quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O POVO NÃO TEM CULPA PELO "POPULISMO" MIDIÁTICO



Por Alexandre Figueiredo

Um dos truques que os defensores da "cultura popular" de mercado fazem para legitimar seu discurso é ocultar as estruturas de poder que existem por trás da veiculação e promoção de seus produtos.

É conhecida, por exemplo, a atitude de defensores do "funk carioca" - incluindo os próprios "militantes" dentro do gênero - de esnobar qualquer referência ao empresariado que controla o ritmo e seu mercado associado, empresariado este, sabemos, composto pelos próprios DJs que comandam as equipes de som e controlam as festas noturnas dedicadas ao gênero.

Pois o discurso vai mais além, omitindo a participação das oligarquias midiáticas, do poderio político regional, das grandes mídias regionais, do latifúndio. Toda essa realidade é mascarada, camuflada pelo eufemismo de creditar a grande mídia regional como "pequenas mídias das periferias".

Dessa forma, o povo pobre é "responsabilizado" pelo mercadão brega-popularesco, quando na verdade as classes populares aparecem apenas como consumidor passivo ou, quando muito, como intérprete dos mandos e desmandos de seus empresários "artísticos".

De repente, aquela "cultura" de mercado, com seus mecanismos de manipulação dos ídolos e musas, com suas decisões feitas nos escritórios, com seu tendenciosismo ao sabor das circunstâncias - o "sertanejo", por exemplo, que faz um pastiche de country hoje vai fazer caricatura do Clube da Esquina no ano seguinte - , sempre medindo a "evolução sócio-cultural" com o crescimento das cifras e a exigência das "demandas sociais" (leia-se as críticas que os ídolos popularescos recebem a cada ano), é tida como a "espontânea e intuitiva cultura das periferias".

O "populismo" midiático, de cunho conservador, herança explícita mas não assumida dos valores ideológicos da Era FHC, tenta se sobressair acima das ideologias e dos cenários político-midiáticos botando a culpa toda nas classes populares pelo festival de vulgaridade e cafonice que assola o mercado midiático.

No entanto, é esse "deus mercado" que impõe seus mandamentos para o tipo de "cultura popular" que as elites querem para o povo pobre brasileiro, se empenhando, todavia, de se eximir de qualquer responsabilidade no processo. Ou seja, tudo fazem ou fizeram, mas não querem assumir o que fazem ou fizeram.

Tudo acaba sendo culpa das "periferias", um termo cujo uso constante deixa claro que "pensadores" como Paulo César Araújo, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches se inspiraram nas ideias do "príncipe dos sociólogos" Fernando Henrique Cardoso.

Não por acaso, foram sociólogos, antropólogos, historiadores e críticos musicais, "filhotes" do pragmatismo ideológico de FHC e do "Projeto Folha" (da Folha de São Paulo) que se destacaram no seio dos mesmos ambientes acadêmicos onde se formou o quadro político do PSDB.

Daí que tais ideólogos, nervosos diante do risco de serem desmascarados, logo se apressam em enfiar "palavras-chave" esquerdistas em seus textos, citando de Geraldo Vandré a Che Guevara, para ver se escondem a herança discursiva e argumentativa da Teoria da Dependência na corrente de Fernando Henrique Cardoso.

E põem toda a culpa nas empregadas domésticas, camelôs, porteiros de prédio, feirantes, garis que não têm ideia verdadeira do que consomem através da mídia popularesca.

São vítimas de todo um processo de manipulação do inconsciente das classes pobres, através da construção de um modelo ideológico em que o povo pobre é imbecilizado para não poder mobilizar pelos seus interesses reais.

Seus desejos são desviados para o fanatismo esportivo, para o sensualismo grotesco ou, por outro lado, para a pieguice mística, e sempre para a cafonice patética, processo feito pelos executivos do entretenimento para confundir, no povo pobre, a ideia de baixa autoestima com felicidade, deixando as classes populares satisfeitas com sua inferioridade, que o jargão politicamente correto define como uma "forma diferente de sabedoria, superioridade e autossuficiência social".

