sexta-feira, 23 de setembro de 2011

BREGA-POPULARESCO SEMPRE MENOSPREZOU A MPB



Por Alexandre Figueiredo

A música brega-popularesca, hoje em dia, clama desesperadamente de que é parte da diversidade cultural brasileira. Mas essa diversidade foi durante muito tempo menosprezada, ignorada e discriminada por ídolos bregas e neo-bregas que, quando eram os reis da mídia do entretenimento, pouco importaram se a MPB perdia ou não seus espaços.

Nos anos 90, época em que a música brega e seus derivados experimentaram uma hegemonia antes inesperada em todo o país, tudo parecia na "santa paz" do poder midiático.

Num lado, as classes pobres ficavam restritas ao consumo dos sucessos popularescos das rádios FM e da TV aberta, e, no outro, as classes abastadas se apropriavam de todo o patrimônio cultural brasileiro, até mesmo das tendências que, antes de 1964, eram feitas quase que exclusivamente pelas classes pobres.

Só que, com o advento da Internet, com sua capacidade de ampliar o alcance e a abrangência de novas informações, o público comum passou a ter sede de informações e aquela mesmice brega-popularesca dos anos 90 começou a ser questionada, até mesmo de forma bem mais austera.

A classe média não pode mais ter exclusividade no gosto musical de qualidade e as classes pobres começam a ver que existem coisas mais interessantes do que o engodo radiofônico que há muito consumiram.

Os ídolos popularescos até tentaram tapear. Passaram a gravar mais covers de MPB, passaram a fazer dueto com medalhões da Música Popular Brasileira, e a participar de tributos culturais produzidos pela grande mídia.

Mas as críticas tornavam-se ácidas e o mercado brega-popularesco teve por (seu) bem financiar toda uma campanha intelectual, presente em documentários, artigos, monografias, sempre comentando chorosamente da "discriminação" que os "ídolos populares" (bregas e neo-bregas) passaram a sofrer no final dos anos 90.

A campanha, tão conhecida, produziu uma "panelinha" de intelectuais, uns vindos da direita midiática, outros de setores menos firmes das esquerdas, que consistem hoje numa direita cultural que começa a se assustar com o questionamento não só à música que ela defende, mas agora estendidos à própria intelectualidade.

Nos últimos dez anos, a "monocultura" de brega "de raiz", axé-music, breganejo, sambrega, forró-brega, "funk" e similares passaram a ser promovidas como se fosse a "moderna diversidade brasileira".

A princípio, rejeitava-se a MPB autêntica como se ela fosse "música de ricaço", e mesmo nomes originários das classes pobres, como Cartola, Pixinguinha e João do Vale eram tratados jocosamente como "eruditos". Criou-se um preconceito implícito de que pobre quando faz boa música vira "burguês".

Mas agora, com o pavor cada vez maior de desgaste do brega-popularesco, que se assusta por não ter conseguido a hegemonia absoluta, a intelectualidade agora tenta justificar essa categoria "cultural" apelando para nomes esquecidos da verdadeira cultura brasileira.

Em outras palavras, eles tornam cada vez mais engenhoso e sofisticado seu discurso sobre a pretensa "diversidade cultural" do brega-popularesco. Tudo para justificar a sua hegemonia que fez banir a MPB do livre acesso às classes pobres e depois quis fazer a MPB autêntica ser esquecida até mesmo pelas classes médias.

Mas agora, como não dá para jogar a MPB autêntica no limbo - fala-se da MPB autêntica a música das classes populares feita até 1964 e seus derivados posteriores, além da MPB universitária dos anos 60 e 70 - , usa-a para justificar o brega-popularesco de todas as formas.

Isso torna-se uma manobra sutil e aparentemente generosa, devido à memória curta que envolve tanto o Brasil. Esquecemos que os ídolos do brega-popularesco que agora são citados, em artigos tendenciosos, ao lado de "malditos" da MPB que nem mesmo a MPB FM consegue se lembrar, sempre menosprezaram a música de qualidade que agora é usada para justificar a "revolução" (?!) cultural dos anos 90.

Tudo isso é feito para tentar desviar a atenção dos internautas quanto ao "lado B" da música brasileira realmente discriminado pela fúria mercadológica da mídia. Do mesmo modo, mantém-se o vínculo do público pobre com a mesmice radiofônica dos sucessos popularescos, agora promovidos a "cultura das periferias" pela intelectualidade festejada.

E todo um discurso demagógico é feito, beneficiado pela riqueza da retórica, que, como uma massa de modelar, assume várias formas, várias máscaras. Usa-se pretextos esquerdistas para justificar o neoliberalismo.

Diz-se que a velha indústria cultural morreu, enquanto ela ressuscita nos mesmos ídolos exaltados por antropólogos, historiadores, sociólogos e críticos musicais. O mercado "morre" no enunciado, mas renasce nos fundamentos nem sempre admitidos no discurso, mas reafirmados na prática.

Dessa forma, cria-se uma "revolução cultural" que não existe. Usa-se a MPB autêntica mais obscura e underground para "justificar" o brega-popularesco. Recorre-se à MPB "maldita" como alguém que só se lembra de visitar um doente quando este se encontra em estado terminal.

Se escreve sobre axé-music, usa-se nomes como Bule-Bule, Diana Pequeno, Mariene de Castro e Lazzo para "justificar" mediocridades como Parangolé e Psirico, para não dizer o É O Tchan. Se escreve sobre "sertanejo", usa-se o Clube da Esquina, Renato Teixeira, o maestro João Carlos Martins e, talvez na próxima estação, até Jacob do Bandolim será usado.

No caso do "funk carioca", cita-se até mesmo Jackson do Pandeiro, usa-se o maxixe, usa-se até mesmo o Tropicalismo, a Semana de 1922, para "justificar" o fenômeno neo-brega.

Essa retórica desesperada, feita pela direita cultural que teme não ter mais influência nas esquerdas, mostra o quanto o tendenciosismo acontece para que velhas mentalidades se reciclem através de posturas aparentemente novas. Mudam-se os anéis, para perservarem-se os dedos.

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