quinta-feira, 18 de agosto de 2011

A PARTIDARIZAÇÃO DA BUSOLOGIA CARIOCA


ALEXANDRE SANSÃO - O Ali Kamel dos ônibus cariocas mostra sua arrogância.

Por Alexandre Figueiredo

O preocupante racha que se anuncia na busologia carioca mostra o quanto parte dela está agora atrelada à politicagem do prefeito carioca Eduardo Paes e de seu secretário de transporte, Alexandre Sansão, conhecido pelo seu autoritarismo tecnocrático e pelo total desprezo ao interesse público.

De um lado, vemos busólogos que valorizam os ônibus por simples hobby, independente de terem acesso ou não às garagens de ônibus, mas sempre dotados de humildade e despretensão. Gente que não se envaidece porque entende as histórias dos ônibus, de suas empresas, carrocerias etc, e, mesmo tendo visibilidade, procura evitar surtos de estrelismo.

Mas, de outro, temos outros busólogos que se aproveitam da visibilidade para defender a famigerada e desagradável padronização visual dos ônibus do Rio de Janeiro, carro-chefe de uma lógica de transporte que, para o setor, soa como uma tardia tradução do golpe de 1964 e do AI-5. Gente que mostra o quanto a busologia, nesta tendência, encontra-se partidarizada, submetida a partidos como o PMDB e o PR (do qual um dos busólogos, conhecido por sua arrogância, encontra-se filiado).

Por sinal, o golpismo já contamina alguns busólogos, que já pediram para os que não concordam com seus pontos de vista para retirarem suas fotos, muitas delas incluídas pouco antes desse bafafá todo. O que indica uma implícita fome de censura a quem não pensa como eles.

Numa época em que a corrupção atinge o setor dos Transportes a nível nacional - não poupando sequer o arquiteto Jaime Lerner, um dos queridinhos do setor - , é preocupante a arrogância dos busólogos chapas-brancas, definidos também como busólogos-pelegos ou adeptos da "busologia de gabinete", que lançam louvores ao visual igualzinho das empresas de ônibus.

O blogueiro que lhes escreve pôde verificar, nas várias vezes circulando pelo centro do Rio de Janeiro e esperando ônibus na Estação Cidade Nova, as caras perplexas dos passageiros na espera de um ônibus.

Agora os ônibus estão todos iguais, nos quatro visuais referentes aos consórcios. Chega a ser constrangedor que uma Real Auto Ônibus que vai para a Barra da Tijuca via Copacabana agora é visualmente igualzinha à Auto Viação Três Amigos que vai de Irajá para Cascadura.

O tom do autoritarismo por trás da padronização visual - espécie de aplicação do "pensamento único" no transporte coletivo" - já foi dado por Eduardo Paes, respaldado pelo "Ali Kamel da busologia", o secretário de transportes da prefeitura carioca Alexandre Sansão. Paes, numa entrevista ao RJ-TV, da TV Globo, disse que os passageiros teriam que se virar para reconhecer o ônibus que irão pegar.

E isso contagia busólogos influentes, que chegam a reprovar fotos digitais que, baseadas em ônibus cariocas recentes, recuperassem o visual que cada empresa tinha antes do fardamento. E chegam a esnobar ou ofender quem não concorda com eles.

Compondo uma espécie de "panelinha" - quando grupos minoritários dão a falsa impressão de unanimidade popular devido à defesa de uma causa de interesse privativo aos envolvidos - , os busólogos "pelegos" já começam a ter medo de que as causas que defendem caiam no fracasso e a padronização visual - decadente até em Curitiba - dê errado no Rio de Janeiro.

A própria padronização visual tem um ranço autoritário. O próprio Jaime Lerner inspirou nos ônibus das Forças Armadas para "desenhar" o visual curitibano que, implantado em 1974, vale ainda hoje. E cujo modelo de transporte já encontra desgastado, com técnicos afirmando que está à beira de um colapso. Colapso que uma demagógica compra de 557 novos ônibus com potente motor Volvo não conseguirá por si resolver.

O modelo dá errado porque impede os passageiros comuns de reconhecer as empresas de ônibus que servem as linhas. E que, sob o pretexto de "apenas regular" o transporte coletivo, se carateriza pelo poder concentrado dos secretários de transporte, municipais ou metropolitanos.

Enquanto isso, outros busólogos já começam a questionar os busólogos-pelegos que adoram ver ônibus de empresas diferentes com a mesma pintura. Estes, todavia, estufam o peito posando de "donos da verdade" nos fóruns sobre busologia, nos quais eles detém o privilégio da "palavra final".

Já o povo - falsamente defendido pelos busólogos-pelegos - sofre para reconhecer um ônibus. Têm que redobrar sua atenção, diante das frotas misturadas que se juntam em áreas como a Av. Brasil e a Av. Pres. Vargas. Na bagunça do trânsito e na correria do dia-a-dia, o risco de pegar ônibus errado é altíssimo e não há bilhete único que compense, já que perde-se tempo e pode-se até perder parentes doentes, no transporte demorado para os hospitais.

Outro fato grave foi a mudança aleatória dos números, que inicialmente seria feito apenas para diferir linhas diferentes que tinham o mesmo código, mas hoje atingiu até mesmo códigos tradicionais como 260 Vila Valqueire / Praça 15 (hoje 363) e 284 Praça Seca / Tiradentes (hoje 371 e destinada à Praça da República, diante do fechamento do antigo destino aos ônibus).

Por sorte, o povo não sabe quem são os busólogos-pelegos. Se soubesse, os busólogos-pelegos correriam sério risco de levarem uma grande surra. Com o povo não se brinca.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...