E vale dizer que esse mercado do entretenimento enriquece também empresários da indústria de cervejas, que lucram horrores com a campanha alcoolista "saudavelmente" exercida desde a música brega "de raiz" até o forró-brega que canta sobre quem "bebe até cair", passando pelos inúmeros eventos brega-popularescos onde o consumo de cerveja é "di grátis".

E toda essa "alegre recreação das periferias" acaba abreviando, e muito, a vida de muitos trabalhadores, aposentados e desempregados, numa perversa "limpeza social" promovida pelas elites contra as classes populares, dissolvendo famílias e destruindo estruturas sociais na medida em que deixam filhos e filhas sem a referência viva do amor paterno.

É através desse "pão e circo" popularesco que o povo pobre é manipulado por uma elite de empresários do entretenimento, do atacado e varejo e, sobretudo, da grande mídia - sem ignorar que existe grande mídia regional - , com o apoio de políticos corruptos e latifundiários.

Mas não interessa revelar como se dá essa manipulação, nem muito menos que ela existe, pois, para o bem do enriquecimento das elites envolvidas, atribui-se tudo à "inocente capacidade de superação (?!) das periferias".

Dessa forma, a domesticação sócio-cultural das classes pobres, ou mesmo da classe média baixa, tem sua gravidade suavizada com um discurso paternalista, uma retórica benevolente, que dissolve em dóceis argumentos um processo cruel de impotência imposto às classes populares.

Esse discurso acaba por se contradizer, ao ser veiculado na mídia esquerdista, com as notícias sobre os movimentos sócio-culturais que existem no exterior, como no Oriente Médio, na Europa, nos Andes, na América Central. Pois se lá o pessoal luta por melhorias e produz arte de qualidade, aqui temos que nos esquecer das questões estéticas e ideológicas para aceitar uma pseudo-cultura de gosto duvidoso que nada acrescenta para a cultura do povo pobre.

Essa convivência "harmônica" de notícias como as mobilizações do Egito e Tunísia, dos protestos anuais de Davos, dos protestos das Mães de Maio argentinas e dos indígenas chilenos, ao lado da passiva romaria de jovens brasileiros suburbanos para o consumo dos sucessos radiofônicos apresentados nos galpões de mega-eventos, cria uma situação incômoda para parte da intelectualidade dita "de esquerda".

Pois para ela a luta por melhorias sociais só é boa quando feita lá no exterior. É lindo haver passeatas contra a tirania egípcia, contra o imperialismo e pela verdade histórica do regime militar. Mas, aqui, a única mobilização admissível, para essa intelligentzia tão divinizada e autorreverente, é a dos glúteos ao som do "funk carioca".

Que moral tem essa intelectualidade que, quando o assunto é sobre desaparecidos políticos do regime militar, pede a verdade histórica da revelação dos documentos, se, no âmbito cultural, é capaz de camuflar, o máximo possível, o direitismo explícito de um ídolo como Waldick Soriano?

Isso mostra o quanto é cruel o jogo das elites "esclarecidas" em manter o povo pobre domesticado e inofensivo. O povo pobre é manipulado, mas essa intelectualidade "divina" diz que isso é "felicidade".

O povo pobre pode ser inocente, mas não é ingênuo. A mídia e seus ideólogos tentam mantê-lo ingênuo no entretenimento popularesco. No fundo, só querem mesmo salvar as fortunas das elites envolvidas no entretenimento. Em prejuízo da verdadeira cultura popular que você, leitor, não vê na TV aberta, nas rádios FM nem muito menos nos textos "generosos" da intelectualidade pró-popularesca.

Um comentário:

  1. No dia em que o povo acordar dessa manipulação descrita no texto, o primeiro alvo será a esquerda brasileira conivente com a maldita herança das oligarquias. Leia-se por esquerda: do PT e o Governo Lula-Dilma até o PSOL e seus deputados frouxos.

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