segunda-feira, 8 de agosto de 2011

PRECONCEITOS INFELIZES DE UMA CLASSE "SEM PRECONCEITOS"



Por Alexandre Figueiredo

Muitas vezes, certos usos de palavras se tornam tão frequentes que sua utilização banalizada desperta desconfiança e pode revelar o oportunismo de certas pessoas que embarcam em determinadas causas sociais por puro modismo, não raro deturpando o sentido de tais palavras.

O uso banalizado da palavra "preconceito", por exemplo, está fazendo com que seu sentido antes associado às causas sociais nobres se diluísse para uma desculpa esfarrapada de medíocres querendo subir na vida sem esforço, ou de pessoas querendo manter seus privilégios obtidos sem mérito e de forma abusiva.

Chegou-se ao ponto do discurso de "vítimas de preconceito" ser adotado até mesmo por preconceituosos como o deputado Jair Bolsonaro, conhecido por suas opiniões anti-sociais.

Mas vemos uma classe média tida como "intelectualizada" mas que defende o status quo do entretenimento midiático, a pretexto de "não ter preconceitos" contra aquilo que orgulhosamente chamam de "mau gosto".

Deturpam o discurso sociológico em relação ao "outro", como se fossem os maiores arautos da inclusão social. Mas, no fundo, a visão "generosa" que tanto defendem, e que faz os intelectuais associados terem uma reputação quase inabalável diante da opinião pública, esconde preconceitos tão ou mais cruéis do que aqueles que dizem combater.

O POVO É "BOM" NAQUILO QUE TEM DE RUIM

Um dos maiores preconceitos que a classe média dita intelectualizada tem em relação às classes populares é quanto à cultura atribuída a estas.

Através de um discurso confuso, dúbio, falseado, esses "pensadores" e seus seguidores julgam que a qualidade do povo está na sua "inferioridade social". Tentam desconversar, dizendo que aquilo que nós entendemos como ignorância é "outro tipo de sabedoria", e que a mediocridade cultural estimulada pelo mercado seria "uma diferente forma de intuição cultural".

Maquiando as debilidades que o povo pobre sofre por consequência da baixa escolaridade, das baixas rendas e de uma mídia manipulativa que nada faz para promovê-los como cidadãos, essa classe média tenta um discurso benevolente, persuadindo o máximo possível para que achemos que seu paternalismo é "anti-paternalista", que seu elitismo é "anti-elitista", que seus preconceitos são "desprovidos de qualquer tipo de preconceito".

Essa demagogia ainda rende aplausos ruidosos, e há quem, infelizmente, se levanta para ovacionar essa classe enganosa.

Os membros dessa classe "esclarecida" ficam felizes quando o povo não tem opinião, mas pode rebolar até cair no chão. Que não podem se mobilizar para pedir a reforma agrária, mas pode ir ao galpão "mega show" para consumir os sucessos daquela rádio FM dita "popular".

É uma classe média que, já escrevi várias vezes, se comporta como o moleiro do conto O amigo dedicado (The Devoted Friend), de Oscar Wilde, com todas as suas caraterísticas. E, pior, essa classe ainda tem a coragem de se autoproclamar "de esquerda" e "voltada para os movimentos sociais".

Só que o discurso deles, de palavras tão "generosas", possuem sentidos ocultos que escondem crueldades. Urubólogas, neocons, pós-tucanos se escondem nessa "izkerda" pouco inclinada com a qualidade de vida para nosso povo.

Quando elogiam a "não-mediocridade" da "miséria feliz do bom povo pobre", na verdade querem que o povo continue grotesco, imbecilizado, domesticado, que seja ao mesmo tempo animalesco e infantilizado, porque assim não faz cobranças para a classe média que não quer aumentar o salário das empregadas domésticas mas puxa o saco do lixo cultural que elas consomem no rádio.

Tentam argumentar na apelação emotiva para dizer que são "solidários com as periferias". Mas no fundo sentem medo que o povo supere seu estágio de inferioridade sem a "orientação segura" do "deus mercado" e dos valores difundidos pela grande mídia golpista.

Não conseguem dizer por que são felizes vendo o povo pobre na sua miséria. "É algo deles, uma capacidade pop contemporânea de superar a pobreza, cantando sua miséria, expressando seu orgulho (sic)", é o que costumam dizer.

Muitos de seus intelectuais escrevem textos com esse enfoque, e viram "deuses" porque dizem que a miséria é linda, que o grotesco é o fino, que a cafonice é moderna etc.

Acham o máximo ver pobres idosos bêbados balbuciando asneiras, criam teses delirantes sobre isso que fazem suas plateias delirarem. Mas mal sabem, eles e suas plateias, que por trás daquele "espetáculo pop pós-moderno da periferia" os dramas que juntam miséria, alcoolismo, velhice e solidão fazem do idoso um ser debilitado, degradado, desgraçado, por conta de uma pobreza que nada tem de linda.

Os pobres têm seus dramas, suas tragédias, seus impasses. Mas a intelectualidade "sem preconceitos", esnobemente, cruza os braços e diz: "Que bom que o povo pobre é capaz de dar a volta por cima". Olha o moleiro do conto de Oscar Wilde.

A intelectualidade "sem preconceitos" fica feliz com a mediocridade cultural, com a miséria, com as baixarias, o grotesco, a cafonice, com o povo sendo manipulado pela mídia, e pela mídia especializada em manipular o povo pobre.

O povo pobre, reduzido, pela pressão da mídia e do mercado, a bobos-da-corte quase animalizados da classe média, é assim paparicado no discurso, enquanto é maltratado na prática, pelo desdém oculto dessa mesma gente "sem preconceitos".

A vida das classes pobres não muda. Mas o "espetáculo" deve continuar, para o bem do "deus mercado". O povo pobre faz seu espetáculo do ridículo, para divertir a classe média "sem preconceitos", feliz com a breguice dominante. Que vai render delirantes artigos, ensaios e monografias que transformarão os ideólogos desta pasmaceira toda em "deuses" mantidos fixos em seus pedestais.

Um comentário:

  1. Alexandre, acesse o seguinte link: http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=263978&tid=5606245860063884233

    Esse tópico falava sobre o cantor roraimense Neuber Uchoa, que é uma verdadeira vítima de preconceito. O pessoal do Sul e Sudeste tem muito preconceito contra qualquer coisa vinda de Roraima...

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