sexta-feira, 19 de agosto de 2011

O CAMINHO PERIGOSO DO "REVISIONISMO"



Por Alexandre Figueiredo

A cada vez mais, o setor cultural torna-se mais vulnerável às manobras da mídia direitista através de seus herdeiros que vestem a máscara de "dissidentes".

Durante muito tempo uma geração de intelectuais e celebridades ficava feliz com os rumos do neoliberalismo brasileiro, e, na década de 90, apoiaram Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Muitos desses intelectuais beberam das fontes da Teoria da Dependência de Fernando Henrique Cardoso e leram autores neoliberais que variam de Roberto Campos a Francis Fukuyama.

Mas, nos últimos cinco ou dez anos, essa gente, por alguma divergência insignificante, aparentemente "rompeu" com o direitismo em que se situavam confortavelmente e passaram a se autoproclamar "de esquerda" com encenada convicção.

Só que isso cobra um preço que, no Governo Federal, se vê através de retrocessos como o fracasso do Plano Nacional de Banda Larga - ontem houve um segundo tuitaço (manifestação digital no Twitter) pedindo o cumprimento das metas originais do PNBL - e a defesa da hidrelétrica de Belo Monte, projeto herdado do regime militar e que ameaça destruir uma das comunidades indígenas remanescentes.

O preço também está na corrupção que atinge os bastidores do governo Dilma, resultante de acordos políticos que agora mostram suas desvantagens com escândalos ocorridos em ministérios como o do Transporte e o do Turismo.

Mas o assunto não é esse, é o revisionismo que setores da intelectualidade "de esquerda" promovem em relação à nossa história cultural e que pode representar um caminho "lento, seguro e gradual" para a volta do demotucanato ao poder.

Sabemos que os ídolos "cafonas", que eram explicitamente a trilha sonora do "brasil grande" ditatorial, agora são considerados "vítimas" do regime militar.

É até engraçado que hoje falam da imagem "idealizada" de Chico Buarque como "vítima da ditadura" (como se ele nunca tivesse relação com o pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda, de uma brilhante geração de intelectuais que realmente pensava o país e pensava pelo país), dizendo que a imagem foi criada pela RCA Italiana.

Mas é a mesma intelectualidade que forjou, com muito menos realismo mas caprichando no sentimentalismo fácil, a imagem de "vítimas da ditadura" dos ídolos cafonas, que, na pior das hipóteses, só eram convidados pela Censura Federal a explicar o sentido de determinadas letras. A campanha "revisionista" é tão risível que chega a atribuir a letra de "Torturas de Amor", de Waldick Soriano, a um protesto contra a ditadura.

Ora, ora, em que país nos vivemos? A canção de Waldick foi gravada em 1962, quando o regime militar era apenas uma ideia emergencial da direita brasileira e dos EUA, mas tudo parecia às mil maravilhas com o controverso João Goulart presidindo num regime parlamentarista.

Recentemente, circula uma versão de que a ditadura militar "foi muito, muito popular", principalmente durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici. Ora, isso é como dizer que o AI-5 era uma nova declaração dos direitos humanos feita no Brasil.

E isso numa época em que o povo brasileiro reivindica a verdade histórica do tempo do regime militar. Só que os oportunistas de plantão, protegidos sob a máscara de uma intelectualidade divinizada, mais contribuem para a inverdade histórica.

E, da mesma forma que usaram a defesa de Tati Quebra-Barraco para neutralizar toda a campanha contra as baixarias na mídia, agora usam Waldick Soriano para neutralizar qualquer esforço pela verdade histórica de um passado relativamente recente de nosso país.

PERSUASÃO

Historicamente, sabemos que a "popularização" do governo Médici foi condicionada por uma campanha midiática, associada às grandes empresas, num segundo processo de persuasão maciça feito pelas classes conservadoras do país, com o apoio, até explícito, das multinacionais e do Departamento de Estado dos EUA, que mandava recursos para o IPES-IBAD, o Instituto Millenium dos anos 60.

