sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O LEGADO FORTE DA IDEOLOGIA CULTURAL DE DIREITA


O LEGADO DE OTÁVIO FRIAS FILHO NA VISÃO OFICIAL DE "CULTURA POPULAR" AINDA É MUITO FORTE.

Por Alexandre Figueiredo

O Brasil vive a "ditabranda do mau gosto", o "marketing da rejeição". A classe média, mesmo a de esquerda, vive apavorada quando se pensa na hipótese de fazer o povo pobre brasileiro superar sua imagem de "coitadinho simpático".

Nos últimos anos, vivemos o grande contraste entre a visão lúcida de política por analistas de esquerda de pulso firme, como Emir Sader e Venício A. de Lima, e o sentimentalismo brega de alguns analistas frágeis, para os quais Paulo César Araújo é quase um Moisés moderno e Pedro Alexandre Sanches um novo messias.

Os defensores do brega falam na natural contradição da natureza humana. Mas se esquecem da contradição que eles mesmos fazem. Querem a reforma agrária, mas, musicalmente, estão com os ruralistas. Querem a Ley de Medios, mas culturalmente estão com o PiG. Evidentemente, desconversam, não assumem, e não conseguem explicar por que a "cultura popular" que defendem é a mesma que é defendida por gente como Ali Kamel e Otávio Frias Filho.

Pois todo o pensamento de direita, de Auguste Comte a Fernando Henrique Cardoso, de Francis Fukuyama a Otávio Frias Filho, ainda bate forte no peito dessa classe média que mal deixou de ler a Folha de São Paulo e ver o Jornal Nacional. Por mais que agora se sinta constrangida quando veem os jornalistas da Folha e Globo defenderem o neoliberalismo, a herança que a classe média tem da editoria cultural da mídia golpista ainda é muito forte.

É uma geração que nem tem 50 anos de idade e, se viveu um pedacinho do período 1960-1964, quando se discutia cultura popular de verdade e não se defendia a "cultura do coitadinho", era muito pequena para entender as lutas que gente como Oduvaldo Vianna Filho e Carlos Estevam Martins fizeram pela cultura popular.

Pelo contrário, a formação cultural dessa intelectualidade que hoje praticamente monopoliza a agenda cultural na intelectualidade esquerdista vem dos tempos do regime militar. Mas como essa intelectualidade vivia feliz no tempo do "milagre econômico", ela desconhece os mecanismos feitos pela grande mídia para defender os bregas e neo-bregas que agora são promovidos como se fossem donos da MPB e do folclore brasileiro.

O próprio brega que essa turma defende é produto de um esquema de difusão de valores culturais duvidosos pela grande mídia, que pelos seus referenciais diversos evocam a ruptura da identidade nacional acumulada há anos e a domesticação do povo pobre, posto à margem do debate público das esquerdas.

Só para entender o drama, o povo pobre, através do brega-popularesco, não pode mais fazer modinhas como os antigos músicos caipiras faziam. Mas "podem" fazer boleros e country music estereotipados. O povo pobre nordestino não pode mais fazer baiões e xaxados, mas "pode" fazer um engodo que mistura disco music, merengue e country mais dançante. O povo pobre dos subúrbios não pode mais fazer samba, mas "pode" fazer um engodo que junta soul music com bolero tocando pandeiro e cavaquinho.

Será preciso ficarmos fazendo sempre a velha MPB? Claro que não. Mas desempenhamos um caminho que, em vez de ser continuado e evoluído, foi interrompido. E boa parte da intelectualidade prefere se conformar com essa ruptura, a pretexto de uma ideologia pós-moderna que anteviu a influência neoliberal no trato da cultura de nosso país.

"SÃO" CAETANO

Não por acaso, as pessoas que hoje defendem o brega e a "cultura do coitadinho" - o "artista" é "bom" porque é "rejeitado" - endeusavam Caetano Veloso quando este, antes um corajoso artista tropicalista, passou a ser um presunçoso articulados do establishment musical a ele associado.

