segunda-feira, 29 de agosto de 2011

O JOGO SUJO DE VEJA



Por Alexandre Figueiredo

Independente de alguém gostar ou não de José Dirceu, ou de confiar ou não nele, a atitude da revista Veja mostra o quanto o denuncismo reacionário, caluniador e mentiroso da revista da famiglia Civita cada vez mais derruba a reputação do periódico.

Com o intuito de forjar uma "briga" entre José Dirceu e a presidenta Dilma Rousseff, um repórter de Veja, agindo no mais baixo nível do sensacionalismo jornalístico, invade o Hotel Naoum, em Brasília, famoso por ter hospedado várias celebridades e personalidades políticas, para "revelar" um suposto gabinete formado por Dirceu para, segundo a revista, "criar uma conspiração" para derrubar a presidenta.

Em primeiro lugar, talvez Veja desconheça que, quando políticos se hospedam em um hotel, evidentemente estabelecem contatos políticos. Mas nem por isso se torna um "gabinete". Uma personalidade política evidentemente recebe outros políticos, seus telefonemas são quase sempre de assuntos políticos e mesmo negociações políticas de urgência são feitas, principalmente em momentos políticos delicados.

Foi isso, por exemplo, que houve quando o já ex-vice do governo Jânio Quadros, o gaúcho João Goulart, fazia há exatos 50 anos, em vários hotéis em que esteve lotado na sua longa estadia no exterior, prorrogada por que os ministros militares do antigo titular não queriam ver Jango assumindo o poder.

Veja, há muito tempo, comete um jornalismo incompetente e constrangedor. A revista, além disso, parece estar quase sempre com mau humor, suas páginas são ranzinzas, preconceituosas, cafajestes, anti-sociais. Ataca do movimento estudantil às populações indígenas, do cinema experimental ao MST. Não dá para uma pessoa normal respirar folheando as páginas poluídas de Veja. Apesar do nome, Veja é cega, não por não poder ver, mas por não querer ver a realidade (olha o trocadilho).

Por incrível que pareça, uma das poucas pessoas que foram poupadas do tradicional mau humor de Veja foi a cantora Gaby Amarantos, a musa do tecnobrega, ritmo que alguns acreditavam que iria fazer a grande mídia correr de medo, e não fez. Ou quando uma celebridade é o Padre Marcelo Rossi, ou quando o político é demotucano.

A reporcagem de Veja não revelou fontes consultadas, não divulgou gravação da conversa, e muito menos respeitou a privacidade do hospedado numa situação que não tem grande gravidade. E limitou-se a dizer que a suposta fita foi "verificada" pelo "perito" Ricardo Molina, o mesmo usado pela Rede Globo para tentar convencer seus espectadores que a bolinha de papel jogada contra José Serra, no Rio de Janeiro, era um "perigoso objeto estranho que teria causado traumatismo no (então) candidato".

Além disso, a preocupação em divulgar escândalos tornou-se unilateral. A Veja nada divulga, por exemplo, sobre possíveis desavenças entre José Serra e Geraldo Alckmin, ou entre cada um dos dois com Aécio Neves, nem verificar se existe algum estremecimento de relações entre Fernando Henrique Cardoso e José Serra, ou se o PSDB e o DEM estariam ou não brigados.

Dá pena comparar a Veja com a prepotência de Rupert Murdoch. Não que este fosse menos corrupto ou cafajeste, mas porque Veja é provinciana, mofada e rabugenta. Murdoch, mesmo com todos os seus piores adjetivos, pelo menos é um cidadão do mundo. Um péssimo, repugnante, abominável e condenável cidadão do mundo, um canalha cosmopolita. A turma de Veja nem de longe esboça alguma modernidade cosmopolita.

Veja ainda parece viver entre o Brasil da República Velha e o Brasil do AI-5.

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