sábado, 17 de setembro de 2011

DIREITA CULTURAL HERDARÁ BASTÃO DO PiG E DO PSDB/DEM



Por Alexandre Figueiredo

Na última eleição presidencial, o PSDB, pela sua campanha reacionária e desprovida de propostas consistentes, condenou-se a um fracasso humilhante nas urnas. A dupla PSDB/DEM, diante disso, a cada dia teve que encarar a repercussão negativa de suas gafes e das trapalhadas de seus envolvidos diretos, sobretudo o próprio candidato José Serra.

Os incidentes se deram de tal forma que os dois partidos passaram a sofrer uma crise interna, causando a debandada de vários de seus integrantes, alguns fundadores do PSDB, outros herdeiros de todo um DNA político que surgiu da antiga UDN ao recente DEM, para fora dos dois partidos e vários deles para o "ressuscitado" PSD, que, sabemos, não será na prática o partido de nomes como Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, Benedito Valadares, Antônio Balbino e Ernâni do Amaral Peixoto.

E o que ocorreu, afinal, com essa crise política toda que isolou o PSDB, o DEM e seu satélite político, o PPS? Simplesmente desgastou seriamente o antigo establishment da direita brasileira, a "direitona" política que, ranzinza, não consegue sequer mentir para o povo.

Com isso, a direitona política teve que recorrer à grande imprensa associada. Há muito esta era considerada o "partido político do capital", algo que uma espécie de versão compacta do antigo "instituto" IPES, a "frente ampla" da direita que pediu o golpe militar de 1964.

No entanto, a maior parte da opinião pública apenas reconhecia o direitismo jornalístico em alguns personagens e instituições. Mas, nos últimos anos, ao reacionarismo explícito de Globo, Veja, Estadão e Folha, além da RBS e Rede Bahia, somou-se também o surto reacionário antes implícito porém bem mais feroz da Isto É, Bandeirantes, Rádio Metrópole, Diários Associados e outros totens do segundo time da grande mídia conservadora.

Ver um ataque aos garis surgir não das páginas de Veja, como seria o esperado, mas na tela de uma TV Bandeirantes que fazia parcerias com Carta Capital e enviava anúncios publicitários de seu braço radiofônico noticioso para a mesma e para Caros Amigos foi um choque.

Muitos que acreditavam que os concorrentes diretos da mídia abertamente reacionária seriam necessariamente aliados. Faltou-lhes a leitura previdente de Memórias do Escrivão Isaías Caminha, que Lima Barreto lançou há um século, e que nos prevenia de uma grande mídia "boazinha" que, metida a rebelde, não tardava a se mostrar alinhada aos poderosos. Foi como colocar um filhote de raposa num galinheiro e esperar o tempo passar.

E agora, quando as críticas à grande imprensa começam a crescer e os escândalos que no exterior envolvem o magnata Rupert Murdoch, nem a "mídia boazinha" escapa. Luta-se pela regulação da mídia até mesmo em Salvador, depois que muitos deixaram de acreditar que a melhor solução para a mídia é deixar o galinheiro sob os cuidados da raposa Mário Kertèsz. E ninguém mais sonha feito criança inocente em ver a Isto É figurando lado a lado com a mídia esquerdista.

Só que o desgaste que envolve a Rede Globo / O Globo, a Folha de São Paulo e, acima de tudo, a Veja, pode fazer com que a direita brasileira tenha que apostar em mais uma carta na mão, na medida em que demotucanos e sua imprensa imprestável entram em falência.

E que carta é essa que a direita têm em suas mãos? Ou melhor, que atua sem estar exatamente em suas mãos?

É a cultura de centro-direita, que promove a pseudo-cultura "popular" e midiática como se fosse "cultura das periferias". Essa pseudo-cultura tem o mesmo gosto de mídia podre dos artigos "porcos" de "calunistas" e "urubólogas", mas que diabos a defesa da mesma é aberta e até chorosamente feita por intelectuais de esquerda é algo que só a boa-fé destes e seus preconceitos de classe média semi-abastada que estes possuem pode explicar.

Pois é essa pseudo-cultura de funqueiros, breganejos, sambregas, tecnobregas, "bregas de raiz", popozudas, "jornalistas" policialescos, imprensa "popular" e outros engodos que será a nova cartada da mídia reacionária. Uma pseudo-cultura que trata o povo pobre como um "coitadinho", forçando-lhe a inferioridade social enrustida, o papel de "bobo da corte" da pequena burguesia, com relativo direito ao consumismo, mas sem qualquer direito para a cidadania de fato.

A centro-direita cultural até está conseguindo vencer a esquerda pelo papo, criando dramalhões que legitimam a mediocridade cultural dominante. "Fulano é coitadinho, é vítima de preconceito", é uma de suas falácias certeiras.

E isso é muito perigoso, porque toda a verborragia da centro-direita cultural, dotada de muita visibilidade e de um status praticamente divinizado pela intelectualidade em geral, ganha sentido e qualquer questionamento feito é rebatido com as mesmas ladainhas de "preconceito", "elitismo" e "moralismo" que a centro-direita cultural, que se acha "esquerdista", atribui a seus contestadores.

A centro-direita cultural tenta empastelar o que o povo brasileiro tem de mais caro, sua cultura, suas crenças, seus hábitos e sua arte, com uma gororoba de valores pseudo-culturais "livres", "universais" e "democráticos" lançada pela TV aberta e patrocinada pelos mesmos barões da grande mídia que só ficam rindo quando a intelectualidade tenta negar o mais do que óbvio vínculo do brega-popularesco com a mídia reacionária.

A direita, querendo manter seus privilégios, lançará novas armadilhas, talvez mais sutis. E cabe à intelectualidade realmente esquerdista, em vez de admirar o queijo, que preste mais atenção à ratoeira.

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