Até pouco tempo atrás, o próprio Caetano Veloso era um totem inabalável. De fato ele tem profundo conhecimento cultural, é um compositor e letrista talentoso e tem um domínio de palco incrível, mas a condescendência dele com o brega-popularesco e um certo estrelismo de sua parte o faziam criticável, mas durante muito tempo ele passava incólume de duras críticas.

Isso até o outrora divinizado Caetano - o "são" Caetano da intelectualidade festiva de 30 anos atrás - passar a defender Fernando Henrique Cardoso e todo o tucanato associado, no exato momento em que se formava uma grande imprensa esquerdista, como Caros Amigos, Carta Capital e, depois, a revista Fórum.

Pois é uma intelectualidade de classe média, que hoje tem entre 31 e 49 anos, que durante muitos anos via feliz a Rede Globo e, mais feliz ainda, lia a Ilustrada da Folha, e durante muito tempo endeusava o Caetano pré-Caetucano e, pouco tempo antes, apostava suas esperanças de Fernando Henrique Cardoso colocar o Brasil nos eixos da economia globalizada, dependente e subordinada. E com a "cultura popular" associada a essa perspectiva.

Pois o brega-popularesco de ídolos bregas (Waldick Soriano, Odair José, Gretchen) e neo-bregas (Sullivan & Massadas, Alexandre Pires, Chitãozinho & Xororó, Tati Quebra-Barraco, Latino, Banda Calypso, Ivete Sangalo) segue justamente esse modelo subordinado e dependente da Teoria da Dependência de FHC aplicada ao âmbito da cultura popular.

Pois é uma "cultura" brasileira mas nem tanto, dependente do mercado radiofônico e fonográfico - mesmo com "pequenas" gravadoras, que reproduzem a mesma mentalidade das multinacionais - , com influências estrangeiras cuja assimilação nada tem a ver com a teoria antropofágica de Oswald de Andrade, porque é o nacional se rendendo ao estrangeiro, e não o contrário, como previa a tese do modernista.

A própria apologia a essa "cultura" subordinada dá pistas da abordagem direitista. Quando se fala da influência estrangeira, a classe média ilustrada vai logo dizendo que a "cultura popular" midiática é "uma recriação do que vem de fora". Falam das identidades nacionais com um certo constrangimento, como se ser "nacional" é ser antigo, mas desconversam e dizem que hoje as identidades nacionais "estão em transformação" e a "forte influência estrangeira" é apenas uma "forma local de pensar o global".

É claro que num país em que pouco se estimula a leitura, e se estimula muito menos ainda a leitura crítica e analítica, criam-se dificuldades desnecessárias para identificarmos ecos das teorias neoliberais em textos de Paulo César Araújo, Hermano Vianna e Pedro Alexandre Sanches.

Vianna e Sanches, no entanto, quando falam de expressões como "centro" e "periferia", logo de cara deixam claro que, de uma forma ou de outra, se influenciaram fortemente pela teoria de Fernando Henrique Cardoso, que sempre usava essa dicotomia.

É só ler os textos de Vianna e Sanches comparar com os livros de FHC e Enzo Faletto de 1967 e 1970 para ver que as semelhanças existem e surpreendem. Da mesma forma, o texto que Sanches escreveu sobre o festival da MPB de 1967 - intitulado "Ainda somos os mesmos e seremos como nossos pais?" - tem a mais explícita influência de Francis Fukuyama do que os realistas podem imaginar.

VISÃO DIREITISTA DA IDEIA DE "POVO"

A própria dependência do povo pobre em relação ao mercado radiofônico também dá pistas da teoria cultural de direita que ilude até muita gente de esquerda, e que produz o cenário de "comunidade popular" simbolizado pela ideologia brega e neo-brega.

