segunda-feira, 12 de setembro de 2011

AS MANOBRAS DA DIREITA CULTURAL NAS ESQUERDAS



Por Alexandre Figueiredo

"Somos contraditórios", resigna-se a intelectualidade de esquerda mais frágil, que se associa à direita cultural que, formalmente, tornou-se uma suposta dissidente da grande mídia.

Resigna-se ela na impotência de buscar a coerência, na fragilidade de almejar uma cultura popular realmente desprovida da grande mídia, na incapacidade de contestar o poderio dos barões do entretenimento que há muito introjetaram seus valores na população pobre, que apenas está mal acostumada a eles.

A direita cultural mantém sua visibilidade na intelectualidade esquerdista, através de um mensalão ideológico onde ideólogos neoliberais da cultura popular, só porque passam suas mãos nas cabeças das classes pobres domesticadas pela mídia, são vistos como "paladinos da cultura popular de esquerda".

E por que ninguém questiona essa direita cultural, enquanto se questiona profundamente a linha editorial política da direita, enquanto se observa claramente o conflito ideológico do Oriente Médio?

Sabemos que há gente chateada por que este blogue andou fazendo duras críticas ao festejado crítico musical Pedro Alexandre Sanches, assim como põe em xeque as abordagens cheias de sonho e fantasia do sinistro Paulo César Araújo, ambos neocons em potencial, mais perigosos do que os antigos cepecistas que venderam suas almas para a Rede Globo.

Mas este blogue é talvez o primeiro a contestar e identificar as abordagens neoliberais desses dois intelectuais, que já têm suas almas leiloadas para a grande mídia faz tempo. Não convence a falsa atitude anti-Folha de Pedro Sanches, grosseira, forçada, hipócrita e ingrata com seus antigos colegas da Folha de São Paulo.

A cultura envolve, muitas vezes, teatralidade, encenação, fingimento. E a direita cultural usa suas máscaras. Se ela é "boazinha" com os pobres, bingo! Ela é "de esquerda". Mas até pouco tempo atrás todo o showrnalismo que não era diretamente ligado à Globo, Veja e Estadão era "mídia de esquerda".

O pop, que é a forma por excelência da "cultura de massa", é o neoliberalismo transformado em sorvete. Dilui-se conceitos neoliberais numa discurseira pop que faz o antiquado parecer arrojado, faz o medíocre parecer genial, faz o reacionário parecer revolucionário.

A retórica da direita cultural tem na publicidade seu apelo maior por excelência, e a capacidade do discurso de se contradizer e dizer ao mesmo tempo garante seus mil disfarces, suas múltiplas máscaras, e o discurso publicitário, que trabalha com meias-verdades e camufla mentiras em apelos sedutores de falsas verdades, garante o sucesso dessa retórica.

Nela, dá até mesmo para ser "de esquerda" lançando ideias puramente de direita. Exalta-se o neoliberalismo que, diluído sob a imagem atraente da "modernidade pop", anula-se a cidadania em nome do consumismo, mas credita-se tudo isso a uma "saudável qualidade de vida que une todos os cidadãos". Mente-se o tempo todo, mas dá-se a impressão de que só está falando a verdade.

Há razões para fazer duras críticas ao endeusado Pedro Alexandre Sanches, ou ao inabalável Paulo César Araújo. Sanches escreve livros na Boitempo para defender ícones atualmente alinhados na direita cultural, analisa a MPB sob o olhar neoliberal de Francis Fukuyama, vê a cultura popular sob o prisma elitista de Fernando Henrique Cardoso e defende ícones "culturais" apadrinhados claramente pela Rede Globo, Folha de São Paulo e até mesmo Veja.

E Paulo César Araújo? Seu livro Eu Não Sou Cachorro, Não é da mesmíssima editora de O Lulismo no Poder, de Merval Pereira e O País dos Petralhas, de Reinaldo Azevedo. E eu é que sou "de direita"? Ser "de esquerda" é ser "bonzinho" e "permissivo"?

Mas o discurso "coringa" da direita cultural faz suas manobras. Se alguém a acusa de direitista, ela choraminga e diz "isso mesmo, somos sempre rejeitados. Levamos pau de todo mundo". Faz-se cara de vítima, uma manobra fácil para quem estar no poder se manter nele sem que as pessoas se deem conta disso.

Só que o discurso da direita cultural infiltrada nas esquerdas - aliciando até mesmo muita gente boa que produz blogues e trabalha na imprensa esquerdista - cria contradições grotescas, que não dá para resignadamente achar que a "contradição é inerente à natureza humana". Não dá para justificar nossos defeitos às custas de discursos poéticos.

