quarta-feira, 21 de setembro de 2011

...E DÁ-LHE BELO MONTE!!!


ESSA ÁREA ESTÁ AMEAÇADA ECOLOGICAMENTE, PARA O "BENEFÍCIO" DA TECNOCRACIA NEOLIBERAL DITA "PROGRESSISTA".

Por Alexandre Figueiredo

Engraçada parte da intelectualidade de esquerda de nosso país. Ela está muito mais preocupada em manter o povo pobre passivo e alheio ao debate público e por isso quer isolar o debate esquerdista nos sindicatos, redações e plenárias parlamentares.

Para ela, fica feio o povo fazer passeatas contra arbitrariedades diversas. Para essa intelectualidade, vira bagunça. E fala-se de uma intelectualidade de esquerda que não é, felizmente, sua totalidade, mas é uma parte influente dela.

Para ela, o povo só faz "movimentos sociais" quando são "micaretas" enrustidas. Passeatas ligadas apenas às causas comportamentais. É claro que devem haver passeatas contra a homofobia, isso é muito justo, mas se a intelectualidade etnocêntrica adora apoiar passeatas assim, no entanto ela fica horrorizada quando há outras passeatas, contra o latifúndio, contra o neoliberalismo, ou pela redução da carga horária de trabalho.

Aí a mesma intelectualidade esquerdista mais frágil - imersa numa promiscuidade ideológica com pseudo-esquerdistas com evidente QI direitista - deixa florescer seus preconceitos de classe, seu bondoso e simpático paternalismo com os pobres se converte numa ojeriza aos mesmos, como alguém que adora cães domésticos mas sente horror pelos vira-latas.

Pedem para que o povo pobre cruze os braços e espere o progresso social vir de decisões de cima. Está certo que temos um cenário político mais favorável - embora nem tanto assim - aos interesses sociais, mas numa democracia o povo tem que cobrar melhorias, democracia autêntica não se faz esperando os tecnocratas decidirem por nós.

Mas o que a intelectualidade etnocêntrica quer é isso mesmo, que o povo cruze os braços, que vá que nem gado aos galpões de mega-espetáculos - como o Vibe Show, no Rio de Janeiro - consumir os sucessos popularescos do rádio e da TV aberta.

E, entre ingênua (a esquerda frágil) e hipócrita (a pseudo-esquerda), a intelectualidade etnocêntrica fica feliz quando os movimentos sociais ocorrem longe daqui, seja no Oriente Médio, na Europa ou, quando muito, no Chile e na Argentina.

Chegam ao cinismo de incluir nas suas pautas temáticas as mesmas manifestações anti-capitalismo. Ficam felizes quando viram astros ou tiram fotos no Fórum Social Mundial. Se sentem orgulhosos em seguirem o perfil de Emir Sader no Twitter. Mas, quando o assunto vai dos enunciados para os pormenores, a coisa muda de vez.

Aí, o que se vê são preconceitos dignos de assessores de políticos do PSDB e do DEM. Um preconceito social gritante, que implora que o povo pobre brasileiro fique subordinado no seu consumo do entretenimento "popular" imposto pela grande mídia.

Mas esse preconceito social é manipulado à maneira de Ali Kamel, o verdadeiro ídolo desses puxa-sacos do Emir Sader que, no fundo, veem a regulação da mídia como sinônimo de fim do mundo.

Aí, essa intelectualidade mascara preconceitos e limitações com uma abordagem "paradisíaca" de constranger. Se existe racismo, machismo, mediocridade cultural, somos aconselhados por essa intelectualidade a fingir que isso não existe, em vez de resolvermos tais problemas.

Se o problema é a alienação cultural, então, a única coisa que essa intelectualidade sabe fazer é esnobar, ridicularizar. E ridicularizar com "categoria", com argumentações cínicas tipo "fulano passa ao largo de acusações de alienação, seguindo feliz com seu sucesso".

Mas enquanto isso acontece, arbitrariedades tecnocráticas são impostas como se fosse "projeto progressista". Em muitos casos, são heranças de projetos adotados no auge do regime militar, decididos nos gabinetes da Aliança Renovadora Nacional, a temível ARENA que no fundo era a UDN recauchutada e cuja encarnação recente é o DEM.

E isso vai desde a padronização visual dos ônibus cariocas - herança do projeto imposto por Jaime Lerner para inglês ver e não gostar (a Inglaterra, do contrário que se pensa, não adota padronização visual nos ônibus) no calor do AI-5 - até a construção da hidrelétrica de Belo Monte.

A hidrelétrica será construída numa área do Alto Xingu onde existe uma biodiversidade e uma população indígena (que também integra essa biodiversidade) que serão afetados com o monstrengo. E mais: Belo Monte é um projeto oriundo do regime militar, lançado em 1974. "Progressista", não? Assim como os ônibus fardados de Jaime Lerner que até José Serra, Geraldo Alckmin e José Roberto Arruda adoram.

Isso lembra aquela ideia tecnocrática de "progresso" que, assim como a palavra "cidadania", não tinham o teor de justiça social que temos hoje. Quem não se lembra de florestas derrubadas "em nome do progresso"? Ou a "cidadania" que excluía mulheres, negros, índios ou, mais atrás ainda, os "semelhantes" capturados em campos de batalha?

Mas hoje, embora "progresso" e "cidadania" sejam agora palavras vinculadas à inclusão social, projetos excludentes ainda prevalecem. Tudo por conta de uma base de apoio "eclética demais" do governo Dilma Rousseff que se aproveita disso para diluir o que resta de valores neoliberais num pretexto de "esquerdismo moderno".

E isso com o apoio de uma intelectualidade que mais parece uma bancada de focas de circo, a aplaudir qualquer arbitrariedade sem verificação.

Claro, tudo pela Copa do Mundo. Tudo pelo turismo no Brasil. É festa, é Rock In Rio, é micareta, é "baile funk" nas UPP's, o Brasil é esse "paraíso de Ali Kamel" que esconde os problemas sociais por debaixo do tapete. E ver que a "nata" da intelectualidade brasileira influente ainda pensa como se estivesse no Brasil do general Emílio Médici, é constrangedor.

Enquanto isso, a intelectualidade etnocêntrica - que bate no peito dizendo-se "a melhor esquerda" - corteja Francis Fukuyama quando consente que a História do Brasil do pré-1964 seja jogada no lixo, com a cultura dos povos pobres, dos escravos, dos indígenas, jogadas na lata do lixo.

O que vale é o que o latifúndio (a classe dos grandes senhores de terras agora rebatizada de "agronegócio") apoia, não é mesmo? Tudo pela Copa do Mundo. Nada pela verdadeira cidadania, a da autêntica inclusão social.

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