quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O "CANSEI" DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA




Por Alexandre Figueiredo

Uma parte da intelectualidade está cansada de MPB. Acha que a Música Popular Brasileira de qualidade é apreciada do Arroio ao Chuí, e, por outro lado, acha novidade o brega-popularesco que já começa a cansar os ouvidos de muita gente no Norte e Nordeste.

Isso nos faz pensar se certas abordagens cosmopolitas também não sucumbem a um certo bairrismo urbano, de não enxergar longe a realidade complexa de nosso país.

A intelectualidade festejada vende as tendências brega-popularescas como se fosse uma "nova cultura", mas é algo que já nasce mofado, velho, daí o termo "cafona" e seus redutos de degradação social.

O que se trata de um grave erro a intelectualidade esquerdista dar ouvidos a pensadores e críticos que apenas corroboram os valores de "cultura popular" difundidos pela mesma mídia conservadora duramente criticada em seu padrão de jornalismo político.

Só para citar uma grande contradição acerca desse apoio esquerdista, o jornalista Pedro Alexandre Sanches nos dá dois exemplos dessa contradição, colhidos em seus tão celebrados artigos.

Primeiro, quando Pedro foi exaltar o tecnobrega paraense, ritmo tido como "sem mídia", mas que, na verdade, sempre foi apoiado pela grande mídia paraense - o jornal O Liberal, a TV Liberal e a Liberal FM, da famiglia Maiorana, dão amplo espaço ao gênero que agora é conhecido como tecnomelody - , ao passo que o jornalista progressista Lúcio Flávio Pinto, que sofre a repressão dos barões da mídia paraenses (os Maiorana, inclusive), definiu o tecnobrega simplesmente como "um lixo".

Segundo, quando Pedro, a título de fazer uma retrospectiva da "música brasileira" na década 00 do século atual, exaltou o que ele chamou de "neo-forró cearense", todo feliz da vida. Mas é o mesmo estilo, o forró-brega, que já causa revolta no povo cearense, pelo monopólio que exerce no entretenimento local, a ponto de marginalizar o patrimônio musical cearense. E que agora, ameaçado de decadência no Nordeste, tenta criar reservas de mercado no Sul e Sudeste, a exemplo do que a axé-music fez quinze anos atrás.

Como é que um crítico vai escrever para a revista Fórum - revista ligada ao Fórum Social Mundial e de perfil ideológico semelhante ao de eventos de blogueiros progressistas que prestaram solidariedade a Lúcio Flávio Pinto - sobre um gênero apoiado abertamente pelos barões da mídia nortista e nordestina, saindo incólume do debate público?

Tudo isso porque livros, documentários, reportagens, artigos, ensaios são lançados para justificar, nem sempre com precisão cientifica ou coerência intelectual nem factual, a prevalência do mercado de uma pretensa "cultura popular" que enriquece os barões da mídia, do entretenimento e até as grandes corporações de atacado e varejo envolvidos.

A intelectualidade festiva acaba mostrando o seu isolamento, ouvindo a MPB autêntica nos seus salões privados, achando que até o pescador do Rio Amazonas conhece a fundo a Bossa Nova e o Clube da Esquina.

Mais de 40 anos após o surgimento da geração que veio a fazer a música brasileira de qualidade nos anos 60 e 70, a MPB autêntica que eles formataram só foi parcialmente apreciada pelo grande público nas periferias e no interior do país. Seu cancioneiro não chega a 30% do total produzido, e vários dos seus artistas hoje são marginalizados e discriminados pelas rádios de maior audiência no país.

Praticamente eles só são lembrados para fazer duetos com ídolos de "pagode romântico", "sertanejo", axé-music e "brega de raiz", como forma de legitimar a mediocridade cultural simbolizada por estes.

Mas o grande público do Norte não tem a menor ideia de quem foram Billy Blanco e João Donato (este continua sendo), dois nortistas que apenas foram fazer carreira musical no Rio de Janeiro. E, no caso de João Gilberto, o público nordestino só o conhece na imagem deturpada de um maluco que se ausenta em algumas apresentações, distorcendo até a noção de ouvido apurado que o mestre da Bossa Nova possui, e que o faz até posicionar de forma diferente o cantor e sua orquestra.

Apenas uns poucos sucessos de cantores mineiros e nordestinos, ou uns poucos gaúchos, chegaram ao grande conhecimento público, nos anos 70. Parece muito, mas os grandes sucessos da MPB dos anos 70 mal ultrapassam um quarto da produção total, e até sua execução começa a ser repetitiva enquanto os remanescentes dessa geração não conseguem mais espaço nas rádios para produzir novas músicas.

Por isso trata-se de um grande equívoco que a historiografia da Música Popular Brasileira seja narrada sob o ponto de vista da classe média do eixo RJ-SP. Daí o fato de que a MPB autêntica "está cansando" os intelectuais de classe média, que não aguentam mais ouvir a geração "biscoito fino" e clássicos como "Travessia", "Como Nossos Pais", "Vida de Gado" e "Olhos Nos Olhos" executados pela milionésima vez nos seus ouvidos.

Mas acham que o brega-popularesco é "uma grande novidade" e imaginam, entre ingênuos ou cínicos, que os mesmos clássicos da MPB seriam "renovados" através de "outras vozes" como os dos já engomados ídolos do "pagode romântico", "sertanejo" e axé-music que cantaram para George W. Bush, para a plateia do Madison Square Garden ou sob a batuta orquestral de João Carlos Martins.

Isso quando não versionados para o grosseiro "funk carioca", outra menina dos olhos dessa intelectualidade encastelada em seus apês ávidos para uma "festa popular" ao som de Latino, Belo, Aviões do Forró e companhia.

Não, sabemos que a MPB não se renova assim. O regime militar rompeu com a capacidade natural da música brasileira de qualidade ser também produzida pelo povo pobre, coisa que, até 1964, existia em larga escala. Não é com o "aperfeiçoamento" artístico de ídolos bregas ou neo-bregas que a MPB de qualidade voltará para o povo das periferias e para a gente do interior.

Pelo contrário, o processo de trainées desses cantores, duplas e grupos, às custas de muito CD/DVD ao vivo, muitos covers, muitos duetos, só fez ajustar esses intérpretes bregas e neo-bregas às mesmas normas da "MPB burguesa" ditadas pela indústria do disco.

E dá para perceber que, não obstante, esses "artistas", lapidados ao mais alto grau de luxo, técnica, tecnologia e pompa, soam mais burocráticos do que outrora. Antes eles eram ridiculamente cafonas, mas pelo menos pareciam mais espontâneos.

Isso em nenhum momento os fez mais artistas, mais cultura popular, nem verdadeiramente MPB. Só representou uma "adequação" mercadológica deles, produtos da grande mídia, para um público de classe média alta.

Daí que existe uma grande diferença entre adaptar um produto às novas demandas de mercado e um fenômeno cultural autêntico, naturalmente desenvolvido pelas comunidades.

E isso o que a intelectualidade "cansada" de MPB não consegue ou não se interessa em admitir.

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