domingo, 14 de agosto de 2011

TROCANDO SEIS POR MEIA-DÚZIA



Por Alexandre Figueiredo

Já se falou da incoerência de certos críticos em criticarem o excesso de pompa que se vê nos chamados medalhões da MPB, acusando-a de elitista, pomposa etc. E ainda falam mal diante de nossas críticas aos ditos ídolos "populares", achando que nós estamos idealizando uma "cultura popular" aos moldes elitistas da MPB.

Essa incoerência se dá porque, primeiro, esses críticos falam mal da chamada "MPB burguesa", mas caem de amores quando os ditos ídolos "populares" - como os cantores do chamado "pagode romântico" e do "sertanejo" - ganham um banho de loja, de técnica, de tecnologia e marketing. Em outras palavras, trocam o seis em fonte gráfica por um meia-dúzia escrito à caneta.

Há um caso ilustrativo é o novo CD-DVD da dupla "sertaneja" Chitãozinho & Xororó, um dos nomes da Música de Cabresto Brasileira que vieram daquela safra de 1989-1991. São até mais antigos do que isso, mas foi em 1989, junto a Fernando Collor de Mello, que se consagraram junto a Leandro & Leonardo, Katinguelê, Só Pra Contrariar (de Alexandre Pires, um dos dez intérpretes brasileiros que somos proibidos de fazer críticas, por conta de um AI-5 embutido em seus fãs-clubes), Zezé Di Camargo & Luciano, DJ Marlboro, Latino, Chiclete Com Banana, Mastruz Com Leite e outros símbolos da farra collorida que marcou até nossas poupanças.

Pois a dupla paranaense lançou o CD-DVD comemorativo de 40 anos de carreira, sempre naquela linha da "música paralisada brasileira" de muitos discos ao vivo consecutivamente lançados.

Para sentir o tom do apoio midiático a essa "cultura popular", o Estadão definiu como "bom gosto" o espetáculo de pompa e luxo exibido pela dupla "sertaneja" e seus convidados.

E o que se vê nesse produto que os ideólogos do brega-popularesco associaria a uma "forma sofisticada da cultura das periferias"?

Simplesmente se vê as mesmas regras da "MPB burguesa" que os mesmos ideólogos tanto criticam da MPB autêntica. O mesmo luxo, a mesma pompa, até de forma mais exagerada, porque é de praxe na chamada "cultura" brega a desmedida das coisas.

De que adianta trocarmos um Tom Jobim, João Bosco (o mineiro e original), Chico Buarque, Djavan e Elis Regina por um bando de breganejos, sambregas e axézeiros que, no grosso, seguem as mesmas regras de pompa, etiqueta e formalismo, até de forma piorada e, por incrível que pareça, com menos humildade que os "burgueses da MPBzona".

Ou seja, mudam-se os jogadores, mas mantém-se as mesmas regras do jogo. O "jogo" da "MPB burguesa" não muda e os jogadores são até piores.

Sim, porque os ídolos brega-popularescos, a julgar do fanatismo de seus fãs - que, agressivos, chegam a despejar palavrões contra quem criticar seus ídolos, por mais educadas que estas sejam - , estão muito longe de representar qualquer humildade, por mais que estejam associados a uma já distante e superada origem humilde.

Pois em muitos casos, esses ídolos "sertanejos" e "pagodeiros românticos" são até mais ricos do que muito "burguês da MPB". Nem Francis Hime chega a ser tão rico quanto DJ Marlboro e Bell Marques. Diante de uma Ivete Sangalo, a ministra Ana de Hollanda é "pobre de marré de si".

E, musicalmente, esses ídolos mostram o mesmo mito de que, para "fazer MPB", tem que ser rico. No começo da carreira, faz-se tudo que for de breguice, para depois "lapidar o som" e a "estética". O que mostra que o simples fato de trocar os "burgueses" da MPB pelos neo-bregas "promovidos à nova 'MPB do povo'" praticamente nada muda em relação aos defeitos atribuídos à MPB dita "elitista".

Daí a grande hipocrisia que é esse maniqueísmo entre a "MPB burguesa" e o brega-popularesco. Substituir aquele por este não adianta muito, não acrescenta coisa alguma à cultura brasileira. Só traz o repertório das Nativa FM da vida para os salões e mansões, para as faculdades e hotéis cinco-estrelas, para a exposição oportunista dos ídolos "populares" diante de públicos mais abastados. Mas é o mesmo mercado, a mesma pompa, o mesmo caráter autorreverencial.

Os brega-popularescos, neste caso, apenas se tornam mais aristocráticos. Acabam legitimando a "MPB burguesa" que os intelectuais criticam. Substituem apenas um problema por outro problema. Só isso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...