segunda-feira, 22 de agosto de 2011

O SENTIDO DO CINEMA DE GLAUBER ROCHA


GLAUBER ROCHA NO COMEÇO DA CARREIRA.

Por Alexandre Figueiredo

Glauber Rocha foi um dos diretores peculiares não somente do cinema brasileiro como também do cinema mundial. Sua visão sem igual e sua breve carreira causaram muita polêmica, mas marcaram história pela sua qualidade e pelo vigor de pensamento de seu diretor, produtor e roteirista.

Glauber foi um repórter do Jornal da Bahia - jornal de centro-esquerda queo barão midiático baiano Mário Kertèsz assassinou sob ordens de ACM - que também teve o hoje escritor e colunista João Ubaldo Ribeiro na sua equipe jornalística. Glauber mal havia entrado na maioridade e fazia reportagens policiais.

Mas, frequentador de cineclubes e cinematecas - num tempo em que se contestava o cinema comercial norte-americano, décadas antes da infeliz ideia do TeleCine Cult de creditar o "cinemão de Hollywood" de "alternativo", em total desrespeito ao telespectador, que é enganado de graça (de graça, não, pois ainda tem que pagar o pacote de TV por assinatura, ainda que pela gatonet) - , Glauber também tinha uma forte visão crítica da teoria cinematográfica, e queria ser diretor para pôr suas ideias em prática.

Glauber é conhecido por três filmes que marcaram a década de 1960: Barravento (1961), Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964) e Terra em Transe (1967).

Meu pai chegou a ver pessoalmente algumas filmagens de Barravento, vendo inclusive o ator Antônio Sampaio, o hoje famoso e ativo Antônio Pitanga, grande ator e cineasta, que também vive seus momentos de sogro desejado em virtude da solteirice da belíssima e charmosa filha Camila Pitanga. Antônio Pitanga hoje prepara um filme sobre os Malês, negros escravos e muçulmanos que viveram em Salvador.

Barravento é, da trilogia glauberiana, um filme urbano-provinciano. Conta a história de um jovem que, vindo do "Sul" - eufemismo que os nordestinos definem como o eixo Rio-São Paulo - , se choca com o provincianismo da comunidade de pescadores de sua origem. O filme, em preto e branco, inclui até mesmo um número de samba-de-roda, para os desavisados que pensam que o estilo se carateriza pelo caricato "pagodão erótico" dos dias de hoje.

O curioso é que Barravento quase não seria um filme de Glauber. Entre 1958, início do planejamento de produção e 1959, época do começo das filmagens, o filme teria como diretor Luís Paulino dos Santos, que havia produzido uns curta-metragens sobre a vida em Salvador. Só que Luís Paulino era apaixonado pela atriz do filme, Sônia Pereira, e ele, namorando-a, dá atenção exagerada a ela.

Sabendo disso, Glauber Rocha, o jovem membro da equipe técnica, diz ao produtor Rex Schindler que vai demitir Luís Paulino da direção. Faz e toma o seu lugar. O roteiro é reescrito por Glauber e José Telles de Magalhães. O filme é finalizado em 1961, mas só começou a ser exibido nos cinemas no começo do ano seguinte.

Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964, é o "mais maçante" filme de Glauber, por sua história se passar no sertão nordestino. É uma crítica à alienação e ao fanatismo religiosos, e ao desejo de "justiçamento" das populações rurais oprimidas. É considerado o primeiro grande sucesso de Glauber, que a essas alturas lança um ensaio, A Estética da Fome, que expressa seu perfil de pensador de cinema.

Foi nessa época que ele populariza a expressão "Cinema é ter uma câmera na mão e uma ideia na cabeça". Na trilha sonora, o próprio Glauber teve seus poemas musicados por Sérgio Ricardo.

Terra em Transe, de 1967, é o filme mais urbano do diretor. Dizem que o filme inspirou o Tropicalismo, mas creio que foi além disso. O enredo faz uma crítica à hesitação intelectual "de esquerda", sobretudo em relação aos jornalistas, que se dividem entre o conservadorismo comercial, o tendenciosismo político e o idealismo "combativo" de esquerda.

O Glauber Rocha dos anos 70 parece mais excêntrico ainda. Essa fase é duramente criticada. Houve até um mal-entendido de um comentário que o cineasta baiano fez aprentemente em favor do general Golbery do Couto e Silva. Consta-se que o comentário "de apoio" não seria mais do que uma ironia diante da personalidade controversa do diretor.

Glauber era excêntrico e seus filmes dos anos 70 mostravam isso. Essa fase é até mais complicada para os cinéfilos iniciantes, embora a trilogia de 1961-1967 seria uma forma de introduzir às produções "mais difíceis".

Glauber Rocha também foi apresentador de TV do programa Abertura, da TV Bandeirantes, cujo logotipo - um olho com o céu na pupila - havia me assustado muito, naquela minha infância de nove anos, em 1980. E, como apresentador, mostrava o seu lado polêmico e seu jeito firme de falar e dizer suas opiniões.

O cineasta foi um dos que melhor viveram o perfil de cinema de autor, um cinema que mostra o cineasta como pensador, e cuja produção, embora não siga uma sequência episódica entre um longa e outro, sempre segue uma proposta de pensamento de seu diretor.

O diretor morreu cedo, aos 42 anos de idade, gravemente doente. Estava abalado com o falecimento da irmã, a bela atriz Anecy Rocha, em 1977, ao cair de um poço de elevador. Seu último trabalho foi A Idade da Terra, de 1980.

Glauber, entre várias atividades, fez em 1966 um documentário irônico sobre José Sarney, na posse deste ao governo do Maranhão. Maranhão 66 teria sido feito a pedido do próprio governador, mas o diretor subverteu a tarefa, mostrando imagens de prisões, comunidades pobres e doentes de hospitais enquanto o hoje presidente do Congresso Nacional fazia seu discurso como governador empossado, numa grandiloquência comparável a Odorico Paraguaçu, da obra O Bem Amado.

Nos últimos anos, houve documentários sobre Glauber que enriquecem a compreensão do cineasta. Rocha Que Voa, do filho Erik Rocha - que, corajosamente, criou uma polêmica com os diretores da Conspiração Filmes, acusados de fazer "cinema novinho e bonitinho" - , de 2002, que aproveita o som de uma entrevista antiga do cineasta e relata sua experiência no exílio em Cuba, e Glauber - Labirinto do Brasil, de 2004, de Sílvio Tendler, que entre outras coisas mostra a cerimônia de enterro do diretor.

Numa época de muita mediocridade e de muita cara-de-pau, uma figura como Glauber faz muita falta. Numa época em que os idiotas de plantão acham que "cinema de autor" é Steven Spielberg talvez Glauber, se tivesse vivo, não deixasse sequer os "ezecutivos" do TeleCine Cult venderem Rolyud como se fosse "cinema alternativo".

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