segunda-feira, 29 de agosto de 2011

NINGUÉM É BOM PORQUE É REJEITADO



Por Alexandre Figueiredo

Em artigo publicado na revista Fórum, o jornalista (de direita) Pedro Alexandre Sanches tenta eleger mais um coitado para a galeria dos "admiráveis sofredores" da música popular(esca) brasileira, o cantor de sambrega Leandro Lehart.

No mesmo mês, o todo sempre discípulo de Otávio Frias Filho já havia feito também sua defesa ao "funk carioca", no seu texto da Caros Amigos do mesmo mês de agosto, servindo-se à arrogância daqueles que acreditam que o "funk carioca veio pra ficar", num excesso de pretensiosismo que já começa a chatear muita gente boa, aquela que não endeusa uma panelinha de intelectuais mais preocupados em salvar o playlist da Nativa FM do que a verdadeira cultura brasileira, perdida nos museus ou aprisionada nas mansões.

A defesa de ídolos que fizeram a música brega ou neo-brega em períodos políticos conservadores, seja Waldick Soriano, Odair José, seja o "funk carioca", seja Zezé Di Camargo & Luciano, Michael Sullivan, Tati Quebra-Barraco ("musa" num período onde estourava o escândalo do "mensalão") tem sempre um ponto em comum: promover o ídolo bem-sucedido como se fosse um coitadinho, como uma suposta vítima de "preconceitos" expressos na rejeição consequente do sucesso comercial.

Ora, sabemos que a música brega-popularesca sempre foi comercial e nunca tinha pretensões de valor artístico ou reconhecimento cultural. Mas, de uns dez anos para cá, surgiu uma campanha, que já entra num ponto de saturação, de tentar salvar os ídolos comerciais da música radiofônica dos períodos de Geisel, Sarney, Collor e FHC (todos governos conservadores), sob o pretexto de que seus ídolos são "vítimas de preconceito".

É aquele papo. Fulano vendeu muitos discos, lotou plateias em todo o país, mas ele fica mais preocupado com as críticas que sofre por sua mediocridade artística (que ele não admite), e seu sofrimento é levado ao exagero em relatos desesperados. Como se o ídolo em questão nunca tivesse feito sucesso na vida.

A intelectualidade que defende tais ídolos - que, sabemos, tem em Pedro Alexandre Sanches seu queridinho atual - tem sua formação ideológica baseada na adaptação das ideias de Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort, José Serra, Mailson da Nóbrega e outros ao âmbito da cultura popular.

Foram eles que ofereceram subsídios teóricos para a geração de Paulo César Araújo, Hermano Vianna, Pedro Alexandre Sanches, Mônica Neves Leme, Ronaldo Lemos e outros. Em outras palavras, é um pensamento de direita que tenta ser empurrado para o âmbito da esquerda só por causa de uma suposta (mas claramente paternalista) solidariedade com o povo pobre.

E aí acham que a cultura do povo pobre é assim "superior na sua inferioridade". Como se o povo pobre "não sabe" e "faz sem saber", mas desenvolve uma "sabedoria no que não sabe". Um discurso confuso, que claramente não tem o menor sentido lógico, mas que arrebanha adeptos pelo sentimentalismo fácil que expressa no seu dócil paternalismo.

Mas chega a ser curioso que esse discurso é acionado logo no momento em que as classes populares realizam manifestações no resto do mundo e, logo próximo a nós, no Chile, o povo protesta contra as arbitrariedades do presidente Sebastian Piñera.

Porque, para os festejados intelectuais brasileiros, o povo tem que ficar quietinho ouvindo sua rádio FM, vendo TV aberta, indo para o galpão mega show consumir os sucessos do momento, e acreditar que está fazendo "movimento social" com isso.

E tudo isso à base da campanha do coitadinho. O que faz com que as pregações ideológicas de Pedro Alexandre Sanches não sejam muito diferentes do assistencialismo de butique do Criança Esperança. As semelhanças entre a defesa de bregas e neo-bregas e o paternalismo do projeto "filantrópico" das Organizações Globo chegam a ser gritantes.

Aliás, o próprio Criança Esperança oferece, em seu cardápio "artístico", muitos dos "coitadinhos" de amanhã que por enquanto estão no topo das listas da Nativa FM, Beat 98, Band FM, Transcontinental e similares. E que, quando está à beira do ostracismo, é socorrida pela retórica confusa e cheia de referenciais alucinados do intelectual de plantão, podendo ser um sinistro Paulo César Araújo ou um tendencioso Pedro Alex Sanches.

Depois do sucesso de anos, se o ídolo brega-popularesco se desgasta, passa a trabalhar sua pose de vítima, com seu dramalhão momentâneo, que vai recolocá-lo nas paradas de sucesso agora com um status mais "superior", porque voltará para as rádios sob a imagem "reciclada" do coitadinho que venceu.

Só que ninguém é bom porque é rejeitado. Aí é que está a farsa.

Imagine se numa formatura da faculdade, o orador, em vez de dizer que venceu com seu próprio esforço, faça um discurso que enumera qualquer tipo de infortúnio, até com exagero dramático, dizendo-se vítima, sofredor, rejeitado e coisa e tal. Certamente os colegas sairão um a um do evento, indo embora chateados com um discurso tão metido.

É isso que acontece com a música. Ídolos meramente comerciais que, querendo ser levados demasiadamente a sério, se fazem de vítimas, trabalham exageradamente sua imagem de coitadinhos, numa arrogância às avessas, numa presunção do sofrimento.

Pois se passar por vítima não vai enobrecer os ídolos da mediocridade midiática de anos atrás. Muitas vezes é melhor um ostracismo decente do que uma volta arrogante ao sucesso. A retaguarda musical brasileira nunca vai se tornar vanguarda porque seus ídolos são os coitadinhos mais adorados por uma panelinha de intelectuais festejados.

Até porque houve várias tentativas de reabilitação - os próprios ídolos bregas "socorridos" por PC Araújo são prova disso - nunca fizeram dos ídolos-coitados nomes realmente respeitáveis e admiráveis da nossa música. Pelo contrário, fora as festinhas adolescentes e os redutos de bebedeira nos bares, bregas e neo-bregas nem de longe entraram no primeiro time da MPB.

É por isso que a intelectualidade solidária com esses coitados-de-proveta anda desgostosa com a MPB. E prefere mandar bala contra a música brasileira do passado, feita de peito erguido, olhando para a frente, com boas melodias e sem explorar o papel de ridículo ou de vítima.

BIAFRA - O cantor Biafra fez parte de uma fase menor da MPB, com Guilherme Arantes, Dalto e outros. Biafra pode não ter sido um gênio, mas tornou-se admirável pelo senso de humor e pela humildade. Não se aproveita da rejeição que sofre para se passar por uma pretensiosa grandeza.

Quando ídolos bregas e neo-bregas - de Waldick Soriano a MC Leonardo - são sujeitos de toda uma choradeira para que os mesmos sejam levados a sério demais, Biafra aparece num comercial de seguros de um conhecido banco na imagem de um cantor "chato", "tão chato" que nem um ladrão é capaz de aguentar ouvir sua voz.

Em vez de Biafra dizer que "sofreu de fome", "perdeu parentes", "foi escorraçado pela crítica" e tudo o mais, ele encarou sua má fama com bom humor. Certamente ele no fundo não concorda com isso, mas ele achou melhor brincar com sua "má reputação" do que posar-se de vítima.

Dessa maneira, Biafra marcou pontos diante de um Leandro Lehart em pose de coitadinho.

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