terça-feira, 13 de setembro de 2011

A DIREITA CULTURAL E SEUS BODES EXPIATÓRIOS


ALCEU VALENÇA, CHICO BUARQUE E XANGAI - Ter senso crítico é tido como "atitude de direita".

Por Alexandre Figueiredo

A direita cultural sofistica suas manobras para manter a intelectualidade esquerdista sob sua influência. É a centro-direita que, surgida das sombras da Ilustrada e da Rede Globo, tenta nos fazer crer que defender a qualidade de vida do povo pobre é defender tão somente o que rola no radinho de pilha e a televisão portátil da empregada.

De repente, ter senso crítico passou a ser erroneamente atribuído a "atitude de direita". E nos últimos meses, três artistas da MPB mais autêntica, identificados com as causas populares, são agora atribuídos equivocadamente a uma "cultura de direita" que eles não fazem parte.

Chico Buarque é o primeiro deles, e até foi alvo de uma tese delirante de que seu esquerdismo foi "fabricado" pela RCA Italiana SPA, filial da indústria norte-americana hoje associada à japonesa Sony. Como se Chico não fosse filho do prestigiado historiador Sérgio Buarque de Hollanda, ligado a uma vigorosa geração de intelectuais que tanto fez por nosso país.

Depois foi Alceu Valença e Xangai, pelas críticas que fizeram, à sua maneira, à indústria cultural. Sobretudo Xangai, que havia feito duras críticas ao rock'n'roll. Eu gosto muito de rock, mas eu não chamaria alguém de direitista porque criticou duramente o gênero.

Aí, entramos num contexto kafkiano. "Esquerdista" é MC Leonardo, que dá uma rasteira nos caros amigos para também escrever no jornal Expresso identificado com a famiglia Marinho. "Esquerdista" é Waldick Soriano que elogiou o regime militar e atacou as feministas. "Esquerdista" é Michael Sullivan, durante anos o "chefão" cultural da Rede Globo. "Esquerdista" é Alexandre Pires, que foi apadrinhado por cubanos anti-castristas e cantou para George W. Bush. "Esquerdista" é Solange Gomes, pelas paródias "sensuais" de freiras e enfermeiras. "Esquerdista" é o tecnobrega, apadrinhado pela famiglia paraense Mayorana. "Esquerdista" é quem diz alegremente que Emílio Médici foi "muito popular" entre os brasileiros.

"JOSÉ SERRA" DO AMANHÃ

É assim que se semeia um José Serra do amanhã, um Cabo Anselmo da próxima hora, um Diogo Mainardi da próxima estação. A direita cultural, a verdadeira mas enrustida, vende suas posições e ideias como se fossem "de esquerda", só por conta de uma atitude aparentemente generosa com as classes populares. Mas seu direitismo latente é tanto que daria um enorme livro só para citar seus principais exemplos.

Da noite para o dia, o senso crítico passou a ser discriminado. Se não se concorda com a indústria cultural e a questiona, somos "moralistas", "reacionários", "elitistas", "saudosistas". Temos é que concordar e assinar embaixo com a pseudo-cultura e o entretenimento alienante que a TV aberta e o rádio FM veiculam, sob o apoio da imprensa dita "popular". Isso é que é "de esquerda".

Só que muito dessa pseudo-cultura - tão "cardosamente" ("cardosamente", e não caridosamente - alude-se às ideias de Fernando Henrique Cardoso) chamada de "cultura das periferias" - é apadrinhada pelos mesmos barões da grande mídia que classificam os verdadeiros movimentos sociais (MST, feministas, sindicalistas) de "criminosos".

Daí que a direita cultural que se fantasia de esquerdista finge que adora os movimentos sociais, desde que muito longe daqui. Quando muito, lá por Buenos Aires ou Santiago, com o mínimo de eco possível sequer nos Pampas.

Lamentavelmente, é essa a visão de cultura que predomina nas páginas da revista Fórum, uma publicação vinculada ao Fórum Social Mundial, e a Caros Amigos, cujo nome logo de cara é inspirado em Chico Buarque. Tudo por conta da boa-fé de alguns editores diante do tendenciosismo do todo-sempre discípulo de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches.

Sim, é isso mesmo. Porque as ideias de Pedro Sanches, enquanto entram em choque com possíveis abordagens de um Emir Sader, Venício de Lima ou Rodrigo Vianna sobre cultura, por outro lado entram em perfeita afinidade com o que se veicula sobre "cultura popular" nos veículos das famiglias Frias, Marinho e Civita, defendida até mesmo pela ala heterodoxa do Instituto Millenium.

A direita cultural quer proteger o mercado. E, para isso, chega até mesmo a disfarçar sua existência, a dá-lo como "morto" para não assustar a criançada. O mercadão brega-popularesco movimenta milhões de reais por semana, em todo o país, garantindo a fortuna de grandes magnatas do entretenimento, grandes proprietários de terras, multinacionais, chefões da grande mídia.

Mas fica chato dizer isso em relação à "cultura popular" veiculada pela mídia. Para todo efeito, somos induzidos a acreditar que a "cultura popular", por mais tutelada que seja pelos barões da grande mídia, não é mais do que um cruzamento de virgem romântica com bebê que anda por qualquer lugar, sem discernir um brinquedo de um fio de alta tensão, sem discernir uma Caros Amigos da revista Veja.

