quinta-feira, 18 de agosto de 2011

QUANDO O BREGA-POPULARESCO COSPE NO PRATO EM QUE COMEU


LEANDRO LEHART, DO ART POPULAR, UM DOS NOMES DO "PAGODE MAURICINHO" DOS ANOS 90.

Por Alexandre Figueiredo

Está certo que ninguém nasce sabendo, mas na música brasileira o que se vê é infelizmente a postura de muitos ídolos mudar tardiamente, quando sua mediocridade artística ja rendeu muito dinheiro, plateias lotadas e muita visibilidade na mídia.

Nos últimos anos, o que vemos de ídolos que, "arrependidos" ou não, só na última hora renegam seus primeiros sucessos - que durante muito tempo eram como que seus cartões de visita em suas carreiras - é de impressionar.

São ídolos da axé-music que desejariam não ter gravado metade dos seus primeiros sucessos. Ou a dupla Zezé Di Camargo & Luciano que "só agora" não quer ser conhecida pelo sucesso "É o Amor". Ou o "sertanejo" Leonardo, dizendo que os primeiros discos que gravou com o falecido irmão Leandro "não tinham qualidade".

Isso sem falar de muitos ídolos neo-bregas dos anos 90 que só "descobriram" a MPB nos últimos dez anos. Todo mundo agora é "mais maduro", "mais exigente" e tudo o mais. Por que não foram assim desde o começo?

A sensação que se tem é que esses ídolos cospiram nos pratos em que comeram. É muito fácil mudar de posturas para fugir do juízo do tempo. É como vemos no caso de muitos pseudo-esquerdistas, que em 1964 achavam que os verbetes "Fidel Castro" e "Che Guevara" eram palavrões e que desejariam ver Jango derrubado do poder na marra. Hoje se dizem "simpáticos" com o socialismo e acham Fidel e Che "pessoas admiráveis".

Mas a memória curta nos impede de reconhecermos a probabilidade de um Eugênio Raggi ou Luciano Huck estarem nas passeatas Deus e Liberdade chamando João Goulart de desordeiro. Mas hoje qualquer um se diz "esquerdista", falando em "marxismo de mercado", "guevarismo pop" ou "ateísmo cristão".

Na música brasileira, os mesmos ídolos que faziam um pseudo-samba aguado, mais parecendo uma soul music caricata com pandeiro e cavaquinho, agora "descobrirem" Jorge Ben Jor e Wilson Simonal. Ou os "sertanejos" que faziam country caricato com mariachis frouxos reivindicarem a "carteira de sócio" do Clube da Esquina. Ou as "divas" da axé-music embarcando em tudo quanto é tributo musical, da Bossa Nova ao rock de Brasília.

Todo mundo dizendo que seus primeiros sucessos "não eram grande coisa". Agora eles são "grandes artistas de MPB", mas nunca pensaram em sê-lo quando gravaram seus primeiros discos. Falta de oportunidade? Não.

Afinal, as rádios FM tocavam até muito mais MPB autêntica do que hoje, quando o pragmatismo transforma a Frequência Modulada num espaço onde predomina a tetraplegia radiofônica, salvo raras exceções. E, nos anos 80, musas como Luíza Brunet ou mulheres em geral como Ruth Escobar davam uma aula de natureza feminina para a qual as "musas populares" de hoje praticamente eram surdas e indiferentes.

Mas a "auto-crítica" não fica só na música. O que veremos de popozudas querendo ser "sofisticadas" será outro fato espantoso. E, assim como os neo-bregas de hoje "descobriram" Wilson Simonal, César Camargo Mariano e Baden Powell - talvez eles venham a "descobrir" Itamar Assumpção daqui a uns dez anos - , as popozudas talvez venham a "descobrir" Leila Diniz em breve.

O que está em jogo nisso tudo é a falta de respeito e de auto-estima que esses ídolos "populares" têm consigo mesmos. Ou então uma ingenuidade extrema para terem aceitado fazer atividades ou obras que hoje não teriam coragem de fazer.

Ninguém nasce sabendo, e muitos erram. Mas se alguém tivesse um pouco de percepção e auto-crítica, mesmo nos mais ingênuos primeiros momentos de carreira ninguém transformaria erros ou procedimentos equivocados em sucesso de mídia. Ninguém teria sido popular através do ridículo, do piegas, do tosco, do vulgar.

Está certo que em certos momentos temos que relativizar as coisas, mas não é o caso de ídolos ou musas que primeiro viviam felizes promovendo o espetáculo da mediocridade. O ídolo que gravou pseudo-sambas frouxos vai querer ser, na última hora, um "grande sambista"? Ou uma musa que posou de freira erótica vai celebrar, no futuro, a beleza de Audrey Hepburn?

Hoje há um sentimento de pânico dos ídolos brega-popularescos. Eles se comportam como se estivessem com algum ressentimento com o antigo sucesso. Mas não preveniram os excessos ou equívocos que cometeram. Hoje todos são "artistas de MPB", "musas feministas", mas por que ninguém pensou nisso antes, no começo de suas carreiras?

Da mesma forma que eles agora "valorizam" aquilo que desprezaram - como parte do "lado B" da MPB autêntica - , eles dizem que não fariam metade dos sucessos ou atividades que resultaram no seu estrondoso sucesso. Tentam ser auto-críticos, mas apenas se tornam ingratos consigo mesmos.

Temendo críticas, muda-se qualquer postura, como se nada tivesse acontecido. Como quem cospe no prato em que comeu, depois de se alegrar com o banquete, se lambuzar e se fartar. É como alguém que se diverte numa festa e, no final, diz que ela foi uma porcaria e xinga seu anfitrião.

Mas tais mudanças ocorrem mais pela força das reações de rejeição, que apavora os ídolos do passado recente, os anos 90, que a grande mídia até agora nunca quis reconhecer como passado. Pelo contrário, a década de 90 se prolonga e arrasta e, dependendo das circunstâncias, pode parecer um "passado glorioso" ou uma "novidade promissora".

Ou seja, já não se tem mais noção de presente, passado ou futuro. Os ídolos brega-popularescos apenas querem continuar na mídia. Seja posando de triunfantes ou de coitadinhos. Já não se tem mais medida das coisas. Não se tem auto-crítica. E ainda querem que o futuro da cultura popular brasileira seja sempre com esses mesmos ídolos.

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