quinta-feira, 29 de setembro de 2011

BREGA-POPULARESCO E "LIBERDADE DE EXPRESSÃO"



Por Alexandre Figueiredo

A liberdade artística não é qualquer nota. A qualidade artística não surge necessariamente nas academias, nos conservatórios, nos seminários de música. Surge da vocação natural dos artistas.

Se a mediocridade de hoje é associada à "cultura" supostamente feita pelas classes populares, ela não se deve à uma suposta visão "positiva" do outro em que a "burrice" é uma "outra inteligência", a "estupidez" é uma "outra sensatez" e a mediocridade é uma "nova genialidade". O senso crítico não permite eufemismos dessa ordem.

O que se atribui como "cultura popular" e que é duramente criticada e reprovada, fazendo com que a intelectualidade etnocêntrica falasse em "preconceito", "moralismo" e "elitismo", é a pseudo-cultura trabalhada pela grande mídia, a mesma mídia que condena os movimentos sociais, que estabelece uma visão conservadora da sociedade.

Ninguém entendeu ainda que existe a diferença entre a cultura popular de verdade e o "popular" midiático-mercadológico que se baseia na domesticação social do povo pobre e que claramente mostra sua qualidade sofrível, seus ídolos submissos, seu mercado milionário controlado por um empresariado que não pode ser confundido de jeito algum com um proletariado emergente.

Também ninguém entendeu, ou talvez não queira admitir, por que a mesma grande mídia que, em nome do reacionarismo antissocial, descumpre a ética e o profissionalismo, trata de forma gentil os mesmos ritmos "populares", até mesmo os "injustiçados" tecnobrega e "funk carioca", que a intelectualidade etnocêntrica pensa, tão boboalegremente, que vão apavorar a grande mídia.

A direita cultural que coopta a ala esquerdista dessa intelectualidade fala em "diversidade cultural" de forma bem análoga ao que a direita política fala em "liberdade de expressão" em relação à mídia dominante.

Fala-se em "polimorfia cultural" como a própria Folha de São Paulo, em suas propagandas recentes - que passaram na televisão e hoje se encontram no YouTube - falava em "diversidade de opiniões". E Pedro Alexandre Sanches, como um fruto que não cai longe da árvore, ainda mantém suas visões folhistas por mais que agora tente se dissociar do periódico paulista.

Porque a "liberdade de expressão" da velha grande mídia, sabemos, é apenas um pretexto para que visões dominantes e reacionárias prevaleçam, supostamente justificadas como se fosse uma "visão pluralista". Daí a obsessão da direitona em se dizer "democrática", "livre" e "imparcial", tudo para camuflar seus interesses de classe.

Na direita cultural, é a mesmíssima coisa. Cria-se um discurso de "diversidade cultural", de "polimorfia", de "pluralidade de culturas", até misturando alhos com bugalhos, juntando as manifestações autênticas do folclore, das tradições artísticas mais recentes, dos grandes artistas contemporâneos, com a mediocridade que rola nas "rádios populares".

Mas isso nem de longe representa uma defesa autêntica da diversidade, antes dissimulasse a "monocultura" brega-popularesca dos anos 90 num pretexto falsamente pluralista. Afinal, a direita cultural (comandada por Paulo César Araújo, Pedro Alexandre Sanches e outros) apenas tenta desviar as atenções que deveriam ser para a verdadeira cultura popular para o mesmo brega-popularesco da grande mídia.

Como a "democracia" da velha grande imprensa, a "diversidade" da cultura de direita visa tão somente evitar que manifestações genuinamente populares floresçam e neutralizem a influência dominante das tendências comerciais impostas pela mídia.

Cria-se até mesmo um elenco de "coitadinhos", de ídolos brega-popularescos que fizeram muito sucesso, mas que, em vez de manifestar seu orgulho pelo sucesso conquistado, ficam ranzinzas reclamando do suposto preconceito que dizem sofrer. Só que eles, no fundo, nada têm de coitadinhos, mas de ingratos e arrogantes que não sabem os limites de seu talento nem do alcance de seu sucesso.

A direita cultural cria um discurso envolvente. Quando a abordagem é cultural, o discurso torna-se mais dócil, atraente, sua confusão nos argumentos chega a parecer verossímil, afinal, para todo efeito, "somos contraditórios". Passa-se a mão na cabeça, de modo paternalista, no povo pobre, coisa que qualquer corrupto em campanha eleitoral faz, e todos, boboalegremente, aplaudem feito focas de circo.

E aí evoca-se manifestações genuinamente culturais para "justificar" as bastardas. Isso dá a impressão falsa de defesa da diversidade cultural, mas o que acontece é o inverso, desvia-se as atenções que se dá à cultura de qualidade, porque a pseudo-cultura "popular" é tida como seu suposto equivalente.

Dessa forma, o povo pobre se sente desestimulado a apreciar a cultura de qualidade, porque falam que a pseudo-cultura é que é "a verdadeira, a moderna, a plural". Da mesma forma que o cidadão é desestimulado a pensar a reforma agrária, a redução das jornadas de trabalho e a manutenção da educação pública porque o "livre-mercado" e a "livre-iniciativa" são "democráticos, plurais e mais eficazes" para nossa sociedade.

Enquanto a intelectualidade não conseguir desmascarar a direita cultural - confundida com esquerdismo pela aparente cordialidade com o povo pobre - , ela mantém-se mascarada feito o Lobo Mau fantasiado de vovozinha.

A verdadeira diversidade cultural nem de longe passa pelo brega-popularesco que lota plateias e vende CDs, mas não traz conhecimentos nem valores sociais sólidos. A verdadeira diversidade cultural não impede o povo de pensar, mas evita o povo de fazer papel de ridículo.

Até agora, o que a mídia e a intelectualidade chamam de "cultura polimórfica das periferias" é nada mais e nada menos do que a pseudo-cultura midiática de uma forma só, que sempre transforma o povo pobre em bobos da corte da velha grande mídia.

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