Primeiro, é a transmissão de "valores musicais" pelo rádio e "sociais" pelo rádio, TV e imprensa escrita e não mais pelo convívio comunitário (que continua existindo, mas subordinado ao mecanismo midiático dito "popular").

Para validar essa tese, cria-se uma atitude de omissão, seus defensores imaginam essa mídia como oriunda das classes populares e a presença de empresários do entretenimento (muitos extremamente ricos) é vista com desdém ou sarcasmo ou, quando muito, como um fato acidental sem muita importância.

Segundo, pelo cenário que traduz a inferioridade social disfarçadamente defendida pelos ideólogos do brega-popularesco. Situações tidas como provisórias, como morar em favelas e trabalhar em camelôs ou em prostituição são agora "permanentes". As próprias favelas, fruto da exclusão imobiliária e composta de construções irregulares em lugares perigosos, agora são vistas com a eufemística e paternal visão de "arquitetura pós-moderna".

O próprio modo de expressão cultural do povo pobre é agora submetido a uma visão direitista. O povo agora é "criativo" dentro de limites sócio-culturais determinados pelo status quo. Uma "criatividade" subordinada, inferiorizada e dependente, num processo ideológico que traz oculta a ideia de que o povo pobre deve ser inferiorizado socialmente e expressar-se dentro desses limites.

Além disso, existe o mito de que o povo é "bom" naquilo que tem de ruim. A manipulação discursiva faz com que entendamos a ignorância popular como sendo "uma nova inteligência", a pobreza como "uma nova riqueza", e que qualquer questão estética deve ser menosprezada. Ou seja, aqui entra o aspecto estranho da intelectualidade que nos aconselha a não pensar.

Louva-se a inferiorização popular na medida em que o mérito está não em ser o melhor, mas em ser "rejeitado, escorraçado e reprovado". E que as "questões estéticas" têm que ser desprezadas, de preferência jogando fora todo o esforço pensativo produzido há mais de dois mil anos.

DIREITISMO "ALI KAMEL"

É claro que ninguém vai assumir ser direitista. Nem Fernando Henrique Cardoso, nem José Serra, nem Reinaldo Azevedo se consideram direitistas. Ser direitista pega mal, a imagem de direita afasta os amigos, gostoso é ter ideias de direita sendo "de esquerda". Na hora do aperto, diz-se que "a esquerda não é pura", defende-se um "esquerdismo à moda da casa".

Mas até isso a direita influi na intelectualidade pró-brega-popularesco. Se Ali Kamel, mascarando os problemas raciais ainda existentes no Brasil, disse que "não somos racistas", também "não existe" machismo no país, o povo "não é medíocre", que "não existe miséria" ou que "a miséria é linda".

Com isso, temos que esconder os problemas existentes no país. E, infelizmente, é a própria classe média "de esquerda" que primeiro a faz, assustada com a reflexão que os movimentos sociais no exterior podem ocorrer no Brasil.

Por isso essa classe média ilustrada desconversa e diz que os movimentos sociais são lindos desde que bem longe do Brasil. Que eles aconteçam na Europa e no Oriente Médio, ou, de preferência, nos Andes chilenos.

Aqui, segundo a classe média ilustrada, no Brasil nada deve ocorrer de passeata pela reforma agrária, nem por qualquer outra causa nobre, nem para botar uma passarela numa rodovia que corta um subúrbio! A regra é ficar todo mundo de fila, de mãos dadas, indo para o próximo galpão mega-show para assistir ao ídolo neo-brega do momento. Vamos ter a Copa do Mundo, tudo tem que ficar na "santa paz", ainda que seja a "paz sem voz" da plebe domesticada!

Dizem que Ali Kamel é o "senhor das trevas". Talvez. Mas ele e Otávio Frias Filho emprestaram, com gosto, suas lanternas para os discípulos de Paulo César Araújo e Pedro Alexandre Sanches usarem. Nem todo discípulo tem coragem de assumir os seus verdadeiros mestres.

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