terça-feira, 16 de agosto de 2011

RÁDIO GUAÍBA: DA LEGALIDADE À CORRUPÇÃO "LEGAL"


RÁDIO GUAÍBA AM, QUE EM 1961 INICIOU A REDE DA LEGALIDADE PELA POSSE DE JANGO, AGORA INVESTE EM PAPAGAIO ELETRÔNICO.

Por Alexandre Figueiredo

O lamentável fenômeno da dupla transmissão AM/FM - estimulada pelo pretexto de que os telefones celulares não sintonizam rádio AM - , fonte de superfaturamento dos grandes grupos de mídia do país, inclusive regionais, ganhou adesão de mais uma rádio de Porto Alegre, a Rádio Guaíba, do grupo Caldas Júnior, que implantou seu "papagaio eletrônico" em FM.

"Papagaio eletrônico" é a emissora FM que repete a programação de AM. A FM não tem perfil próprio, não tem identidade própria, apenas repete o que a AM produz. O rádio FM "não fala", só emite o que a AM diz, como mera repetição.

Isso só serve para dobrar as finanças dos grupos de radiodifusão, que na dupla transmissão fazem um só trabalho mas recebem o dobro do valor financeiro, porque as duas rádios continuam tendo registros jurídicos diferentes.

CORRUPÇÃO CONSENTIDA

É um dos maiores casos de corrupção no rádio brasileiro, mas altamente estimulados até por radiófilos. Sob o pretexto da "sintonia diversificada", com propagandas cínicas como indica esta foto - sempre falando em "múltipla sintonia", "direito de escolha" e outras bobagens - , a dupla transmissão AM/FM é defendida nos bastidores radiofônicos como uma nova forma de jabaculê, porque com o superfaturamento das emissoras, há esperança de haver aumento salarial "de fora".

No Rio Grande do Sul, a Rádio Gaúcha havia antes investido na dupla transmissão. Mas o "Aemão de FM" existe até mesmo na Band News FM, que tem sua filial gaúcha, entre outras emissoras locais. Mas se até a Pop Rock FM transmite futebol...

A Rádio Guaíba pode nunca ter sido uma rádio vanguardista ou progressista por excelência. Mas chegou perto disso quando um parente dos donos da emissora, trabalhando em 1961 no governo do Rio Grande do Sul - cujo titular era o nosso conhecido Leonel Brizola - , pediu para a rádio montar um estúdio no Palácio Piratini, sede do governo gaúcho, para Leonel comandar a Rede da Legalidade.

A história se deu porque, em 25 de agosto de 1961, Jânio Quadros, então presidente do Brasil, renunciou ao mandato depois de assistir, em Brasília, ao desfile do Dia do Soldado. O episódio criou uma crise sem precedentes e os três ministros militares, Odílio Denys, Grun Moss e Sílvio Heck, se opuseram furiosamente à tese da posse de Jango. Ameaçavam prender o vice de Jânio e até mesmo a promover ataques militares contra quem ousasse enfrentá-los para garantir a posse do vice.

João Goulart era hostilizado pelo seu vínculo com o trabalhismo e sua simpatia com os movimentos sociais, inclusive de esquerda. Político alinhado na centro-esquerda, Jango era hostilizado pela direita desde que dobrou o salário mínimo em 1953, quando era ministro do Trabalho de Vargas.

Leonel Brizola, casado com a irmã de Jango, Neuza Goulart, era famoso por seus acalorados pronunciamentos nos seus programas de rádio, como prefeito de Porto Alegre e depois governador gaúcho. Também mal-visto pela direita a partir da encampação da subsidiária da norte-americana Bond And Share, em 1959, Brizola, depois que fez seus pronunciamentos nas rádios Gaúcha e Farroupilha, viu as duas rádios serem lacradas por ordem do Ministério da Guerra de Odílio Denys.

A opção da Rádio Guaíba foi improvisada, por ser a melhor rádio disponível para a Campanha da Legalidade. Isso apesar do grupo Caldas Júnior fazer oposição ao governador. Mas as negociações do funcionário do governo gaúcho com seus parentes na emissora garantiram a realização da transmissão, que depois ganhou a adesão da Gaúcha e Farroupilha, depois de liberadas para transmissão, e outras emissoras. No Rio de Janeiro, a Rádio Mayrink Veiga foi uma das que representaram a Rede da Legalidade.

Eram outros tempos e o radialismo era movido pelo idealismo e por um profissionalismo dotado de espontaneidade e criatividade. Nada que os tempos de pragmatismo e de um profissionalismo burocrático do radialismo atual pode se comparar, apesar das tentativas dos colunistas de rádio atuais. Mas hoje qualquer coluna de rádio mais parece uma Caras do setor, mais preocupada em promover estrelas do que em relatar valores.

Por trás do "sonho maravilhoso" da dupla transmissão AM/FM - definida pelo eufemismo "positivo" de "rádios AM + FM" - , existem demissões de profissionais, que recorrem a processos trabalhistas que duram meses e até anos, além da mesmice cada vez maior da programação radiofônica, que praticamente fez extinguir a segmentação dos anos 80, que fazia AMs e FMs conviverem harmonicamente sem que, salvo raras exceções, uma interfira nos nichos de outra.

BAIXA AUDIÊNCIA - Embora haja muitos confetes e serpentinas em torno das rádios "AM + FM", e de seu mito de "emissoras de perfil popular", a audiência das mesmas declina seriamente a cada ano.

Além disso, o preço da Frequência Modulada querer ser o "rádio AM do século XXI" só a faz viver uma forma mais acelerada da crise que atinge a Amplitude Modulada no mundo.

Rádios all news hoje são reduzidas a versões extended mix do antigo "gilette press" (gíria irônica para os noticiários frios das antigas rádios, limitados ao recorte de notas de jornais, revistas e releases), diante do dinamismo da Internet e das imagens da TV paga. Mesmo a blogosfera possui um teor de informação opinativa bem mais abrangente e menos tendencioso do que os transmitidos pelas rádios noticiosas.

Os programas de variedades, antes de índices extremos de audiência, sucumbem a sintonias cada vez mais raras, embora mais ostensivas. O mesmo com as transmissões esportivas que, em FM, não vão muito além da poluição sonora de uns poucos ouvintes.

O fenômeno da dupla transmissão AM/FM mancha a história do rádio brasileiro que, às vésperas da comemoração dos 100 anos - em 2019, devido à Rádio Clube de Recife, ou 2023, como define a história oficial - , não precisava dessa frescura toda. Pelo contrário, a fome de concorrência desleal e predatória da Frequência Modulada para cima do rádio AM só faz o rádio ficar cada vez mais entediante.

Não por acaso, vamos para as ruas e vemos que as pessoas têm muito mais o que fazer do que sintonizar emissoras cada vez maçantes e previsíveis. Por sorte, em 1961 os tempos eram outros. Brizola poderia usar o rádio para mobilizar o povo. Se fosse hoje, seria mais difícil.

Hoje, em que pese não devermos superestimar as redes sociais da Internet, o Twitter consegue mobilizar muito mais do que uma superbadalada rádio "AM + FM". O rádio brasileiro há muito deixou de sintonizar o ouvinte, tão isolado nos estúdios e escritórios.

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