Como é possível creditar como "cultura das periferias" intérpretes que, logo de cara, se vê que são tutelados por empresários do entretenimento, tal como se viu muito nas chamadas "armações" do pop norte-americano? Entregar o folclore brasileiro a nomes assim, a pretexto de que fazem muito sucesso, é o mesmo que entregar os princípios da cidadania para o FMI.

Já a defesa de ícones da direita como Waldick Soriano, enquanto se combate ícones da esquerda como Chico Buarque, é uma grande manobra da direita cultural assimilada de forma submissa pela esquerda intelectual mais frágil.

É tragicômico que haja uma "esquerda" que agora fala mal da esquerda, e pessoalmente fiquei preocupado quando Pedro Sanches e Gustavo Alonso comentaram sorridentes, nas páginas da revista Fórum, que o regime militar "foi muito popular no Brasil". E ainda escolheram o mais cruel deles, o governo Médici, como exemplo. Se ainda tivessem escolhido o governo de Castello Branco, faria algum sentido, por mais absurdo que este ainda fosse.

É muito perigoso isso. A direita cultural, dentro de um discurso que agrade setores frágeis das esquerdas política e intelectual, aos poucos estabelece uma ótica revisionista que já reverteu o brega-popularesco, que sempre esteve no poder junto à velha grande mídia, em "expressão dos excluídos".

Hoje promovem o general Médici a "líder carismático". Na Bahia, o arenista Mário Kertèsz virou "intelectual de esquerda", sem ser intelectual nem muito menos de esquerda. Ficou mais fácil reabilitar antigos corruptos, antigos reaças, o algoz de ontem pode ser o coitadinho de hoje. Manipula-se a história como se fosse uma massa de modelar, diante da memória curta de muitos. E amanhã será quem? Fernando Collor, José Serra?

Ou será que vamos voltar aos tempos em que "mídia de esquerda" era somente o segundo escalão da grande mídia conservadora que concorre diretamente com o primeiro escalão? E logo agora que Isto É e Grupo Bandeirantes, pelos seus perfis conservadores, começam a ser largamente reconhecidos como mídia de direita tanto quanto Veja e Rede Globo.

O DNA da Folha de São Paulo, em Pedro Alexandre Sanches - que no Twitter aparece como @pdralex - , continua muito forte e muito vivo, por mais que o referido crítico faça falsas críticas à Folha de São Paulo e à velha mídia em geral ou insira verbetes esquerdistas feito palavras soltas em seus textos.

É muito evidente, e uma leitura atenta pode comprovar bem isso, que as visões de Pedro Sanches divergem violentamente de verdadeiros articulistas de esquerda como Rodrigo Vianna e Emir Sader. Não são as divergências eventuais de pessoas unidas numa mesma causa, ou fruto de alguma independência editorial, que são coisas saudáveis numa democracia, mas visões antagônicas até mesmo à linha mais geral de qualquer mídia esquerdista.

Isso porque Pedro Alexandre Sanches escreve rigorosamente a mesma visão que lemos no Segundo Caderno de O Globo, nas programações da Rede Globo, na Ilustrada da Folha de São Paulo. É ler os artigos dele em todas as palavras, para comprovar isso de forma contundente.

Mas até Pedro Sanches, movido pelos imprevistos, passar a comprar briga com Emir Sader - que será injustamente rotulado de "direitista" por condenar o "deus mercado" que tanto "moderniza" o entretenimento brasileiro - ou com Rodrigo Vianna, que já contestou o padrão de "cultura popular" vigente na era FHC, o colonista-paçoca continua sendo visto como um "deus" pela intelectualidade influente.

Afinal, não será a "ditabranda" do mau gosto que irá trazer melhorias para o povo pobre nem irá impulsionar o povo para a nova classe média. Aliás, a nova classe média passa a rejeitar o brega-popularesco até mesmo nos ídolos que passaram a fazer "MPB de mentirinha" (como breganejos, sambregas e axézeiros veteranos).

Uma visão de cultura popular que atende aos interesses dos barões do entretenimento, do latifúndio e do neoliberalismo midiático não pode ser considerada "de esquerda". Nem por óticas mais flexíveis. É a direita cultural nua e crua, mas diluída no copo d'água das abordagens "digestíveis".

Mas certas pessoas acreditam que "somos contraditórios". Dizem que seguem Emir Sader, mas seguem Ali Kamel. E choram quando alguém fala que elas compactuam com a cultura de direita. Vá entender...

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