O primeiro processo de persuasão foi entre 1961 e 1964, quando a direita conseguiu convencer a sociedade brasileira de que o projeto nacional-popular de Jango (similar ao que vimos no governo Lula) era inviável e que o bom mesmo é o Brasil virar marionete político-econômica dos EUA. No segundo processo de persuasão, em 1969, falava-se que o Brasil era o "país grande" que rumava para vencer a Copa do Mundo e se tornar a oitava economia mundial, e que para isso teria que apoiar o "governo revolucionário".

O PERIGO DO REVISIONISMO ACRÍTICO

Pois o grande perigo do revisionismo acrítico é que certos oportunistas - uns com capacidade tão habilidosa de argumentação que se tornam "endeusados" pela capacidade de tocar fundo nas emoções ocultas da classe média paternalista - podem tratar a História como uma massa de modelar, fazendo-a da forma que quiserem.

É um risco muito antigo, afinal o passado é algo que não acontece mais no momento, e muitos dos personagens, mortos, não podem mais dar seu testemunho, enquanto que há outros que, mesmo vivos, podem mentir para livrar-se de encrencas pelo que fizeram.

Por isso moldar o passado é muito fácil, quando artífices começam a argumentar da maneira que podem - se preciso, até com xingações ou ironias - para que o relato histórico não esteja de acordo com a coerência possível dos fatos (ainda que sob diversas interpretações), mas conforme o "historiador" deseja que tivesse acontecido.

Se há dez anos atrás os ídolos cafonas que animavam o Brasil de Médici foram transformados em "vítimas" dele, e agora Emílio Médici foi promovido a um "ídolo tão carismático quanto Lula", o que esperaremos das futuras manobras revisionistas de nossa intelectualidade tão "santificada"?

Já falam que os ídolos do sambrega da Era Collor eram "vítimas de preconceito". Tentaram, em 2005, reabilitar Fernando Collor como um "estadista moderno", numa campanha que ressoou no Orkut e na revista Isto É. Amaury Jr. tentou reabilitar Paulo Maluf. O arenista Mário Kertèsz criou uma rádio toda para vendê-lo sob a falsíssima imagem de "radiojornalista intelectual de esquerda". O próprio "funk carioca de raiz", tão tolo em 1990, hoje vende a falsa imagem de "canção de protesto".

E o que virá depois? Fernando Henrique Cardoso voltará a ser lembrado como o "maior estadista que o Brasil já teve", e daí para dizer que José Serra foi "vítima de preconceito" nas urnas é um pulo. De repente Pimenta Neves, talvez postumamente, volte a ser lembrado como um "feminista", Guilherme de Pádua como um "grande ator" e Nicolau dos Santos Neto como "um eminente jurista".

Mas os "arautos da direita" somos nós, que contestamos o estabelecido, mesmo com todos os seus absurdos. Alegria, Alegria, vamos chorar a trajetória de Waldick Soriano. Juntemos forças para, daqui a 15 anos, recarregar José Serra nos nossos braços. Sob as bênçãos da Opus Dei e da Solange Gomes vestida de freira pornô.

2 comentários:

  1. Será que, daqui a dez anos, a Carla Perez que "segurava o Tchan" será tida como "feminista injustiçada"?

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  2. Acredito que a História deve ser descrita como foi, não como algum historiador ou curioso gostaria que fosse contada. Mas não derramarei uma lágrima se algum dia o lulo-dilmismo e a esquerda como um todo (inclusive PSOL e a extrema-esquerda) caírem, por todas as traições, decepções e conchavos fisiológicos herdados (não extintos) da Era FHC. Quem vota nessa gente que os defenda. E olha que é gente pra dedéu: a maioria da população, a mesma que elegeu FHC presidente duas vezes e Collor uma vez. Eu tou fora.

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