do que um videojogo de Ricardo Teixeira.

E, por incrível que pareça, a seleção brasileira saiu-se como vilã em 2002, com jogadas repetitivas que, das eliminatórias de 2001 até a final de 2002, pareciam ter tido um roteiro premeditado, de tão iguais e pouco empolgantes estavam os jogos.

Só o hipnotismo da Rede Globo para fazer o "espetáculo" sem sal da copa de 2002 parecer tão emocionante quanto a novidade da vitória do futebol brasileiro na copa de 1958. Cria-se uma ficção midiática em torno do futebol, que faz com que partidas medíocres, dependendo do caso, pareçam "geniais".

Se a mediocridade eleitoral de Fernando Collor foi editada "magistralmente" para dar a impressão de que o então candidato de 1989 era um "potencial estadista", edita-se também o futebol medíocre, com recursos como a câmera lenta, que "dramatizam" a corrida de determinado jogador para o gol adversário.

Põe-se um fundo musical de música erudita, dessas bem dramáticas, criando uma tensão no espectador que vê a "reportagem" sobre o joguinho ocorrido na véspera. A edição de imagens logo vai para a arquibancada, mostrando caras aflitas dos torcedores, numa edição "lenta" que desperte suspense no espectador.

Tudo isso para promover o fanatismo esportivo que não obstante corrompe as torcidas do país e mergulha muitos cidadãos num alcoolismo tão viciado que, independente de vitórias ou derrotas, os organismos se danificam ano a ano com os fígados humanos massacrados semanalmente pela overdose de cervejas, cachaças e outras biritas.

O fanatismo esportivo também é marcado por outra overdose, a da mídia. Nem vamos dizer muito do quanto de excelentes programações musicais de FM são dizimadas para dar lugar a "Aemões de FM" dotados de jornadas esportivas pedantes, antiquadas e mofadas e transmissões esportivas com som de fita cassete velha, cujo único som de FM está no chiado, da transmissão e dos ouvintes.

Mas sabe-se que tais FMs, supra-sumo da mídia velha, disfarçam sua merecida baixa audiência com poluições sonoras "espontaneamente" realizadas por bares, táxis, portarias de edifícios, estabelecimentos comerciais e, se deixarem, até UTIs de hospitais, que dão a falsa impressão para os transeuntes de que a audiência das mesmas é "enorme".

O showrnalismo esportivo contagia toda a mídia. Rádios em geral, TVs, jornais, revistas, Internet. O jornalismo esportivo é o paraíso astral do showrnalismo. Só quem ignorava isso eram os antigos "líderes de opinião", os proto-blogueiros que nada diziam e só enfeitavam suas páginas "jornalísticas" com fotos de prefeitos, sindicalistas, paralamentares.

Só nesses jornalistas com muito nome pouco conteúdo é que desconhecem que o supra-sumo do showrnalismo está no setor esportivo, que para eles é apenas a saudável doutrina da "emoção", palavra que é usada como um eufemismo para o fanatismo esportivo trabalhado pela grande mídia.

O Globo Esporte e o Esporte Espetacular, da Rede Globo, são os maiores exemplos disso. E todo o espaço do jornalismo esportivo dos veículos das Organizações Globo que veem de carona. E nem é preciso fazer uma análise longa sobre o astro maior das transmissões "globais", o locutor Galvão Bueno.

Mais do que seu maior orador, Galvão é quase que um tirano, chegando a "ordenar" os jogadores que vão direto ao gol adversário para realizar o intento. "No gol, (nome do jogador), no gol, no gol, no gol, ééééé... do Brasil!", narra, autoritária e hipnoticamente, o conhecido narrador.

Até mesmo o então âncora da CBN, Heródoto Barbeiro - espécie de Gilberto Kassab do PiG - , deu suas "pérolas", como classificar a péssima atuação da seleção brasileira de futebol em 2002 como "fantástica".

E quem não gosta de futebol costuma ser constrangido, até mesmo pela mídia, pela atitude vista como "anti-social". Atores de TV como Daniel Del Sarto e Carmo Dalla Vecchia, por exemplo, até perdem seu destaque como celebridades, porque a mídia de celebridades não gosta de ver famosos adotando posturas "do contra". Daí a sede de jovens atores e atrizes embarcando em micaretas, vaquejadas e "bailes funk" em troca de um bom papel de novela na Globo.

A mídia trabalha o fanático esportivo como se fosse uma "pessoa normal", apenas isolando os praticantes de violência nas notícias policiais veiculadas tanto no jornalismo esportivo quanto no policial. Ou mesmo na imprensa jagunça (Meia-Hora, Expresso, Supernotícia etc) que junta policial e esportes no mesmo engodo showrnalístico.

Se, por exemplo, um brutamontes grita, do seu apartamento para a vizinhança ao redor, o nome do seu time, ele é uma "pessoa normal" e adota uma "atitude saudável". Mas se alguém deixa de ver o joguinho da seleção na copa do mundo, apenas pela opção de não apreciar o futebol e querer fazer outras ocupações como ler um livro, essa pessoa é "anti-social", é "problemática".

Fanáticos esportivos - com a exceção dos hooligans brasileiros que existem aos montes nas "torcidas organizadas" - até admitem que alguém não torça pelo mesmo time que eles, mas veem com preocupação quando alguém diz que simplesmente não gosta de futebol.

O próprio futebol, para rechear esse fanatismo - que atinge níveis fascistas, em certos casos - , é trabalhado pela mídia como se fosse um "esporte para todo mundo", mostrando, com uma ênfase tendenciosa, mulheres, roqueiros e até nerds "fanáticos" por futebol. Uma associação que poderia ser opcional ou casual, mas que é forçada pelo marketing obsessivo da mídia esportiva.

Com isso, as torcidas são envoltas num mundo de fantasia e de ilusão. Os astros do futebol, de origem pobre, são transformados em celebridades por vezes internacionais sem que as classes populares tenham realmente uma melhoria substancial de vida. E questões importantes da vida são deixadas de lado, e até mesmo a miséria é cada vez agravada pelo sacrifício supérfluo de juntar dinheiro para uma televisão para ver a copa.

Enquanto isso, empresários, dirigentes esportivos e políticos, além da própria mídia, se enriquecem às custas do showrnalismo esportivo. Se fosse somente um entretenimento inocente, tudo bem. Mas o espetáculo possui conotações políticas e ideológicas que corrompem apenas um simples direito de curtir futebol, que se transforma numa neurótica obrigação.

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