sexta-feira, 5 de agosto de 2011

QUANDO A PSEUDO-CULTURA "POPULAR" SE SERVE DE UM BOM EMPRESARIADO



Por Alexandre Figueiredo

A pseudo-cultura "popular" prevalece como fenômeno dominante no establishment midiático porque conta com um bom empresariado. Milhões de reais são investidos na promoção de seus ídolos e valores, uma fortuna imensa que contradiz duramente o caráter de "inocente cultura das periferias".

Juntando a facilidade com que se reabilitam fenômenos desgastados e personalidades ocas com a irritabilidade com que adeptos dessa pseudo-cultura reagem contra quem ousar contestá-la, isso prova o quanto essa "cultura das periferias" que inclui funqueiros, forrozeiros-bregas, sambregas, breganejos, popozudas, BBB's, jornalistas-brucutus e tudo o mais é, na verdade, um perverso mercado de manipulação e deturpação de valores reservados para as classes populares.

Afinal, ninguém se irritaria com uma crítica aos ídolos brega-popularescos em nome de uma "paz mundial" ou por "valores elevados". Se alguém se irrita por ver, por exemplo, aquele cantor de "pagode romântico" ser contestado num blogue, ou então uma mulher-fruta, é porque tais críticas podem representar um prejuízo financeiro iminente.

Toda aquela campanha de promover esses ídolos "populares", em pleno auge do sucesso comercial, como pretensas "vítimas de preconceito", foi um grande golpe de marketing - o marketing da exclusão ou da rejeição - que tentava inverter a ideia de sucesso conquistado a um suposto e irreal fracasso.

Mas isso pressupõe uma arrogância: não basta mais o ídolo popularesco conquistar as plateias das classes D e E, ele quer mais, quer um sucesso totalitário, que nem de longe é do (des)mérito de sua mediocridade cultural.

Nos últimos dias, três fatores chamam a atenção para dar conta do quanto fortunas são investidas para fazer prevalecer o brega-popularesco diante do risco de desgaste de seus fenômenos:

1) A "reabilitação" de esquecidos grupos de "pagode romântico" (sambrega), que não conseguiram o sucesso "sustentável" de cantores e grupos ao longo das décadas. Os grupos esquecidos dessa geração dos anos 90 são agora reembalados sob o rótulo de "revival do pagode dos anos 90", forjando uma inexistente imagem cult que só existe na imaginação da grande mídia que promove esses ídolos que, certa vez, foram paparicados pelo falecido guitarrista dos Titãs, Marcelo Fromer.

2) A debandada do forró-brega, que sofre um violento desgaste no Norte e Nordeste brasileiros, para o Sul e Sudeste, sendo empurrado goela abaixo para cidades como Rio de Janeiro, Niterói, Belo Horizonte e Florianópolis, "novos" mercados feitos para compensar aqueles que se desgastam. Algo que a axé-music tentou nos "áureos tempos" da Era FHC.

3) A súbita reaparição, em portais de notícias como Terra Diversão, dos ex-integrantes do Big Brother Brasil ameaçados de ostracismo. De repente, vários "astros" das diversas edições do reality show reapareceram em diversas festinhas e eventos, sempre mostrando a que vieram, ou seja, sem qualquer motivo importante. Ate O Globo tentou relembrar dessa turma "que só quer aparecer".

Investe-se no descartável, no supérfluo, no fútil e no piegas com todos os recursos financeiros disponíveis. Paga-se muito dinheiro, e, se preciso, os empresários do entretenimento financiam até projetos de pós-graduação de cientistas sociais que são usados para legitimar o circo mercantil do entretenimento popularesco.

Daí que historiadores, antropólogos, sociólogos e até críticos musicais em todo o país - os críticos, no caso deles escreverem livros - criam teses muitas vezes delirantes, cheias de referenciais confusos e irreais, para justificar fenômenos popularescos que variam do caso individualizado do grupo É O Tchan ao fenômeno coletivo do tecnobrega, passando por antigos ídolos cafonas, pelo "funk carioca" e pela axé-music e pelo breganejo. Talvez os próximos sejam o sambrega e o forró-brega.

Todas essas monografias ou ensaios "científicos" - que, muitas vezes, chegam a descumprir normas acadêmicas científicas mais do que muito projeto de pós-graduação rejeitado na primeira avaliação - chegam a ser risíveis e fantasiosos, mas, tocando no sentimentalismo de uma classe média carente de alguma motivação paternalista, seus autores viram "deuses absolutos", totens cuja reputação só algum outro com visibilidade igual a um Hermano Vianna da vida conseguirá abalar.

Mas eles apenas são parte do milionário mercado do brega-popularesco. Mas, se até regimes fascistas precisam da ciência para legitimar sua praxe dominadora, a pseudo-cultura "popular" também. O pretexto "científico" é uma forma de dar uma base sólida para o prosseguimento de um mercado poderoso, dando a impressão de que a intelectualidade também apoia esse "livre-mercado" populista.

