quinta-feira, 4 de agosto de 2011

NELSON JOBIM SAI DO MINISTÉRIO DA DEFESA; CELSO AMORIM ENTRA NO LUGAR



Por Alexandre Figueiredo

Antes que baixasse o fantasma de Odílio Denys em Nelson Jobim, este desistiu de ficar no cargo de ministro da Defesa. Hoje ele teve uma conversa com a presidenta Dilma Rousseff e entregou a ela sua carta de demissão.

Há muito Nelson Jobim já não despertava confiança. Era um tucano mascarado, um conservador enrustido, que o jornalista Rodrigo Vianna definiu como ministro fanfarrão.

A alusão a Odílio Denys, antigo ministro da Guerra de Jânio Quadros, há exatos 50 anos, se deve pelo fato do ministério ser praticamente o mesmo. Apenas tinha outro nome: ministério da Guerra. Como os tempos são outros, o ministério hoje é conhecido como o da Defesa. Mas dá no mesmo: representando o Exército, é o carro-chefe ministerial das Forças Armadas.

Odílio foi amigo do marechal Henrique Teixeira Lott naqueles anos de crise posteriores ao do suicídio de Getúlio Vargas, em 1954. Era crise atrás de crise, de 1953 a 1956 - e outras crises vieram depois, até a crise-mor do regime militar - , e Vargas morto deu lugar a Café Filho que depois ficou doente e entregou o poder ao presidente da Câmara dos Deputados, Carlos Luz que, com Luz só no nome, apoiou a trevosa ideia do golpe contra Juscelino Kubitschek, eleito presidente mas hostilizado pela direita udenista por não ter tido "maioria absoluta de votos".

Aí veio Henrique Lott, o então ministro da Guerra de Café Filho, preocupado com o golpe e Odílio, então amicíssimo de Lott, o aconselhou a criar um contragolpe para garantir a posse de Juscelino. E tivemos JK e seu governo controverso, mas histórico.

Mas Odílio virou-se aos poucos para a direita, e, ministro da Guerra de Jânio, logo após a renúncia dele, chegou a ordenar a prisão do ex-amigo Lott - que havia sido candidato à presidência mas foi derrotado pelo "homem da vassoura" - , de quem estava rompido algum tempo antes.

Isso porque Lott lançou um manifesto defendendo o respeito à Constituição Federal (na época era a de 1946) que previa a posse do vice, que era o "temível" João Goulart (que tinha um programa político parecido com o de Lula).

Odílio parecia rosnar que nem fera. Naquela época não se falava em pitbull nem em Rottweiler, mas em buldogue. E queria até prender Jango, se ele chegasse mais rápido ao Brasil. O gaúcho teve que esperar no exterior a crise passar. Mas na crise o decorativo presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, parecia não ter o poder que a Constituição lhe deu, de tanta prepotência tinha Odílio Denys e os outros ministros Sílvio Heck (da Marinha - participou do plano de golpe de Carlos Luz e Carlos Lacerda em 1955) e Grün Moss (da Aeronáutica - colaborador do IBAD-IPES, o Instituto Millenium da época), os dois fazendo coro ao primeiro.

Bom, não precisamos dizer o desfecho de 1961, com Jango presidente num parlamentarismo governado por um Tancredo Neves que teve que se contentar em ter sido primeiro-ministro, porque não viveu para ter a presidência da República em suas mãos em 1985.

Passou-se o tempo e o Ministério da Guerra é hoje o Ministério da Defesa. Nelson Jobim, amigo dos tucanos (em 1961 FHC era um professor apolítico da USP e José Serra um estudante da esquerda católica), teve que tirar o boné, antes que virasse oposição dentro do governo. E em seu lugar entrou Celso Amorim, que, como ministro das Relações Exteriores, foi marcado por uma atuação sensata e habilidosa, uma das mais brilhantes da pasta.

A esperança é que, em vez do espírito de Odílio Denys baixar em Nelson Jobim, o espírito de Lott venha a proteger e apoiar Celso Amorim nesse seu novo trabalho.

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