domingo, 25 de setembro de 2011

ARTUR XEXÉO E A "CENSURA À IMPRENSA"



Por Alexandre Figueiredo

No artigo de hoje na Revista do Globo - suplemento dominical do jornal O Globo - , o colunista Artur Xexéo, enumerando vários eufemismos no texto intitulado Discursos, disse que o termo "regulação da mídia" era um eufemismo para "censura à imprensa".

Embora o texto pareça correto, esclarecendo a diferença de sentido entre expressões como "corrupção" e "malfeito", Xexéo, como poderia se esperar de quem segue as normas da casa (as Organizações Globo), vai na tradicional associação que a velha grande mídia faz de regulação dos meios de comunicação com "censura".

Evidentemente Xexéo desconhece, ou então repudia mesmo, os princípios de regulação da mídia claramente analisados e definidos por pessoas como Emir Sader, Fábio Konder Comparato e Venício Artur de Lima.

A regulação da mídia é um grande processo transformador da Comunicação Social de nosso país, e, como mexe em privilégios "seculares" dos barões da grande mídia, é visto então sob o pretexto da "censura à imprensa".

Portanto, o que Xexéo não disse é que "censura à imprensa", sim, é que é o eufemismo que os barões midiáticos usam para definir a regulação da mídia que vai contra os seus interesses.

E o que significa mesmo a regulação dos meios de comunicação?

Significa um processo muito complexo, mas por isso mesmo muito rico, de restrição dos abusos e deslizes cometidos constantemente pelos meios de comunicação. Abusos e deslizes que vão contra a ética jornalística, ao desenvolvimento da cidadania ou simplesmente na transmissão honesta e digna de valores sócio-culturais, de informação e de cidadania.

Seria preciso livros para detalhar o processo, mas Venício A. de Lima contribui com livros, palestras e artigos, respaldado por outros teóricos, como os citados Sader e Comparato, além de outros que se empenhem em dar sua contribuição à rica análise do processo de regulação da mídia.

A direita é que tenta impedir o processo, não apenas a direitona explícita da velha grande mídia como mesmo os "dissidentes" que romperam formalmente com esta mídia, mas não com seus princípios e ideais.

Pois sabemos que a mídia peca sobretudo pelo jornalismo mal-humorado e medíocre de gente como Otávio Frias Filho, Diogo Mainardi, Reinaldo Azevedo, Eliane Cantanhede e mesmo o "imortal" Merval Pereira. Um jornalismo que mais parece agir contra o cidadão, com pontos de vista cada vez mais identificados com o capitalismo privatista e excludente.

Mas existe o outro lado, das baixarias do entretenimento, das grosserias feitas em nome dos interesses financeiros. Esses valores, defendidos por uma direita cultural que se camufla na mídia esquerdista e aparece até nas festas de dez anos da revista Fórum, também estão em xeque diante da necessidade de uma verdadeira regulação na mídia.

A centro-direita cultural, querendo diferir seu discurso ao de "calunistas" e "urubólogas", apenas finge que defende a regulação da grande mídia. Com justificativas caricatas de tão previsíveis - a impressão que se tem é que eles "repudiam" a grande mídia só para agradar - , eles sonham que a regulação da grande mídia converta nossos meios de comunicação numa mídia esquizofrênica que só expurgue comentaristas políticos mal-humorados e apenas o extremo das abordagens reacionárias.

Mas a centro-direita cultural nem de longe quer que a verdadeira cidadania brilhe nos meios de comunicação. Está imersa nas moitas diversas do fisiologismo partidário ou em outros pretextos, como o simples fato da esposa e os vizinhos de um centro-direitista serem identificados com a esquerda.

O direitismo cultural camuflado nas esquerdas quer uma mídia esquizofrênica porque sua intelectualidade, sendo de classe média alta, está empenhada com o domínio paternalista das classes populares, impedindo-as de se emanciparem através da distração vulgar do entretenimento popularesco.

Por isso quer apenas o expurgo de jornalistas mal-humorados e de comediantes ranzinzas. Mas sonha, por exemplo, com um jornalismo esquizofrênico que misturasse notícias educativas com notícias "mundo cão", que misturasse cidadania com baixaria, que misturasse movimentos sociais autênticos com frivolidades brega-popularescas.

Mas a regulação da mídia não tem por propósito juntar notícias de projetos em prol da educação pública com outras sobre "bailes funk". Também não tem por propósito juntar fofocas de famosos (ou mesmo de nulidades "famosas" como os ex-BBB) a outras que falam de cidadania e qualidade de vida.

Até porque, em determinado caminho, os valores da vulgaridade popularesca entrarão sempre em choque com outros que se relacionam à cidadania, à qualidade de vida e aos valores sócio-culturais edificantes. É bom deixar o politicamente correto de lado e parar de cobrir o lixo cultural com o verniz da "liberdade de expressão".

Por isso, a regulação da mídia ameaça não só "calunistas", mas bregas e neo-bregas em geral. E não ameaça só as "urubólogas", mas também popozudas e paniquetes. A defesa da verdadeira cidadania não deve se limitar à suposta superioridade intelectual das classes médias abastadas, que veem as periferias pelo binóculo eletrônico da televisão.

O entretenimento brega-popularesco também está relacionado com os interesses financeiros que ignoram princípios de cidadania e qualidade de vida. Ignoram identidades sócio-culturais, valores morais, interesses públicos, tudo em nome do dinheiro.

E seus ideólogos da cultura de direita, num discurso envolvente, acham que esse mercantilismo "cultural" é "saudável", usando argumentações confusamente "pós-modernas" que seduzem boa parte da intelectualidade de esquerda pelo seu caráter "cientificamente" sentimentalóide.

A defesa da cidadania vai muito longe. E a regulação da mídia representa liberdade, sim, mas a verdadeira liberdade requer responsabilidades sociais, para que os abusos de uns não entrem em choque com os direitos sociais de outros.

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