Por outro lado, vemos que até mesmo o portal Ego, braço "descolado" das Organizações Globo, tem até uma sessão sobre que fim levou determinados ídolos popularescos. Uma forma fácil de reciclar a mediocridade cultural de ontem, como se fosse uma suposta relíquia cult.

ESTRATÉGIA ORGANIZACIONAL - A cada dia se prova que essa "cultura popular" não é mais do que um engodo mercadológico movido pelo tendenciosismo da técnica, da tecnologia e do marketing.

Seus ídolos não se "aperfeiçoam" porque querem ou porque naturalmente são induzidos a isso, mas devido a demandas de mercado ou mesmo às críticas recebidas. Ídolos no auge da carreira e do sucesso chegam a fazer trainée para parecer "mais sofisticados" do que eram há cinco anos atrás, quando apenas simbolizavam a vulgaridade e a cafonice mais constrangedoras.

E tudo isso é feito para colocá-los acima das épocas, das tribos, das ideologias. Não sendo atemporais, os ídolos brega-popularescos se julgam na arrogância de estarem acima de suas épocas. Não sendo universais, eles se acham no direito de estarem acima de seus espaços e seus públicos.

Empurra-se esses ídolos e suas referências até mesmo para plateias universitárias, numa negociação tratada a conchavos político-financeiros a sindicatos de trabalhadores e grêmios ou diretórios estudantis, tentando cooptar operários e estudantes para o consumo passivo de festas "trabalhistas" e "choppadas" estudantis.

Não há ética. A intelectualidade até avisou que não há estética. Não há qualquer referência. Empurra-se qualquer tendência popularesca para o público que for, com o único objetivo de criar novas e cada vez maiores reservas de mercado. É o que aconteceu com o forró-brega nordestino, que criou um mercado totalitário que, no entanto, foi longe demais.

Cria-se até mesmo uma falsa imagem de "excluídos" para que ritmos que já estejam no mainstream radiofônico regional invadam plateias mais seletas sob o pretexto de que os ídolos dos grandes sucessos radiofônicos são "vítimas de preconceitos", numa clara imagem falsificada de coitadinho para iludir a opinião pública.

Mas agora os pobres dos catarinenses, mineiros, niteroienses etc são obrigados a "conhecer" as "maravilhas" da poluição sonora das festas de forró-brega, nas altas horas de sextas, sábados, domingos e feriados, isso quando não medem escrúpulos para fazer tais festas nos dias úteis.

Ao menor risco de ostracismo, dá-se a fácil "reabilitação". Os ídolos popularescos, dos músicos bregas e neo-bregas aos "astros" de reality shows, mal conseguem sumir por um mês e no seguinte já "reaparecem triunfantes", como num cínico revival de ídolos que nem sequer saíram de cena, mas mostram seu caráter supérfluo na TV aberta, nas rádios FM e nas mídias de celebridades que os cultuam e endeusam.

No fundo, o que está por trás disso é o empresariado que investe neles. São eles os donos do que muitos ainda entendem como "cultura popular". Gente muito rica que contrasta violentamente com a falsa imagem de "cultura das periferias". Mas que está ligada à grande mídia, nacional e regional, que não pode ser camuflada sob o cínico eufemismo das "pequenas mídias das periferias".

Portanto, vê-se que o povo pobre torna-se, no entretenimento, refém de elites que controlam grandes companhias, grandes empresas de entretenimento, corporações midiáticas nacionais e regionais, entre outros mega empreendimentos.

Não é, portanto, um bando de "gente humilde" investindo em cultura nem um bando de financiadores "casuais" ou "acidentais". Mas pessoas que, ricas e poderosas, têm o objetivo de manter as classes populares domesticadas, sempre fazendo o papel de bobos-da-corte da classe média deslumbrada, que pode enfim esconder seus verdadeiros preconceitos num paternalismo cordial e "progressista".

4 comentários:

  1. Alexandre,
    Eu seu que você deve receber centenas de ofensa pelas coisas que você escreve aqui e no Kylocyclo. Diante disso, por que você não expõe elas aqui? Seria muito divertido ver esta galera que curte Música de Cabresto Brasileira se descabelando por conta de suas críticas. Ver exposta aqui. Você poderia criar uma postagem só com estas ofensas que você recebe, para mostrar o quanto estas informações de excelente qualidade e utilidade publica incomoda e o rebuliço que causa. Posso dizer que graças a estas informações, eu pude entender o porquê a cultura em nosso pais vinha piorando, coisa que até então eu não entendia. A partir daí me tornei seu fã e de seu irmão. ABS!

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  2. Posso dizer que aprendi muito contigo!

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  3. De certa forma, Leonardo, eu falo desses ataques que eu recebo nestes meus dois blogues. Sobretudo de um outrora amigo nosso, que deu de mandar comentários ofensivos na lista de comentários de O Kylocyclo. Não vou dizer o nome dele, você sabe bem, mas esse vira-casaca até me mandou "tomar no..." ou ir "para a m...".

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  4. Aquilo me deixou perplexo.A que ponto ele chegou.

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