sexta-feira, 26 de agosto de 2011

O APARTHEID CULTURAL ESTÁ NO BREGA-POPULARESCO


CLUBE DA ESQUINA - Sofisticação musical do movimento mineiro está cada vez menos acessível ao grande público.

Por Alexandre Figueiredo

Os ideólogos do brega-popularesco, divinizados por uma classe média paternalista que acha que entende de cultura da periferia, já reclamaram daquilo que entendem como "apartheid cultural". Acham que os ídolos "populares" não conseguem um lugar nobre no primeiro time da MPB e, por isso, "não são justamente conhecidos".

Reclamam esses intelectuais que o brega-popularesco "se isola" na apreciação "natural" das classes populares, enquanto a classe média "moralista e preconceituosa" desdenha o sucesso dos ídolos "populares".

Com um discurso mais sentimentalista do que racional - em que pese a sua maciça penetração em monografias, documentários etc - , eles tentam lançar a tese utópica de que, promovendo a integração entre a "MPBzona" e o brega-popularesco, ou a aceitação da vulgaridade televisiva como um "movimento social libertário", a cultura popular "verdadeira" venha a florescer na sua plenitude.

Estão completamente enganados. Ou então estão mentindo para enganar os outros.

Juntar uma cultura de classe média com a "cultura" consumida por suas empregadas domésticas não vai resolver o apartheid cultural existente. Muito pelo contrário, agrava-se ao extremo o fosso cultural entre classes populares e classes abastadas.

Na medida em que setores de classe média passam a aceitar o brega-popularesco, a antiga cultura de qualidade, já isolada nos salões e nos museus, incluindo uma cultura produzida pelas classes pobres no passado, que nada tinha de medíocre ou vulgar, acaba sendo mais isolada ainda.

Afinal, se antes a classe média baixa poderia apreciar uma MPB autêntica ou ter acesso a referenciais sócio-culturais um pouco mais nobres, hoje nem isso mais acontece. Em vez da classe média baixa ter oportunidade, por exemplo, de ler um livro de Carlos Drummond de Andrade, ela é entregue pela mesma imprensa jagunça que a grande mídia despeja para o consumo das classes pobres.

A classe média baixa é entregue ao Big Brother Brasil, ao noticiário policialesco da televisão, às tendências "comportadas" da Música de Cabresto Brasileira ("sertanejo", "pagode romântico", axé-music, ou mesmo ao "funk carioca" mais pomposo), entre outros valores e referenciais duvidosos.

A situação torna-se tão grave que, mediante o acesso das classes populares ao ensino superior, o mercadão da mídia golpista já começa a empurrar vertentes "universitárias" do brega-popularesco, que não passam dos mesmos neo-bregas de sempre turbinados com alguma teoria enciclopédica do pop internacional.

Em outras palavras, um neo-brega que já não espera mais completar dez anos de carreira para iniciar curso trainée de "boa conduta cultural", já vem adestrada por essa técnica.

Enquanto a classe média paternalista comemora por que, finalmente, a "cultura popular" passou a ser "respeitada" pelas elites, o que se vê é o contrário. Coroa-se a mediocridade cultural dominante com o consentimento de uma classe média que tem medo de aumentar o salário de suas domésticas, mas bajula o que elas consomem da TV aberta, do rádio FM e da imprensa "popular", veículos midiáticos que também são controlados por seus baronetes.

Isola-se a cultura de qualidade, que em outros tempos até o povo das senzalas, quilombos e ocas podiam muito bem fazer, na apreciação cada vez mais privativa de profissionais liberais e empresários, de socialites e granfinos, enquanto a mediocridade cultural que as oligarquias midiáticas há mais de 50 anos empurram para as classes pobres agora elevam sua escalada de domínio para classes com alguma qualidade de vida.

O povo pobre não pode mais fazer baiões, sambas autênticos, modinhas, xaxados, lundus. Esses agora são confinados nos museus, para o deleite exclusivo dos grandes condôminos. Não deixa de ser uma infeliz ironia que o baião nordestino seja praticamente uma exclusividade de jovens de classe média do Sul e do Sudeste.

Mas os nordestinos são "brindados" pelo "moderno" caleidoscópio veiculado pela TV, pela imprensa e pelo rádio oligárquicos. E podem "misturar" disco music com merengue e country e colocar sanfona gaúcha em cima, que é o caso do forró-brega. Ou podem "misturar" merengue caricata com Jovem Guarda e, sob o rótulo de "samba-reggae", fazer axé-music. Ou fazer um "sertanejo" composto de raspas de country, mariachis e boleros, que vira "universitário" quando se põe influências estereotipadas de folk rock.

Isso não fortalece a cidadania nem traz benefícios reais para a população. O fosso cultural dificilmente se resolverá quando, de um lado, os ídolos bregas e neo-bregas fazem covers ou gravam duetos de MPB autêntica, ou quando grupos "performáticos" - tipo Conjunto Vazio e Orquestra Superpopular - cortejam o establishment brega e neo-brega.

Antes são as elites passando a mão na cabeça, paternalmente, nas classes pobres que àquelas servem, como dondocas que conversam carinhosamente com seus cãezinhos domésticos. Nenhum benefício social ocorre com essa "inclusão social", porque isso não passa do que o apoio das elites à domesticação sócio-cultural das classes pobres que move o mercado da grande mídia.

É certo que o brega-popularesco possui seus espaços de expressão e apreciação, mas seus próprios ídolos desconhecem isso, na obsessão de "inclusão" no status quo "cultural" que, no plano musical, trata a sigla MPB como um simples título de nobreza para a vaidade pessoal dos bregas e neo-bregas. Tudo para o bem do mercado, mas nada para a Cultura, com "c" maiúsculo, de forte serventia social.

Enquanto isso, nada de lundus, baiões, nada de Bossa Nova nem de Clube da Esquina sequer. A intelectualidade, arrogantemente, "cansou" da MPB que só ela ouvia privativamente e seus jornalistas e cientistas sociais agora passam a "redescobrir" o brega-popularesco numa ilusão semelhante ao que a esquerda dos anos 60 teve com a burguesia nacional.

Naqueles idos de 1960-1964, pensava-se que a burguesia nacional iria tocar para a frente o projeto de revolução social da esquerda brasileira. Mas a burguesia nacional apunhalou as esquerdas pelas costas e, entrincheiradas no IPES-IBAD e outros grupos derivados, pediu o golpe militar que a fez associar-se serenamente ao capital estrangeiro.

Hoje acredita-se que a revolução social das esquerdas se dará pelo "convívio integrado" entre bregas e neo-bregas com a intelectualidade, mas a "breguesia" também irá apunhalar os esquerdistas pelas costas, como aliás já fizeram vários ídolos, como a Banda Calypso e todo o "funk carioca".

A "breguesia" usa a mídia esquerdista como trampolim para forjar sua falsa imagem de coitadinha. Mas, depois, todo mundo vai apunhalando os caros amigos e desfila triunfante nas páginas da Folha de São Paulo e na telinha da Rede Globo, sem qualquer escrúpulos de abraçar fraternalmente celebridades engajadas no direitismo militante do Instituto Millenium.

Pois não existe apartheid cultural pior do que aquele que priva a cultura de qualidade para as classes populares e que obriga a intelectualidade a apoiar essa mediocrização cultural, enquanto reserva para si própria as preciosidades culturais das quais o povo não tem acesso.

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