sexta-feira, 16 de setembro de 2011

AS BOBAGENS QUE USAM O YOUTUBE PARA O SUCESSO


NAIARA AZEVEDO - Mais uma "sensação" do YouTube que não deixará marca na História.

Por Alexandre Figueiredo

Cada país tem sua Rebecca Black que merece. O Brasil tem vários. A velha grande mídia - fala-se da velha grande imprensa - exalta cada "novidade" que, constituída de algum fenômeno musical patético, causa "sensação" na Internet, como "exclusividade" das chamadas redes sociais.

Que isso pudesse ser levado ao humor, tudo bem. Mas tudo isso é levado a sério, vendido como se fosse "vanguarda", "fenômeno underground", "mídia independente" e outras pretensões. E tudo isso agora chegando em primeira mão no YouTube, para dar a impressão de que agora a "grande mídia", em relação à música, supostamente "morreu".

Há 50 anos, houve um termo em moda que se chamava novelty songs. Apesar do termo ser traduzido, ao pé da letra, como "canções-novidade", a denominação é associada a tipos de canção marcados pelo seu aspecto propositalmente tolo e pela sua intenção de fazer humor. Eram músicas descartáveis, feitas para se dar risada, não necessariamente para serem ouvidas e apreciadas melodicamente.

Um exemplo disso foi a canção "Itsy Bitsy Teenie Weenie Yellow Polka Dot Bikini", sucesso de Brian Hyland de 1960, um sucesso do chamado "rock comportadinho" da época que os brasileiros conhecem na gravação do ídolo juvenil Ronnie Cord (1943-1986), que gravou a canção na sua letra original em 1960, e depois, em 1961, lançou a versão intitulada "Biquíni de Bolinha Amarelinha" com letra em português de seu pai, Hervé Cordovil.

Que as paradas de sucesso tiveram suas bobagens em todo o mundo e todos os tempos, isso é verdade. O que não é ruim. Afinal, são bobagens que, feito chiclete de bola, servem para o deleite humorístico de suas temporadas, e depois somem sem deixar muito rastro.

O problema é que, no Brasil, ficamos proibidos ou, pelo menos, desaconselhados a rir de certas bobagens musicais. Como se os dramas pessoais de certos ídolos fossem desculpa para levá-los a sérios demais. E como se nunca houvesse na História da humanidade algum palhaço de circo que não tenha algum drama pessoal oculto, e muitos palhaços de circo são, na verdade, pessoas muito tristes e sofridas, enfrentando até tragédias pessoais.

O brega-popularesco hoje é levado a sério demais. É até curioso que um artista menor da MPB, como Biafra, agora se diverte muito com sua fama de "chato", enquanto a mediocridade musical de bregas e neo-bregas produz seus "coitadinhos" (Waldick Soriano, Tati Quebra-Barraco, Zezé Di Camargo & Luciano e agora Leandro Lehart), levados a sério até o extremo dos extremos.

E isso inclui até mesmo a divulgação na mídia. Depois que a Banda Calypso começou a fazer sucesso em todo o país com discos pseudo-independentes - a "pequena" gravadora que lançou seus discos não difere, em mentalidade, de uma BMG ou WEA da vida - , agora os chamados "sucessos do povão" tentam uma roupagem pseudo-alternativa usando as redes sociais como ponto de partida para suas carreiras.

Em outras palavras, para dar a impressão de que tais "sucessos populares" são frutos de uma mídia "alternativa" e "independente", seus ídolos agora lançam suas músicas primeiro no YouTube, até mesmo antes de lançar qualquer disco.

Foi assim com Stefany Absoluta, usando (levianamente) uma bela canção de Vanessa Carlton para falar de um carro da Volkswagen. Depois veio o DJ Reginho usando uma antiga canção infanto-evangélica para, com letra alterada, falar de coisas que a "mulher dele não deixa, não". Havia também a dupla de "sertanejo universitário" Ana Elisa e Mariana cantando uma letra sobre o Google.

Agora é o caso de uma cantora do mesmo infame "sertanejo universitário" - estilo cuja denominação tem sentido nulo, porque é o mesmo breganejo reciclado com a mentalidade "emo" - , Naiara Azevedo, que em resposta a uma música do igualmente sofrível grupo "Os Avassaladores", intitulada "Sou F...", escreveu a canção "Coitado", dentro daqueles clichês da mulher "mal amada" que dispara sua revolta contra os homens. Atitude que só é "feminista" dentro da "urubologia" pseudo-esquerdista de Bia Abramo, Roberto Albergaria etc.

Lá no exterior tivemos a adolescente Rebecca Black fazendo um pop dançante datado - daquela linha do pop teen do final dos anos 80 - e letra tola chamada "Friday", composta por seus produtores, e que foi considerada uma das piores músicas da temporada. As críticas a Rebecca Black foram tantas que ela até ficou assustada com isso.

Lá Rebecca Black é assumidamente um nome comercial, pouco expressivo, musicalmente superficial, parecendo Britney Spears no começo da carreira. E o que faz o discurso intelectual oficial em relação a esses fenômenos brasileiros?

Mas aqui o "novo ídolo", por mais cômico que pareça ser, é sempre visto como um "corajoso", um "guerreiro". Falam que fulano fez sucesso no YouTube por causa de tal baixaria como se esse fulano tivesse feito a Revolução Cubana na web.

No Brasil que hoje vive o auge do politicamente correto e do modismo trash, por causa de ambos somos obrigados a levar qualquer bobagem a sério, "rindo" apenas dentro dos limites da "seriedade" que o ídolo representa para a música. Mas nada de rir como se gracejasse do ridículo. Senão "vira preconceito".

Para todo o efeito, MC Créu e Tom Jobim possuem o "mesmo valor". Só que de uma forma "diferente" entre um e outro. Esqueçamos discussões estéticas, tudo o que foi escrito até agora sobre o assunto é "desprezível". Esqueçamos para não atrapalhar o sucesso, as plateias lotadas, os discos vendidos, as revistas, a TV aberta e as rádios FM que se alimentam desse sucesso.

Só que a grande questão que se pergunta é essa: quem é que lança esses ídolos popularescos no YouTube? O YouTube é um portal de vídeos que qualquer um pode entrar. Só que isso nos faz a pensar.

Afinal, só porque qualquer moleque pode colocar um vídeo no YouTube, não significa que necessariamente todo aquele que põe vídeo no portal é esse moleque caseiro. Até o Instituto Millenium tem canal no YouTube. Qualquer um pode entrar, mas também os ricos e poderosos podem entrar.

Isso significa que esses ídolos popularescos lançam vídeos no YouTube porque as empresas que os lançam possuem canais próprios no portal. Para elas é mais eficaz, no sentido publicitário, que seus ídolos sejam primeiro conhecidos no YouTube, mais daí para dizer que Stefany Absoluta e DJ Reginho são indie e alternativos é uma grande incoerência.

Como foi a incoerência absurda de um jornalista de Superinteressante de dizer que a Banda Calypso "sempre foi independente". Ora, a ver como é o jornalismo dos Civita, expresso pela revista Veja, dá para perceber o quanto esse jornalista (não) entende de cultura alternativa ou independente.

A grande mídia se recicla. Os calunistas e urubólogos também estão na blogosfera e no Twitter. A direita cria novas trincheiras. A direita cultural não fica atrás, e capricha nas camuflagens "esquerdistas". Mas há ainda muitos incautos no nosso país que acreditam nas armadilhas, impressionadas com o queijo cheddar que está na ratoeira.

Mais bobos do que as bobagens que "causam polêmica" no YouTube, só mesmo aqueles que levam tudo isso a sério demais.

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