terça-feira, 27 de setembro de 2011

"FUNK CARIOCA" E BURGUESIA NACIONAL


MANIFESTAÇÃO PATROCINADA PELO IBAD-IPES, NUMA RUA EM SÃO PAULO, EM 1964.

Por Alexandre Figueiredo

A intelectualidade esquerdista no Brasil pode sucumbir a mais uma armadilha. Tomada pela pegadinha dos ideólogos do "funk carioca", os esquerdistas brasileiros acreditam em mais uma utopia sectária, semelhante ao que aconteceu entre 1963 e 1964 e que criou condições para que as esquerdas, enfraquecidas, estivessem mais frágeis ainda depois do golpe de 1964, em que pese toda a intensa reação ocorrida até o fim de 1968.

Naquela época, acreditava-se que a burguesia nacional estava no lado das esquerdas, a pretexto de uma aparente identidade com os interesses nacionais e populares. A crença era que a burguesia nacional, emergente, iria preferir se posicionar ao lado dos movimentos populares, na medida em que trabalhava pela soberania nacional.

Só que essa utopia foi desfeita quando se descobriu que a burguesia nacional estava, em maior parte, associada a dois "institutos" de fachada, o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD), fundado em 1959 para reagir à moratória que Juscelino Kubitschek fez ao Fundo Monetário Internacional, e seu derivado, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), surgido em 1961 para "fiscalizar" os atos do presidente João Goulart, então na sua fase parlamentarista governada por Tancredo Neves.

A burguesia nacional não só estava associada, em sua maioria, a grupos conservadores, como também estava associada aos representantes de multinacionais e de brasileiros associados, de qualquer forma, aos interesses do Departamento de Estado dos EUA, do Fundo Monetário Internacional e da Central Intelligence Agency (CIA).

E, com essa associação, a burguesia foi para as ruas pedir o golpe e a ditadura, que então eram conhecidos como "Revolução de 1964" e "governo revolucionário". As esquerdas se sentiram isoladas e traídas, e todo aquele sonho de país justo e desenvolvido se dissolveu como um castelo de areia destruído pelas ondas do mar.

A ARMADILHA FUNQUEIRA

E hoje? A grande utopia das esquerdas brasileiras é que o "funk carioca" irá trazer a revolução socialista para o Brasil, nem que seja apenas pelos glúteos das mulheres-frutas que "apavoram" (?!) o machismo com "suas" letras (assinadas por elas, mas provavelmente compostas pelos empresários e DJs que as têm como contratadas).

Mal sabem elas que o "funk carioca" é parte de uma abordagem de "cultura popular" que, na prática, consiste no equivalente atual do antigo IPES dos anos 60. Eu até apelido essa campanha do brega-popularesco de "Instituto Tropicalium", num trocadilho com o Instituto Millenium e as abordagens direito-tropicalistas de Caetano Veloso dos últimos 35 anos.

A utopia se justifica porque a intelectualidade esquerdista, dotada dos preconceitos da classe média alta - que o jargão marxista-leninista define como "pequeno-burgueses" - , acredita que o "funk carioca" está sendo bonzinho com as classes pobres, quando na verdade estas se tornam prisioneiras do entretenimento funqueiro, não podem ir além, não podem desenvolver sua cidadania.

Chega a ser lamentável que os dirigentes e empresários (ou "humildes" DJs) de "funk" tentem desmentir a todo custo que o "funk carioca" está associado ao imperialismo, que serve ao neoliberalismo, que impede o samba carioca de se expressar, que aliena o povo, que destrói os valores sociais etc.

Seus ideólogos ficam preocupados, até neuroticamente, em desmentir fatos e evidências, e nota-se seu nervosismo e arrogância que está por trás do seu discurso melífluo. Mas a intelectualidade aplaude, boboalegremente, qualquer coisa que um ideólogo do "funk" disser de "positivo", sem estabelecer qualquer visão crítica sobre o assunto. Tudo pela "ditabranda" do mau gosto.

Ninguém desconfia da armadilha que o "funk carioca" está armando para as esquerdas brasileiras. Pior: de repente criticar a máquina mercantil do "funk carioca" virou "coisa de direita". O "funk carioca" é um engenhoso e complexo processo de controle e manipulação social das classes pobres mas seu discurso melífluo seduz a quase todos, mesmo educadores e cientistas sociais.

Para piorar, se algum representante do "funk carioca" diz, numa assembleia, que as escolas deveriam substituir os exercícios de redação pelo de "funk", os especialistas de educação aplaudem sem verificar. Já aconteceu isso. Daí para dizer que o "funk carioca" substitui a educação básica, é um pulo.

Ninguém desconfia do jogo duplo feito pelo "funk carioca", que entra na velha grande mídia - sobretudo Rede Globo e Folha de São Paulo - pela porta da frente. Pior: prefere a facção mais frágil da esquerda brasileira acreditar que o "funk carioca" inexiste na velha mídia, enquanto existem provas contundentes do quanto o "pancadão" é música para os ouvidos das famiglias Marinho, Frias e Civita, entre outras.

O "funk" posa de "coitadinho" na mídia esquerdista, mas há muito tempo é o "vitorioso" na velha grande mídia. E, além disso, seus DJs e empresários estão cada dia mais ricos, mais até do que se poder imaginar, embora eles esnobem tal condição, se recusem a se reconhecer como empresários e ainda tentem argumentar que o "funk carioca" continua "pobre de marré de si".

JOGO DUPLO E INCENTIVOS FISCAIS

O jogo duplo do discurso funqueiro tem dois objetivos. Um é atrair incentivos fiscais do Governo Federal, o que faz os chefões e dirigentes do "funk" adotarem o disfarce de "ativismo cultural" para seduzir e enganar as esquerdas. Sobretudo numa época em que o pseudo-esquerdismo virou moda quando parte da direita passou a bajular o bonachão presidente Lula.

Outro é manter a visibilidade nos maiores veículos da grande mídia. Sem medir escrúpulos, o "funk carioca" adere facilmente ao mecanismo poderoso das Organizações Globo e ao pseudo-culturalismo da Folha de São Paulo. E adere com gosto, com tranquilidade, pois não se trata de invasão alguma, e sim do fato indiscutível de que o "funk" entra nos salões da velha grande mídia pelas portas da frente.

Por enquanto, o jogo duplo - que, no lado da esquerda, inclui até uma infeliz comparação com a Primavera de Praga - tenta se manter duplo. Enquanto a Caros Amigos publica uma "reportagem" sobre o programa funqueiro da Rádio Nacional, a fictícia adolescente Solange balança os glúteos no "baile funk" de uma novela da Rede Globo.

Os funqueiros usam as esquerdas como trampolim para se passarem por "ecumênicos" na grande mídia, e para se passarem por "progressistas" diante das autoridades e parlamentares de esquerda. Mas nada de Primavera de Praga, o "funk" mais parece Verão de Davos.

O grande problema para a intelectualidade esquerdista é quando os funqueiros, depois de conseguirem o que querem, vão apunhalar a esquerda pelas costas e oficializar seu casamento com a velha grande mídia e o neoliberalismo. Mas a intelectualidade esquerdista só perceberá isso quando será tarde demais.

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