Só que, por trás dessa visão, o povo pobre é manobrado. Mas como tudo é feito para parecer ter ocorrido "ao sabor do vento", isso é visto como se fosse "natural". Por mais que um grupo de "pagodão" tenha surgido através de um planejamento no escritório do seu empresário, por mais que um MC ou uma popozuda tenham sido "construídas" na empresa de seus produtores e DJs, tudo isso é "expressão espontânea das periferias", de acordo com a visão oficial que se tem da coisa.

IDADE MÍDIA

A direita cultural se lembrou que, na Idade Média, havia um evento chamado carnevale, que aparentemente invertia os valores morais rígidos de uma localidade geralmente comandada por um rei, sob o apoio de um clero austero e uma nobreza narcisista. Nesses eventos foliões, o conservadorismo era deixado provisoriamente de lado em nome de uma "liberdade" dos instintos.

Associado a isso, havia o baile de máscaras. E depois o baile de fantasias. Mas, em todo caso, o folião se esconde sob uma máscara ou fantasia, provisoriamente deixando de ser aquilo que é, dissimulando sua real identidade.

E hoje, o que a direita cultural faz? Disfarça-se de esquerdista. Feito um político em campanha, a direita cultural acaricia as cabeças dos miseráveis e aponta para a pseudo-cultura "popular" midiática e diz, na maior hipocrisia: "Vejam, essa é a legítima (sic) cultura do povo das periferias. Olhe como as classes pobres sabem produzir arte (sic)!! Não é lindo de ver? Ninguém precisa gostar, mas tem que reconhecer o valor de tudo isso!".

E aí, proibe-se de pensar. Desaconselha-se analisar questões estéticas. Sociologia e Antropologia, só a de resultados. De preferência, camuflando marketing em roupagem científica. Ser "científico", só na verborragia, no rigor acadêmico. Senso crítico, de jeito nenhum. E todo esse processo, tão tido como "esquerdista", cedo ou tarde mostra seu caráter direitista.

ESQUERDA ANTI-ESQUERDA OU "SÓ A DIREITONA DEVE PENSAR"

Daí que todo o caminho traçado por um Pedro Alexandre Sanches inevitavelmente chega ao destino indesejado no discurso, mas bastante esperado na prática. Chega-se ao protecionismo cultural de Reinaldo Azevedo ou a um paraíso de fachada de Ali Kamel, por mais que seus defensores gritem, feito dondocas contrariadas, que "estão do lado" de Emir Sader e Venício de Lima nas suas genuínas manifestações de lucidez.

Na verdade, na medida em que a direita cultural exerce seu tráfico de influência na intelectualidade esquerdista mais frágil, acaba jogando a esquerda contra si mesma. Como se mostra quando se combate um Chico Buarque, um elo entre a intelectualidade esquerdista autêntica - cujas obras falam por si mesmas até hoje - e as gerações atuais, ou quando se defende um conservador tipo Waldick Soriano, que elogiava o regime militar.

É assustador que uma esquerda intelectual pouco crítica mas muito influente chegue a atacar cegamente os "excessos" da "patrulha esquerdista" dos anos 60, não pelo natural direito de criticar, mas pelo apetite de derrubar a esquerda de ontem.

Mas, como diz o ditado, de grão em grão, a galinha enche o papo. Critica-se a geração pré-1964 de cepecistas, isebianos, modernistas e progressistas ao esculachar Chico Buarque, hoje tido como bon vivant.

Critica-se a "patrulha esquerdista" dos anos de chumbo, sem saber que os intelectuais que endeusam Pedro Alexandre Sanches acabam mesmo é seguindo as lições de Veja, porque de discurso em discurso acaba-se esculhambando até mesmo a geração da presidenta Dilma Rousseff.

Uns chegam a tentação de se dizerem solidários ao MST, no âmbito político, mas, a julgar pela trilha sonora, a partir da "linda história" dos ruralistas Zezé Di Camargo & Luciano e do canto-de-sereia sertanejo de Paula Fernandes, acabam ficando do lado da UDR e da senadora Kátia Abreu, a musa dos latifundiários.

E, de bandeja, essa intelectualidade acaba delegando o direito do senso crítico à direitona midiática. No fundo, acabam acreditando que quem pode ter senso crítico são pessoas reacionárias como Reinaldo Azevedo, Merval Pereira, Josias de Souza, Eliane Cantanhede, Míriam Leitão.

Só eles podem mudar o padrão de "cultura popular" do nosso país. E quem não está com eles, só resta engolir o que passa no Domingão do Faustão porque, na semana seguinte, aparecerá também na Rede Record e, por isso, será considerado "sem mídia". Absurdos naturalmente aceitos por atacado ou por varejo.

Tudo isso para a direita cultural nos confundir, com seus setores heterodoxos, a cultura de centro-direita, se camufla tranquila na mídia esquerdista. O travestismo ideológico, termo que o isebiano Nelson Werneck Sodré havia lançado antes, cria suas armadilhas, para evitar que o Brasil se evolua culturalmente e as desigualdades sociais continuem prevalecendo, apenas toleradas sob "novos olhares" que não expressam senão visões cada vez mais retrógradas.

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